UMA BOA ALMA

O pátio interior havia sido mobiliado com os bancos do refeitório, pois era um momento especial. Alguns alunos já haviam descido de suas respectivas salas de aula, e iam ocupando esparsamente os assentos. Acompanhado da professora coordenadora, o diretor da escola dizia algo à visitante; Idnara, porém, ouvia-o sem escutar. Seu rosto estava voltado para o recinto cheio de assentos: buscava com um olhar caritativo os olhos dos alunos que se achegavam. Cabeceou sorrindo a uma jovem que pasmava para o cabelo esgrouvinhado daquela senhora grisalha de narizinho adunco; mas não encontrou olhar nenhum, pois a adolescente logo reorientou sua atenção para um ponto indefinido qualquer. Não obstante, Idnara permaneceu catando olhares.

— “Dra. Marcido?…”, interrogava o diretor.

Idnara fitou-o como quem desperta de uma contemplação. O homem apontava para ela uns olhos tremelicantes. Era um sujeito calvo, de bigode pardacento e bochechas flácidas. Enxugava o suor da testa com um grande lenço azul, que perpetuamente retirava de algum dos bolsos da calça marrom de linho.

— “A Dra. Marcido foi enviada pela supervisora”, disse o diretor à professora coordenadora. E voltando-se para Idnara:

— “E é advogada, não é?”

— “Sim; aposentada”, respondeu. “Mas já fui professora há muito tempo atrás…”, completou sorrindo satisfeita consigo.

— “De quê?”, perguntou a professora coordenadora.

— “De Inglês.”

— “What a nice surprise! So you…”, entusiasmou-se a coordenadora.

Idnara vexou-se. Sinalizando com uma das mãos e balançando a cabeça, interrompeu:

— “Faz tempo eu não pratico.”

— “Ahn!…”, fizeram ambos, compreensivos (e aplicando mais os ouvidos para escutar melhor a ex-professora).

— “Eu ministrei apenas um dia de aula”, e para atenuar um iminente embaraço, completou: “Eu era inexperiente. Me puseram na sala de aula e…” (tosse) “Desculpe, não estou muito bem da garganta… Enfim, um aluno… Eu perdi a cabeça e acabei gritando com ele… Daí eu vi que não dava para isso…”, ergueu a cabeça e catolizou: “Eles são crianças. Jamais devemos gritar com as crianças. Estão em formação ainda e… e…”, fechou os olhos procurando mais palavras. “Devemos dar esperança a elas”, arrematou, convicta, olhando nos olhos daqueles dois.

O diretor quis falar algo, e até abriu a boca para fazê-lo, mas desistiu. Enxugou a calva com o grande lenço azul, tornou a pô-lo no bolso. Baixou os olhos como procurasse algo. Por fim, encorajou-se:

— “Boa palestra”, disse, mordendo o lábio inferior, despediu-se da professora coordenadora, enfiou-se por um corredor e sumiu.

Mais alunos afluíam pelos portões ao fundo. Catucavam-se, riam, alguns gritavam, um deles arrostava uma professora que ousava reparar-lhe a conduta. Pouco a pouco, todos os lugares disponíveis foram sendo ocupados. Professores tomavam postos estratégicos nas raias do lugar; cruzavam os braços, de sobrolhos carregados patrulhavam em duplas ou sozinhos.

A advogada aposentada logo voltava sua atenção ao público que ia enchendo o lugar com crescente burburinho de conversas juvenis. Retorcia com as mãos as pontas soltas da paxemina bordô de detalhes em dourado. Idnara decidira usar vestes mais coloquiais para não transmitir uma imagem muito “careta” aos “jovens estudantes”. Calçava uma papete de couro e trajava um agasalho esportivo de poliéster azul escuro, de listras duplas laterais; usava uma bolsa à tiracolo, pequena. Ela havia assistido num canal de tevê o caso de uma rixa entre alunos de uma escola: alunas haviam, depois de espancá-la, raspado o cabelo de uma outra, e por causa de um menino cobiçado por duas delas. Ficou chocada e decidiu que “precisava fazer algo pelas crianças”. Uma superintendente, parenta sua, ouviu-lhe o plano, acedeu e ordenou num ofício: “Cumpra-se”. Agora, lá estava para uma missão social.

A professora coordenadora tomou um microfone à mão, ligou-o, deu-lhe umas pancadinhas na cúpula.

— “Teste. Som. Som. Bom dia a todos, alunos, professores…. Temos hoje, por conta de um projeto da diretoria de ensino de nossa região uma palestra com a Dra. Idnara Marcido, advogada aposentada. Peço que ouçam com atenção e respeito”, sublinhou a último pedido enquanto fustigava com os olhos um grupo de alunos caçoístas.

Passou o microfone à palestrante.

Idnara tomou o microfone com as mãos e, antes de falar, vagueou uma expressão fraterna.

— “Bom dia.”

Ouviu-se alguns bons-dias aqui e acolá.

