que cheguem até vocês

Acredito demais no poder das palavras e da troca.

Sinto que é preciso treinar o expressar-se desde cedo. Treinar nossas crianças para que sejam adultos que consigam expressar sentimentos, sem vergonha, sem medo.

Lembro-me de minha adolescência e do sonho de ser jornalista. Queria fazer jornalismo para atuar numa redação. Nunca pensei em câmeras, em ser âncora, mas sempre em escrever.

O jornalismo se foi. Não passei no vestibular e, quando tive dinheiro para pagar a faculdade, optei por letras. Não me arrependo. O amor pelas palavras e pelo poder delas aumentou durante os anos de graduação. A troca com pessoas incríveis me fez entender que não se tratava de uma ou outra profissão, mas essencialmente das palavras e do que com elas conseguiria alcançar.

Sei que sempre tive facilidade em expressar sentimentos. Nunca os escondi, nunca tentei abafá-los. Ter o Sol num signo de Água me faz intensa. Ter Mercúrio nesse mesmo signo faz com que a comunicação em mim também tenha de ser experimentada de forma profunda.

Já provei o doce e o amargo das palavras. Desde cedo ouço que, quando quero, sei ferir com o que digo. Mas não é do lado ruim das palavras que quero dizer. Na verdade, é do poder.

Ano passado, uma pessoa se apaixonou perdidamente por mim. Sabendo que não haveria possibilidade de transformar a paixão em relacionamento, ainda assim ela se declarou e o fez de maneira tão poderosa, tão clara, límpida e forte, que eu me inundei com aquela beleza.

Às vezes, sonho que estou escrevendo. Só que não sou dedicada o suficiente para deixar ao lado da cama um caderno e acordar para rabiscar o que me veio à mente durante o sono. Talvez fosse necessário para não esquecer. Talvez fosse necessário para tornar real o desejo de me expressar cada vez melhor através das palavras.

Se, como disse Rupi Kaur, “nada importa/ exceto o amor e a conexão entre as pessoas”, pretendo tornar cada vez mais fluente minha habilidade de demonstrar amor pelas palavras. Quero que me vejam em cada linha que escrevo. Quero que se vejam em cada linha que escrevo.

Quero respirar com a certeza de que sou boa nisso, sem medo, sem vergonha. Sentir orgulho de mim mesma e sentir que abraço alguém que me lê, da mesma maneira que tantos autores me abraçaram quando os li.

Quero que cada pessoa com quem tive alguma intimidade saiba que ela está aqui, e que é por meio dos meus textos e das palavras que saltam de mim que consigo expressar parte do arrebatamento que me tomou quando com elas estive.

Não tenho muito a oferecer, sei que vou morrer sem deixar algo grandioso, mas quero que minhas palavras sejam sentidas, porque é através delas que me expresso melhor.


Originally published at desafiandoosilencio.wordpress.com on July 14, 2017.

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