Justiceiros

O caso Quitandinha é só mais um exemplo do poder ampliador que as redes sociais tem de aumentar a capacidade das pessoas de se meter na vida alheia. Foram vários casos e provavelmente ainda virão outros. Eu digo poder ampliador das redes sociais porque já presenciei o mesmo “senso de justiça” antes de termos tais ferramentas sob nosso controle.

Lembro de estar andando na rua (em uma época que não havia internet) e ter reparado em um casal que estava discutindo dentro de um carro. Os demais pedestres pararam e começaram a se revoltar com os gritos que o homem dirigia à mulher. Não chegou a acontecer nada, até onde pude acompanhar. Mas refleti se seria o caso de ter gente se metendo ali. Afinal, ninguém sabia qual a relação dos dois, o que estava acontecendo e quais os motivos levaram o homem a gritar daquele jeito.

Em outra ocasião, dois amigos meus, um homem e uma mulher, que não são casados e não tinham nenhum relacionamento mais íntimo, simularam uma discussão no meio da rua. Estavam brincando, mas os transeuntes justiceiros não perceberam e começaram a se aproximar. Felizmente, nada de mais grave aconteceu.

Já na internet, outros casos ganharam destaque. Entre eles, o da mulher que aparece em vídeo queimando um cachorro com um maçarico. Os justiceiros acharam a mulher, divulgaram o endereço e um vídeo no qual a mesma moça aparecia sendo queimada por uma população revoltada. Os detalhes que não foram notados: o vídeo do cachorro sendo queimado era bem mais antigo, a acusada era brasileira e a outra fora queimada por uma população insana que falava espanhol. Nenhum dos três tinha ligação. Mas a vontade de fazer justiça foi tanta que tudo foi divulgado assim mesmo. O que apareceu depois foi:

  1. O vídeo da mulher queimando o cachorro era bem anterior ao post que viralizou e não foi gravado no Brasil;
  2. A acusada tinha sim gravado um vídeo que vazou na internet, mas era de conteúdo sexual, o que a fez escrever um post em sua página do Facebook sobre o vídeo, sem, no entanto, indicar o conteúdo da gravação;
  3. A mulher queimada havia sido executada por ter queimado um taxista, não um cachorro, em algum país da América do Sul ou Central.

Uma amiga minha divulgou uma foto que mostrava a mulher assassina de cachorros e a acusada que fora flagrada em situações íntimas, lado a lado, e apesar da diferença entre as duas, insistiu que se tratava da mesma pessoa, usando, inclusive, a desculpa de que “em uma das fotos, a mulher aparece com o rosto inclinado”, que, segundo ela, seria motivo suficiente pra serem bem diferentes. Alertada por mim e por outros de que se tratava de três casos diferentes, sem ligações de nenhum tipo, ela continuou divulgando a foto de uma coitada cujo único erro foi ter sido pega transando dentro do carro. Não sei o que aconteceu depois disso, porque todos já esqueceram e ninguém mais tocou no assunto.

O caso Quitandinha foi só mais um no qual os justiceiros apegaram-se a um fato contado em um texto e crucificaram um bar (e todos os que trabalham nele), sem, no entanto, serem justos o suficiente pra saber o outro lado da história. E alguns, mesmo quando souberam, simplesmente ignoraram ou acusaram o estabelecimento de forjar a prova de que nada daquilo havia ocorrido, como se a suposta vítima não fosse capaz de fazer o mesmo ao relatar o que aconteceu.

O ponto aqui não é tomar partido, embora a lógica me force a acreditar mais nas imagens do que em um texto escrito sob sei lá qual motivo. Não sou juiz. O relato da moça é revoltante, mas um livro de ficção também pode ser, mesmo sendo apenas um livro. Por isso evito julgar, embora minha natureza humana me jogue nessa fogueira e acabo percebendo tarde demais. O ponto aqui é o contrário: não tomar partido, por mais que um relato cause revolta. O julgamento (e a punição) nós podemos deixar para quem tem preparo pra isso.