Rio, Berlim

Louise e eu aguardávamos para subir no ônibus e quase fomos atropelados por uma moça estabanada que chegou furando fila e dando ordem.

- Pé na tábua, motora. Arrancaê. Tô atrasadona.

Impassível, o condutor esperou todo mundo subir pra começar a acelerar lentamente. Passamos a roleta e nos dirigimos para o fundo do veículo. Sentamos perto da porta traseira, onde a apressada já se encontrava, em pé, e de lá mandava recados para a frente.

- Dá pra ir mais rápido, não? Essa carroça tá lenta pacas. É por causa de gente assim que esse país não avança.

Louise, minha filha, adora cavalos e carruagens e quis saber onde estava essa carroça da qual a sujeita falava. E se podíamos descer do ônibus e embarcar nela. Expliquei que não havia carroça alguma e muito menos cavalos, mas apenas uma burra mal educada.

- Aê, se eu perder o emprego vou colocar a culpa em tu, valeu?

O motorista nem aí. E quanto mais ele era indiferente, mais a moça se irritava.

- Pô, motora, tu é foda. Preciso chegar à Lapa em 2 minutos.

Ele a fitou pelo espelho interno e continuou calado. Foi o cobrador quem falou.

- Minha senhora, a Lapa é pro outro lado, valeu? Tu pegou o ônibus errado.

Ela ficou mais descontrolada ainda.

- Caraaaaca! Freia, motora. Engata a ré aí. Dá meia volta. Faz alguma coisa!

Nada.

- Então abre a porta. Preciso sair, tu tá me lascando toda. Aê, aproveita o sinal fechado. Abre aqui. Tenho que descer agora. Se não vai ajudar, não atrapalha. Tu é surdo, é?

A porta continuou fechada, mas a boca do condutor se abriu pela primeira e única vez na viagem.

- Só pode descer no ponto.

A coitada enlouqueceu.

- Pronto, agora tamo em Berlim. Viramos um país de primeiro mundo e eu não tava sabendo. A gente só para no ponto. Desce e sobe em fila, tudo organizadinho, uma beleza. O país que funciona. Nem corrupção tem mais. Que maravilha! Viva o Brasil, a nova Alemanha!

Quando o ônibus finalmente parou, a moça desceu na mesma velocidade com que soltava seus últimos impropérios.

- Valeu, motora berlinense. E viva o Brasil, primeiro mundo!

Louise perguntou o que havia acontecido ali.

- Essa mulher acabou de marcar o oitavo gol da Alemanha.
- O quê? Entendi nada.
- Não se preocupe, você logo vai compreender.
- Pai, vamos sair daqui e tomar um sorvete?
- Tá bom. Eu vou de chope e chucrute.

Esse texto faz parte do projeto Cartas da Guanabara,
com crônicas semanais de um brasiliense vivendo no Rio de Janeiro.

Gostou? Então clique no botão Recommend aí embaixo.
Fazendo isso, você ajuda esse post a ser encontrado por mais pessoas.

Pra acompanhar minhas publicações por aqui,
é só clicar ali embaixo no botão
Follow.