Governo, o que você está fazendo nas redes sociais?

O exemplo do perfil “HumanizaRedes” abaixo é a representação condensada de como os governos, através de suas empresas e órgãos, estão se comunicando nas redes sociais. Esclarecendo que a crítica do exemplo é ao formato, não ao que é defendido na peça. Pessoalmente sou a favor e defendo a união oficial entre pessoas do mesmo sexo…

…mas eu não preciso ser viado pra isso. (A publicação original foi deletada, indicando uma sensibilidade mínima à recepção negativa do público, inclusive LGBT.)

Seja um governo local ou nacional, através de suas secretarias e ministérios, a comunicação via redes sociais enfrenta o maior desafio contextual dos últimos dez anos de comunicação digital. Há dez anos, se havia, era pouquíssima a preocupação com comunicação oficial em meio digital. Hoje o comportamento do governo é equivalente ao de 9 anos atrás, só que com anabolizantes: Uma velha novidade com potencial viral que merece ser explorada.

O problema é que essa busca desesperada por “gerar um case”, ou apresentar bons números para garantir verba, parece ignorar todos os embates políticos que o país enfrenta desde 2013. Governadores, prefeitos e legisladores de todas as esferas perderam o respeito de grande (enorme, na verdade) parte da população, que imediatamente vincula as malfeitorias a todo tipo de mal ocorrido no governo, além do governo em si.

O errado vem do governo, o mal vem do governo, ele é a toda causa de qualquer consequência negativa. O tempo de “comunicação despojada na linguagem das redes” já passou.

A população não quer mais “capivaras de prefeitura”. Ela precisa de seriedade.

Esta foto icônica deveria ter sido um marco na comunicação de governo deste país, com uma preocupação única: Prestar contas e dar explicações. Abaixar a cabeça e dizer “Sim sr./sra.” para todo questionamento e, se não um a um, reunidos e transformados em FAQ, com fontes de consulta e em linguagem acessível à população.

Para isso, seria necessário um trabalho um pouco mais específico do que gerar conteúdo com potencial viral, mas pesquisar estatísticas, apresentar relatórios públicos de transparência e todo meio necessário para desmentir boatos e notícias falsas, amplamente espalhadas na rede. Mas o governo preferiu seguir o caminho da intransigência ideológica, da insistência em teorias conspiratórias, na confusão e ocultação de informações. Ele não quer colaborar e tentar mostrar como faz as coisas, quer continuar vivendo em negação.

Fora do governo, alguns profissionais responsáveis pela atuação chegam até mesmo a defender cegamente a publicidade descerebrada das peças que causam negatividade com este tipo de argumento, que é um pensamento real de profissional atuante em agência que atende governo em Brasília:

“Pelo teor negativo do comentário ele já pode ser desqualificado”.

Sim, ignorar a negatividade e vender isto como correto para o cliente governo, como se ele já não soubesse muito bem como se enrolar sozinho em redes sociais. Ignorar que a comunicação está sendo rejeitada, renegada, questionada ou apenas ineficiente.

Realmente isto poderia não causar danos, se a rede social se resumisse a internet e grupos de Whatsapp, mas ela está na mesa do boteco, no bebedouro do escritório, no churrasco de domingo. É nestes lugares que as pessoas conversam sobre “aquele post maluco daquele órgão do governo”.

Não espere que as pessoas dos “dois lados” concordem no meio da manifestação com um muro entre elas, mas pode ter certeza absoluta de que elas vão concordar quando falarem sobre isso no churrasco.

A solução? O governo parar de se comunicar apenas consigo mesmo e com governistas. Converse com quem lhe atira as pedras.