Arline

Vó, lembro-me bem das vezes que fomos ao cinema, só nós dois, ver todos os filmes do Trapalhões, no finado Cine Atlântida. Depois, íamos lanchar pão de queijo com Coca-Cola, tomar sorvete e passear pelo Conjunto Nacional. Eu, pequeno, ao seu lado, segurando sua mão amorosa e acolhedora.

Lembro-me da nossa viagem para o Rio de Janeiro, no dia em que fiz 8 anos. Você fez todo mundo no avião saber que era meu aniversário, convenceu a aeromoça a me levar para conhecer a cabine do piloto e ainda conseguiu, sabe-se lá como, que a tripulação me presenteasse com o broche da companhia aérea, que exibi orgulhoso durante muito tempo. Você sempre adorou uma festa, não é mesmo?

Lembro-me com carinho dos assaltos noturnos à geladeira, quando você organizava um super lanche para os netos que dormiam na sua casa. E depois voltávamos todos para a cama, com o estômago e o espírito bem nutridos. E quando levantávamos, no dia seguinte, você já havia preparado o café da manhã e nos aguardava com um grande sorriso, pronta para dividirmos a mesa e as tantas boas histórias que você adorava compartilhar.

Você é parte das minhas memórias mais remotas, sempre presente com um gesto de amor e uma palavra de carinho e de incentivo, me dando a certeza de que é uma amiga com quem sempre pude contar.

Uma das recordações mais singelas é a do dia em que dormi na sua casa e acordei inventando que precisava do baralho do Mickey. A gente nem sabia se isso existia, mas você colocou um largo casaco sobre o meu pijama e fomos os dois perambular a cidade atrás desse jogo de cartas que, felizmente, não encontramos, pois a lembrança da nossa busca ficou para sempre comigo, enquanto o baralho provavelmente teria se perdido em uma escura e mofada caixa de brinquedos velhos.

E, especialmente, não me esqueço do dia em que estávamos no seu quarto e você, sem motivo aparente, me disse: Quando eu partir, não quero ninguém chorando por mim, não gosto de tristeza. Quero família e amigos reunidos em uma grande comemoração.

Então, minha avó querida, esse texto não é de despedida. Nem é para ser triste. É uma pequena memória dos tantos momentos que passamos juntos. É um agradecimento pela sua amizade incondicional. É uma celebração à sua longa e bela vida.

Esse texto faz parte do projeto Cartas da Guanabara,
com crônicas semanais de um brasiliense vivendo no Rio de Janeiro.

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