Um encontro de cinema

Ilustração: Negreiros

Do alto da pequena ponte corcunda vi o letreiro de néon, “Drive In”, e imediatamente fui tomado pela minha infância. Há uns bons trinta anos não ia àquele mágico cinema, mas a sensação era como se tivesse acabado de sair dali. Fiquei um longo tempo parado, observando o luminoso, até alguém buzinar atrás e me obrigar a seguir para a bilheteria.

- Uma inteira, por favor.
- O menino paga meia?
- Que menino?
- Aquele ali no banco traseiro, ué.

Olhei pra trás e levei um susto. De onde surgiu aquele garoto que eu não vi entrar no carro? Já ia mandá-lo descer, no entanto seu sorriso me trouxe um estranho sentimento de familiaridade. Deixei ficar.

- Ele paga meia.

Parei o carro em frente à tela e me virei pra perguntar ao menino o que fazia ali, mas ele já havia pulado para o banco do passageiro e logo puxou uma conversa.

- Você se lembra de quando vimos aqui A Espada Era a Lei? Nesse dia aprendi quem era o rei Arthur. E aprendi também que se a gente deixar o farolete do carro ligado, o garçom vem e nós podemos pode pedir batata frita pra ele.
- Acho que você está enganado. Esse filme eu vi há muito tempo, bem antes de você nascer. Eu devia ter…
- Nove anos.
- Isso mesmo! Eu me lembro de tê-lo visto com…
- Uma tia.
- Como você sabe? Foi a mesma que me trouxe pra ver…
- Alice no País das Maravilhas.
- Ei, que brincadeira é essa? Quem é…
- Você!

Parei. Observei bem aquela criança com blusa do Flamengo, “É a 10, do Zico!”, e notei que tínhamos o mesmo olhar, a mesma maneira atropelada de falar, o mesmo cabelo despenteado. Até a marca de queimadura nas costas da mão direita era igual. Ainda assim eu me recusava a acreditar naquele encontro fantástico. Então quis averiguar.

- Se você é realmente quem diz ser, então me diga: como foi seu dia hoje?
- Você não vai acreditar! A Adriene me pediu em namoro. Vou casar com ela e ter dois filhos, já combinamos tudo.

Fechei o olho e me lembrei da minha primeira paixão e de um namoro que passou rápido, assim como passa rápido a infância, mas que me marcou para sempre.

- Eu me casei com ela? Quer dizer, você se casou? Nós… Ah, você entendeu.
- Tudo o que posso te dizer é que vamos sempre pensar nela com muito carinho. O resto você vai descobrir por conta própria.

Então o filme começou. Do meu lado, os olhos de criança do Daniel de nove anos fixavam a tela sem nem piscar. Acendi o farolete e pedi ao garçom uma grande porção de batatas fritas. Sem ketchup, que nós não gostamos.

Texto originalmente publicado na
revista Veja Brasília.

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