Tentar entender o outro universo é o começo do fim do preconceito

Meus pais se separaram quando eu tinha por volta de dois anos. Não lembro muita coisa dessa época e não sei como é ter pai e mãe morando na mesma casa. Era muito criança quando vivi isso. Mas lembro que em algum momento da minha vida escolar, me incomodava ver meus colegas com pai e mãe enquanto eu tinha ou pai ou mãe. A maioria dos meus colegas (arrisco até falar em totalidade, já que não lembro de conhecer, naquela época, alguém cujos pais haviam se separado)tinha pai e mãe sob o mesmo teto. Eu estranhava. Minha família não era normal. Demorou um tempo (não sei dizer quanto)para que eu entendesse que era muito mais normal do que eu achava.

Sobre a pergunta dita polêmica feita a um rapaz cujo núcleo familiar é composto por duas mães, em um programa de TV, e a respectiva resposta, digo que houve um exagero. Exagero porque quem perguntou vive outra situação. E quis entender o ponto de vista daquele que considerava ser diferente. Não há problema algum nisso. “Como você percebe o fato da maioria das pessoas ter pai e mãe e você ter duas mães?” Foi mais ou menos essa a pergunta. Poderia ter sido dirigida a mim: “como você reagiu quando se deu conta que a maioria dos seus colegas tinha pai e mãe morando juntos e você não?” A pergunta poderia ter sido dirigida a um filho de mãe solteira: “como você reagiu quando percebeu que você só tinha mãe e as outras crianças tinham pai e mãe?” E assim por diante.

Entretanto, sob um contexto homossexual, a pergunta se torna preconceituosa, o que não acontece sob outros contextos. Se a pergunta fosse dirigida a mim, usando o meu exemplo de vida, a resposta aceitável seria o que escrevi no primeiro parágrafo. Se a minha resposta fosse “Como você reagiu sabendo que seus pais vivem sob o mesmo teto?”, eu estaria fugindo da pergunta. É normal ter um pai e uma mãe morando juntos. O que não era normal, na época, para mim, era a minha situação.

Ao crescer e perceber melhor o mundo, o filho de duas mães vai entender que isso é mais normal do que parecia em um primeiro momento. Em outras palavras, a criança vai percebendo o mundo aos poucos e vai notando, também aos poucos, as diferenças que existem entre as pessoas, as famílias e etc. Percebe que as diferenças entre núcleos não estão somente em seus membros, mas em seus hábitos. E não é estranho que surjam perguntas. A questão apresentada ao convidado era sobre isso. Algo do tipo “eu tenho pai e mãe e meus amigos têm pai e mãe. Desde sempre isso foi o que vi e considerei normal. Foi assim com você também?”

Mas hoje em dia se aplaude qualquer coisa. Inclusive uma não-resposta. E o medo de tocar no assunto, de perguntar algo sobre o tema já se mostra na gagueira, na falta de fluência e na frase “não tenho preconceito”. Não precisa ter preconceito para querer entender algo que você não sabe. Basta perguntar. E não precisa ter medo de ser chamado de preconceituoso. Aliás, querer entender o outro universo é o primeiro passo para o fim do preconceito.