Revistas de bordo: um desafio em pleno ar

Há 10 mil metros de altura, uma turbulência, que não é causada por nenhuma intempere climática, atinge a aviação. O entretenimento das Revistas que antes era infalível, agora preocupa as companhias.

Atenção, senhores passageiros. O voo já vai decolar! | Imagem: Pexels.com

Elas já foram sinônimo de prestígio, material muito disputado durante os voos e um símbolo de entretenimento que dava certo. Hoje as Revistas de Bordo passam por um momento totalmente diferente do que enfrentaram por tantas décadas. A disponibilidade de outras formas de entretenimento a bordo das aeronaves, como sinal de internet gratuito, faz com que a cada dia que passe as revistas oferecidas pelas companhias aéreas não saiam do encosto das poltronas dos aviões para serem folhadas.

O grande desafio da maioria delas é a produção de conteúdo pertinente que agrade o número máximo de passageiros possível. No passado, as empresas aéreas investiam forte na elaboração de materiais diversificados em suas revistas, o que as tornava conhecidas mundialmente. Com a preferência do público para outras formas de entretenimento, já que a leitura a bordo ficou como última opção, os investimentos em conteúdo de suas revistas passaram a ficar em segundo plano para grande parte das companhias de aviação.

Como os passageiros já não são sempre obrigados a desligar os celulares e tablets durante a decolagem e a aterrissagem, eles ficam mais do que nunca grudados nos aparelhos eletrônicos, com pouco tempo de interatividade para folhear uma revista.

Em 2010, René Steinhaus, um dos maiores especialistas em aviação do mundo chamou a atenção da comunidade da aviação civil mundial após uma forte declaração na Alemanha:

“As revistas de bordo são dinossauros vivos impressos”.

Steinhaus pode até estar plenamente correto ao dar essa rotulação às revistas. Porém, uma coisa é certa: elas não podem e nem irão morrer. Grande parte dos voos que diariamente riscam os céus do mundo não disponibilizam outras formas de entretenimento durante as viagens, nem permitem a utilização de equipamentos eletrônicos. Portanto, as revistas de bordo acabam sendo a única fonte de distração até se chegar no destino final.

Voando pelo Brasil

Boeing 737–300 da companhia Gol Linhas Aereas Inteligentes com pintura especial em homenagem a Seleção Brasileira de Futebol | Imagem: JetPhotos

Os voos nacionais são os maiores exemplos de que as revistas de bordo não podem acabar. A grande maioria das companhias aéreas não disponibilizam internet Wi-Fi ou uma gama maior de recursos de entretenimento. Desse modo, voar pela pelo Brasil significa que em algum momento, o passageiro ira folhear uma revista.

Nas rotas nacionais, o grande problema que atinge a credibilidade das revistas de bordo em todo o mundo fica claramente visível: a falta de conteúdos pertinentes.

Em voos regionais pelo Brasil, isso se mostra ainda mais gritante. A grande maioria das companhias brasileiras investem em matérias relacionadas aos grandes polos turísticos do país e do exterior, moda, comportamento e negócios, esquecendo de trabalhar conteúdos interessantes ao público de cidades do interior, que utilizam o transporte aéreo regional.

Para Viviane Pimental, 27, moradora de Florianópolis e estudante de Turismo da Universidade Federal de Santa Catarina, as revistas de bordo no Brasil infelizmente estão deixando muito a desejar. Apaixonada por aviação, Viviane lamenta que esse tipo de entretenimento no país não agrade a maioria dos passageiros. Abaixo, seu comentário sobre o tema em Podcast. Ouça!

Focar em matérias direcionadas ao destino dos voos em que o passageiro se encontra é uma tática que rende excelentes resultados. Em 2010 a empresa TAM (atual Latam) através de sua revista de bordo “TAM Nas Nuvens”, foi escolhida a melhor do mundo no setor de entretenimento, graças à seus conteúdos que “dialogaram” com seus leitores.

No Brasil, as companhias aéreas que oferecem hoje revista de bordo própria para os passageiros são a Avianca, Azul Linhas Aéreas, Gol, Latam e Passaredo. Confira a galeria de fotos no Pinterest com alguns exemplares desse tipo de entretenimento oferecidos no país, clicando aqui.


Uma jornada na história

Edição número 1 da Revista Pan An Clipper Travel, de janeiro de 1952

A primeira Revista de bordo que se tem registro foi a Pan Am Clipper, desenvolvida pela empresa aérea estadunidense Pan American Airways, em 1952, mas os passageiros deveriam compra-las para poder usufruir de sua leitura.

Em 1966 a gigante da aviação KLM, da Holanda, começou a ofertar gratuitamente em seus voos a Holland Herald, tornando-se a precursora desse tipo de entretenimento dentro das aeronaves.

Nos anos 1980, inicia-se a época de ouro das revistas de bordo no mundo. A empresa Japan Airlines, por exemplo, produzia uma revista semanal de 300 páginas para disponibilizar em seus voos. Nesse mesmo período, outras companhias aéreas asiáticas chegavam a pagar até U$ 4.000 para jornalistas produzirem artigos especiais.

Nos ares do Brasil coube a Varig lançar em 1983 a primeira revista de bordo em território nacional, a Ícaro, considerada um marco entre as publicações customizadas no país e por se tornar referência na produção de reportagens bilíngues (português e inglês).

Na Ícaro, os passageiros podiam encontrar além de informações da empresa e do modelo do avião em que estavam voando, reportagens especiais sobre todas as cidades atendidas pela Varig no Brasil. Foi e é, até hoje, um dos maiores sucessos se tratando de conteúdos em revistas de bordo na América do Sul.

Somente a partir dos anos 2000 que muitas companhias aéreas deixaram de produzir esse tipo de material, dando lugar a outras formas de entretenimento, como músicas, filmes, jogos, internet e revistas de bordo online.

Em outra galeria no Pinterest, você pode relembrar algumas das primeiras capas de revistas de bordo do passado. Conheça aqui!


Os números na atualidade

Hoje, segundo o site In-flight Magazines, que produz os estudos mais fiéis sobre esse tipo de entretenimento no mundo, existem em circulação cerca de 250 revistas de bordo, desenvolvidas por 237 companhias aéreas de 120 países.

Confira o vídeo, e encontre dados atualizados sobre esse setor no mundo, com base em levantamento feito no ano de 2016 pela Associação Internacional de Transporte Aéreo, IATA:

Produção: Daniel Campos

Desafios pela frente

Buscar a atenção das centenas de milhares de passageiros sempre foi um dos ideais básicos das companhias aéreas. Contudo, com a expansão tecnológica e a facilidade de obter novas formas de entretenimento fará com que cada vez mais as revistas de bordo se aprimorem para agradar nichos diferenciados de públicos. O desafio é fazer com que as publicações sejam atraentes e divertidas para que os passageiros cheguem a abri-las.

Independentemente do formato, as revistas são um modo de desenvolver a marca da empresa aérea e também uma forma alternativa de obter receita por meio das publicidades.

Muito tem a se desenvolver no contexto da aviação regional brasileira e o entretenimento em voo oferecido. É incompreensível que em pleno século XXI companhias aéreas nacionais regrediram na forma de agradar e “conversar” com seu público, não oferecendo conteúdos pertinentes a todos.

As revistas de bordo são, acima de tudo, um cartão de visita da empresa para com seus passageiros.

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