O “kit de detecção de bobagens” de Carl Sagan

Reforço cognitivo necessário contra propaganda, pseudo-ciências e mentiras em geral.

Acabei de ler esse texto e o imaginei como um belíssimo textão de internet, daqueles que se espalham como gripe em metrô lotado ou spoiler de Game of Thrones nas dez segundas-feiras mais debatidas do ano, na internet. Adaptei e reduzi, traduzindo de forma completamente livre. Não julgando Carl Sagan, mas considerei um ponto redundante e unifiquei. Ou seja: Não tem nada a ver com o original.

Há um capítulo no livro “O Mundo Assombrado Pelos Demônios”, de Carl Sagan, no qual ele apresenta uma metodologia de percepção e “desqualificação de papo furado”. Esta é uma boa forma de manter um certo nível de ceticismo, sem perder a mente aberta necessária para considerar uma nova percepção de convicções caducas e equivocadas. Nossa suscetibilidade torna nossas “certezas imutáveis” tão frágeis quanto os ovos que ao menos deveríamos nos obrigar a pisar, em todo debate polêmico.

1- Os fatos precisam ser validados por meios independentes.
Exemplo: Nenhum dado é tão alarmante quanto a oposição indica ou tão positivo quanto o governo alega, se avaliado por eles próprios. Costuma ser, inclusive, o mesmo dado.

2- Encorajar o debate sob todos os pontos de vista possíveis. Ou da forma mais ampla possível.
Exemplo: “Está na bíblia” não é um argumento. É mera imposição de dogma em sociedade não teocrática. Costuma ser acompanhado com comprovação científica, inclusive já estabelecida há centenas (e às vezes milhares) de anos.

Questionar os argumentos de “autoridades” como qualquer outro.
Exemplo: Albert Einstein recusava a proposição de um universo expansivo até Hubble (sim, o próprio) mostrar seus estudos pessoalmente a ele. Autoridades também erram (ou são teimosas).

Pense em várias hipóteses e coloque todas à prova. Navalha de Occam. .
Exemplo: Considerar que exista “cristofobia”, quando não há cristãos sendo mortos em becos escuros por serem cristãos, como acontece com homossexuais. Serve ao “racismo inverso” e “heterofobia”, falácias modernas porém já clássicas, em construções argumentativas pobres. O princípio simples de que se há mais de uma hipótese que explica algo, respeitando a consistência argumentativa, a mais simples deve ser a escolha

Não se apegue a uma hipótese só porque é formulação sua.
Exemplo: Opinião não é conhecimento, portanto o que pra você é verdade absoluta, no “mundo real” pode ser apenas um equívoco esperando ser percebido. Coloque sua interpretação à prova e a outros prismas.

Quantifique. Qualquer número que reforce a hipótese tem mais peso do que o achismo. Lembrando sempre de respeitar a independência e qualificar as “autoridades” da fonte.
Exemplo: 0,01% dos menores infratores cometem crimes contra a vida no Brasil VERSUS a reincidência criminal que alcança 70%, sendo 41% menores de idade. Estatística generaliza, números exatos são problemas reais.

Respeitar uma sequência argumentativa consistente.
Exemplo: Não faz sentido defender o feminismo achando que mulheres precisam “se dar ao respeito” ou “não usar saia à noite”. É uma simples questão de coerência e estabilidade lógica da distribuição das “liberdades” de gênero.

Sempre questionar se uma hipótese é falsa, mas ceticismo por ele mesmo é apenas teimosia. É preciso testar e consultar dados que comprovem ou desmintam.
Exemplo: Se não for possível testar, ou mesmofalsificar uma proposição, também não será possível prová-la.

Não crio falsas esperanças de que todos estes passos sejam seguidos durante uma acalorada discussão nos comentários de alguma publicação de Facebook, ou na mesa de um bar, mas o que sinto falta hoje é de tentativas de trazer o bom senso através de descoberta pelo direcionamento de raciocínio, não pela imposição truculenta de opiniões, mesmo quando corretas.

Nem o mais correto dos debatedores consegue convencer alguém estabelecendo de antemão que é superior ao interlocutor.

O texto na íntegra, de Maria Popova: http://www.brainpickings.org/2014/01/03/baloney-detection-kit-carl-sagan/