— “Vocês não tomaram café hoje?”, brincou. “Bom dia!”, disse num tom mais entusiasmado e uma patusca abanadela de cabeça.

Silêncio. Entreolhares. Pasmaceira.

— “O nosso tema hoje é… Por favor, pode projetar o primeiro slide?” A professora coordenadora iniciou uma seqüência de procedimentos. Apareceu numa tela próxima à parede a frase “Por Uma Sociedade Respeitante”. Idnara ainda segurando o microfone com ambas as mãos, prosseguiu:

— “Nós devemos aprender a aprender a respeitar o próximo. Todos nós vivemos em sociedade. Ninguém vive sozinho. Onde nós estivermos… (tosse), em todo lugar sempre há pessoas próximas de nós: o papai, a mamãe, o irmãozinho, a irmãzinha, o tio, a tia, os vizinhos; na escola, os coleguinhas, os professores. Ou seja… Alguém aqui vive sozinho? Levante a sua mão. Viu? Ninguém. Ou seja, sempre temos pessoas próximas de nós, então devemos procurar, buscar uma forma de nós convivermos”, tossiu mais uma vez, empunhou uma garrafa de água próxima a si, escusou-se e bebeu alguns goles, “…de nós convivermos melhor uns com os outros”. Fez uma pausa dramática para sentir em seu público o efeito do que dissera.

— “Diante das injustiças que as pessoas cometem umas para com as outras, temos leis em nosso país que regem as relações a fim de tornar essas relações melhores. Alguém aqui sabia disso? Levante a sua mão quem já sabia, por favor. Ninguém sabia? Existem leis específicas que servem para proteger várias camadas da sociedade, inclusive a camada a qual vocês pertencem, a camada dos mais jovens, crianças e adolescentes: vocês”, disse enfaticamente, sinalando com o seu dedo indicador todos na platéia.

Enquanto discursava, via que uma professora, num tom sussurrante, advertira muitas vezes um aluno. O aluno era um mirradinho, de roupas muito largas, que escondia a cabeça no capuz de moletom branco, encardido assim como seu tênis; do pouco que se via, até o seu rosto parecia um tanto encardido também. Ele tinha suas mãos enfiadas nos bolsos das calças, e, com um olhar rancoroso, arrostava a professora. No seu mais íntimo, diante da improbada atitude da professora, Idnara apiedou-se do aluno.

— “Mas não basta a lei escrita para acabar com as injustiças nas relações entre as pessoas. É preciso o afeto, é necessário o afeto, é necessário amar”, disse separando bem as sílabas deste último verbo. “É necessário demonstrar esse amor pelas pessoas ao nosso redor, em todos os espaços em todas as circunstâncias”.

Idnara simulou procurar alguém dentre os educandos. Parou o seu olhar justamente no aluno mirradinho, que agora estava de cabeça baixa, remoendo sua cólera. Idnara apontou para ele:

— “Ei, você. Qual é o seu nome?”

O garoto nem notou que falavam com ele. Um colega, caçoando, deu-lhe uma cotovelada. Voltou-se iracundo para o lado, mas logo percebeu que era o foco das atenções de todos.

— “Sim, você. Qual é o seu nome?”

Não respondeu à pergunta.

— “O nome dele é Ecálisson”, informou-lha a professora coordenadora ao ouvido.

— “Ah! Ecálisson! Ecálisson, venha até aqui, por favor. Não, não fique acanhado, venha”.

O menino olhou-a friamente. Não se moveu.

— “Venha, Ecálisson”, insistia. Enquanto os demais alunos abafavam o riso.

Uma das professoras ordenou que o aluno se levantasse e fôsse ao encontro da palestrante. Como o aluno resistisse, ordenou mais severamente.

Idnara vendo aquilo, muito indignada, disse à professora, num tom contido de reprovação:

— “Ele virá, professora. Isso aí não é necessário”.

A professora corou.

— “Ecálisson, insisto, venha até aqui, por favor”.

O aluno, satisfeito, olhou para a professora, sorriu para o colega ao lado e mussitou-lhe algo; deixou-se demorar mais um pouco, daí levantou-se rápido e caminhou lentamente em direção à palestrante.

Idnara o aguardava jubilosa, segurando o microfone com ambas as mãos. Quando ele chegou, Idnara abaixou-se um pouco e fez uma série rápida de perguntas pessoais sobre o jovem, sua família, seus sonhos, seus estudos. As respostas vinham hesitantes, lacônicas, ambíguas, estorvadas. Idnara convenceu-se de que era uma pobre alma a do garoto.

— “Eu disse muitas palavras aqui, porém quero demonstrar que as nossas palavras devem se transformar em atitudes, devem se tornar atitudinais”. Um tremor interno logo evoluiu para olhos lacrimejantes. “Ecálisson, eu quero lhe dizer que você não deve desistir de seus sonhos; lute!”

Sob aplausos, o menino, num arregalo de olhos, viu-se surpreendido entre os braços da senhora. Desnorteado a princípio, retribuiu o abraço; levando, porém, uma mão dissimulada à bolsa de Idnara.

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