Penitência

Fui condenado a fazer um curso de padrinho, requisito necessário para poder batizar simultaneamente dois sobrinhos. Tentei argumentar com o padre, justificando já que tenho uma afilhada de 23 anos, então sou pós-doc no assunto, não precisava seguir a formação para néscios. Além do mais, como não houve mudanças na Bíblia nos últimos séculos — nem a descoberta das ondas gravitacionais impactou nos escritos sagrados, o curso que fiz há pouco mais de duas décadas ainda estava em conformidade com a teoria então aprendida. O religioso não quis saber e vaticinou: Sem curso, sem certificado. Sem certificado, sem chance de ser padrinho na igreja católica. Soltei um “valha-me, Deus”, mais lamentando do que pedindo intervenção divina, pois ali eu estava em clara desvantagem dogmática.

No dia marcado, e ainda contrariado, peguei um ônibus em direção à paróquia. Ele foi avançando até entrar na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, onde encheu mais. A vida seguia seu rumo pelo famoso bairro, e eu seguia como um boi em direção ao abatedouro, sabendo o que me aguardava, mas incapaz de mudar minha sentença. Estava observando a paisagem, quando começou um rebuliço no veículo, com os passageiros gritando pela janela, alertando de um furto uma senhora que estava parada distraída em frente a seu pequeno comércio.

- Ei, ei, ele tá te roubando! Moça, olha ali, o menino tá colocando os produtos dentro do short.

A dona da loja virou pra trás e viu o gatuno em ação. Pego no flagra, nem reagiu: devolveu os produtos, deu um sorriso de “perdi, playboy” e atravessou calmamente a rua, talvez em busca de uma outra vítima nas redondezas.

Depois do incidente, o ônibus entrou em comunhão: os passageiros passaram a conversar com os outros, cada um contando os casos de assalto e violência vivenciados, reclamando que “a Cidade Maravilhosa não merece mais esse epíteto”, “é um absurdo uma coisa dessas em plena luz do dia”, “tem que colocar todo mundo na cadeia”. O assunto rendeu até a entrada de um vendedor de balas carregando um móbile de fazer inveja a muita árvore de Natal, no qual pendurava as guloseimas à venda. Espremeu-se no pouco espaço restante e anunciou seus produtos em voz alta.

- Aê, tem jujuba, tem bala raus, tem eme e emes, tem amendoim, tem chocolate, tem pastilha de hortelã, tem pra todo mundo, tem que aproveitar porque a vida é agora!

Por eu ser o único a lhe observar com atenção, parou em frente a mim e balançou um pacote de suspeitos biscoitos de nata em frente ao meu nariz. Recusei. Trocou por um de balas de morango. Eu disse não. Insistiu com um cheio de cubinhos de doce de leite. Eu o neguei pela terceira vez.

Sem sucesso na empreitada, o vendedor desceu no ponto seguinte, enquanto um sujeito com um violão subiu e, em voz alta, pediu licença para tocar. Era chileno e precisava juntar dinheiro para continuar sua viagem pela América do Sul. “É a chance de escutar Victor Jara e Violeta Parra”, pensei, imaginando que o repertório do gringo privilegiaria artistas de seu país, quando ele puxou um Jorge Ben com sotaque, “Jesus Christ is my Lord, Jesus Christ is my friend” e pediu pros passageiros baterem palmas e ajudarem no coro.

Cheguei ao meu ponto e encaminhei-me para a paróquia, conformando-me com a sentença: Naquele dia, não dava mesmo pra fugir do meu destino.

Esse texto faz parte do projeto Cartas da Guanabara,
com crônicas semanais de um brasiliense vivendo no Rio de Janeiro.

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