O maior arquiteto do mundo

Ilustração: Baptistão

Quando tinha 4 anos, meu pai me trouxe ao Rio, na hora da final da Copa do Mundo da Argentina. Da viagem, lembro-me de flashes, entre eles o fato de ter visto de perto um Concorde no aeroporto do Galeão, o que me impressionou muito e iniciou a minha fase “papai, mamãe, quero ser aviador”, que durou uns 5 anos e foi sucessivamente trocada por “quero ser atacante de futebol”, “quero ser jogador de basquete” e “quero ser piloto de fórmula 1”. Depois que passei dos 30, troquei todas essas por uma mais dentro das minhas possibilidades, “papai, mamãe, quero ganhar na mega sena”.

Nossa visita carioca tinha um bom pretexto: meu pai ia ver Oscar Niemeyer, seu colega de profissão e de convicções políticas. Ele me dizia, com justificada satisfação, “vou trabalhar em um projeto com o maior arquiteto do mundo”.

Aquela criança curiosa e imaginativa que eu era ficou imersa nos pensamentos de grandeza — o colossal avião e o gigante da arquitetura -, e só saiu do transe quando, de dentro do táxi, avistou algo ainda mais extraordinário: “Papai, olha lá, uma casa no céu!”, gritei, com os olhos arregalados. Era apenas a luz noturna de um barraco na favela, mas ainda assim algo inédito para quem nasceu e passara seus quatro anos de vida na plana e baixa Brasília.

Ficamos a semana inteira no Rio, contando com a hospedagem sempre cordial de minhas tias e bisavó, e no sábado recebi uma proposta irrecusável de encontro com o Super-Homem: “Daniel, quer conhecer o maior arquiteto do mundo?”. Mas é claro! E fomos nós dois e o Zé Eduardo, amigo de meu pai que décadas mais tarde se tornaria meu companheiro de futebol em Paris, rumo à Avenida Atlântica.

Esperamos no calçadão, em frente ao escritório de Niemeyer, que não tardou a aparecer.

- Daniel, esse é o Oscar. Oscar, esse é o Daniel, meu filho.

Meu pai conta que fiquei olhando de maneira investigativa para o gênio, analisando com olhos infantis aquela pessoa de tanta envergadura e, surpreendentemente, tão pouca estatura.

Mais tarde, fui questionado.

- E aí, gostou de conhecer o maior arquiteto do mundo?

Parece que respondi de bate-pronto, meio decepcionado.

- Ah, pai, ele é bem pequenininho.

Esse texto faz parte do projeto Cartas da Guanabara,
com crônicas semanais de um brasiliense vivendo no Rio de Janeiro.

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