A nudez da Yoná

Ali pelos meus 11 anos, descobri a puberdade e as revistinhas de sacanagem (N.R.: Jovem, não havia ainda internet e muito menos o XVideos. A vida era mais dura, se é que você me entende). Na minha cabeça, tudo aconteceu ao mesmo tempo, em uma explosão de hormônios iniciada quando o primeiro exemplar desses gibis eróticos caiu no meu colo (ops!), trazido pelo Wagner, cujo pai possuía uma banca de revistas usadas, paraíso do pornô impresso.

Durante boa parte da minha adolescência, Wagner teve o papel de fornecer o enredo — ou o enredo de fornecer o papel, você decide a melhor construção — das minhas fantasias eróticas. Usava sempre a mesma estratégia: chegava com uma Bizz antiga recheada de diversos exemplares de magazines libidinosos, que eram os primeiros a serem devorados. A Bizz, dedicada à música, era lida depois. Uma espécie de cigarro pós-coito.

Nessa época, passava na TV a novela Roque Santeiro. Um boato na escola, provavelmente espalhado pelo André Bolinha, garantia que às 4 da manhã a Rede Globo exibia as cenas proibidas do folhetim, com os atores fazendo sexo de verdade. De verdade! No dia seguinte, é óbvio, eu me levantei às 3h55 e liguei a televisão da sala, sintonizando aqueles chuviscos que passavam enquanto a programação não entrava no ar. As cenas surgiriam ali, sem aviso prévio, juravam os colegas. Lutei contra o sono cada segundo até amanhecer, a causa valia a pena, mas nada apareceu. Repeti a operação algumas vezes, sem sucesso. Fiquei frustradíssimo de não conseguir acompanhar as atuações impudicas da Patrícia Pillar, da Cássia Kiss, da Cláudia Raia, da Ísis de Oliveira e até mesmo da Yoná Magalhães, que já tinha seus 50 anos mas continuava em grande forma.

Mas aí veio a Playboy, que se não mostrava sexo explícito, compensava essa falha (aos olhos esbugalhados de um adolescente espinhento) publicando em suas páginas as grandes musas da época, diversas delas atrizes de TV, peladinhas da silva. Agora, a revista avisou que isso não vai mais ter, já que nudez se encontra facilmente na internet. Mas eu falava da Playboy. Pois em pleno auge de Roque Santeiro, uma de suas edições trouxe justamente a já cinquentona Yoná Magalhães na capa. Um exemplar chegou à casa dos meus avós paternos e foi longamente analisado e elogiado por todos os adultos da família. Quando chegaria minha vez de ter o Graal em mãos, ele confiscado pela minha vigilante avó, sob protestos meus e do meu avô, o segundo fornecedor de pornografia da minha mocidade. “Deixa o menino ler”, dizia ele, empregando o verbo errado.

Pois minha avó não deixou. E ainda escondeu a revista, lançando um desafio: “Vou sair. Se você encontrá-la, pode ficar com ela”. Tudo o que eu queria era ficar com ela, então a procurei como se minha vida dependesse disso. A sexual, naquela tarde modorrenta, dependia, isso é certo. Fucei em todos os cantos, mas não encontrei. Nunca a encontrei, bem como o meu avô-parceiro. Minha avó talvez a tenha dado a alguém menos imberbe. Ou se esquecera de onde a guardara.

A ausência da Playboy da Yoná, assim como das cenas proibidas da novela, atiçaram ainda mais a minha já fértil imaginação adolescente e entraram para o panteão das frustrações sexuais da minha debutante puberdade. Frustrações virtuais, claro, já que minha timidez e falta de jeito não me permitiam me aproximar das meninas sem tropeçar no meio do caminho.

Pois a Yoná se foi ontem, aos 80 anos, ainda bela. No meio da chuva de textos em sua homenagem, alguém postou um link para o ensaio da Playboy. O adolescente que ainda mora dentro de mim estava louco para ver. Mas eu não deixei, insistindo na importância de cultivar a fantasia em um mundo tão bombardeado por imagens.

Esse texto faz parte do projeto Cartas da Guanabara,
com crônicas semanais de um brasiliense vivendo no Rio de Janeiro.

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