Há quem goste de um time de futebol. E há os obsessivos. Como eu

Febre de bola”, do inglês Nick Hornby (autor do clássico Alta Fidelidade), é figurinha carimbada na lista dos meus livros preferidos. Para quem não conhece, trata-se de uma deliciosa crônica de devoção de Hornby pelo Arsenal, um dos clubes mais famosos da Europa. Vira e mexe, tiro ele da estante e folheio. É uma maneira de me identificar com alguém que, a léguas de distância, em outro continente, inserido em uma cultura totalmente diferente da minha, também sofre pela obsessão a um time de futebol — no meu caso, o Vasco.

Esse não é um texto sobre quem gosta de futebol. Se você entrevistar 100 pessoas aleatórias na rua, 85 dirão que curtem o esporte bretão. Mas, entre elas, dificilmente haverá alguma que tentará se livrar da insônia lembrando quais times eliminaram o seu da Copa do Brasil entre 1989 e 1996. Esse sou eu.

Se esse texto viralizasse nas redes sociais de tal maneira a obter 1 milhão de visualizações, certamente outros torcedores se identificariam comigo. Acredito cegamente que há gente pior do que eu. Gente que chora por causa de um empate com o Itaperuna num sábado à tarde, com o campeonato definido — e seu time fora da disputa. Há casos e casos. Certa vez, após uma dolorosa derrota, atirei uma camisa do Vasco numa churrasqueira em um aniversário em que eu conhecia UMA única pessoa — e não era o churrasqueiro (que depois, sabe-se lá como, veio a virar meu sogro). Não faço mais isso (Será??). Mas ainda me considero meio maluco. E escrever e falar sobre isso me dá a sensação de que serei perdoado, ou ao menos mais bem compreendido, por quem não entende, MESMO, como a paixão por um distintivo pode exercer tantos poderes sobre sua vida pessoal.

Recentemente, tatuei na panturrilha uma caravela. Tem cruz de malta. Remete, obviamente, ao Vasco, embora não seja o escudo. Esses dias, alguém me perguntou: “É para a vida toda”? A pessoa é inteligente, sabe que tatuagem, salvo raríssimas exceções, não se apaga. A pergunta vem mesmo em um tom de incredulidade, como se o outro dissesse: “Cara, e se um dia você não gostar mais tanto assim de futebol? E se um dia achar isso ridículo?” Nunca se sabe o dia de amanhã. Mas diria que as chances de eu me arrepender são praticamente nulas. Quando vou ao estádio, o que mais percebo é gente com alguma tatuagem do time. Uma vez, vi um cara que desenhou o ESTÁDIO DE SÃO JANUÁRIO NAS COSTAS. Lamentei não ter a coragem dele. O fato é que os obsessivos, como eu, tem outras preocupações. Uma delas: não ser rotulado como uma pessoa que fala ÚNICA e EXCLUSIVAMENTE sobre futebol. Ainda mais se você é jornalista esportivo e tenha trabalhado com isso a vida praticamente toda. Estou certo de que muita gente me entende…

Levamos uma vida normal: viajamos, vamos ao cinema, à batizados, enterros, namoramos… Mas é na intimidade que os obsessivos mais se entregam. O que diria de abrir o Youtube às 10h18 de uma terça-feira para relembrar o gol do título do campeonato de 1982, quando você tinha UM ano de idade? Pasmem, senhoras e senhores, eu faço isso DIRETO! Acha isso ruim? Não viu nada ainda…

Esses dias, me peguei PULANDO ABRAÇADO com um gerente do bar que eu frequento na hora de um gol do Vasco. O relógio marcava 23h30, era dia de semana, e o movimento não era dos mais fortes. Mesmo assim, fico imaginando como deve ter sido PATÉTICA essa cena para quem estava ali, bebericando uma cervejinha enquanto comia um pastel. Se um cliente pensava em entrar no estabelecimento naquele exato momento, mudou de ideia. Foi absolutamente ridículo. E, mesmo assim, não posso prometer que não vá acontecer outra vez…

Há algum tempo, assistia a um jogo com amigos em um outro bar e mandei minha aparente normalidade às favas (DEFINITIVAMENTE, NÃO SOMOS NORMAIS) quando meu time levou um gol de empate aos 49 minutos do segundo tempo. Não só me atirei no chão que misturava gotas de chopes com restos de petiscos, como fiquei dando socos no mármore. Imagina aquela menina com quem você estava flertando minutos antes? Deve ter adorado…

Essa obsessão exercitou minha memória de uma maneira incrível — e inútil. Sou capaz, por exemplo, de lembrar datas exatas das mais antigas, o que causa um certo espanto nas pessoas: “Cara, como você sabe disso com TANTA certeza?”, perguntam. Simples: faço, O TEMPO INTEIRO, associações com jogos do Vasco. Não pedi para ser assim. Aconteceu. E é um processo que funciona sozinho. Não preciso nem me preocupar em ativar algum botãozinho no cérebro. Lembra do dia que foi dedicado às bandas adolescentes no Rock’n Rio de 2001? Respondo sem titubear: 18 de janeiro, uma quinta-feira. Afinal, foi quando o Vasco venceu o São Caetano e conquistou seu quarto — e último — título brasileiro. Não fui à Cidade do Rock, e sim ao Maracanã. Mas posso apostar com qualquer fã dos Backstreet Boys que estou correto…

E o aniversário da sua irmã que choveu pra caramba? 29 de junho de 1993. Mole essa, porque teve um Vasco e Mogi Mirim nesse mesmo dia valendo pela Taça João Havelange (?!) e que foi para os pênaltis. E quando foi mesmo que roubaram o carro da família no Leblon? Ih, essa é fácil. 20 de outubro de 1997. Terça-feira. No dia seguinte teve um Vasco 2 a 0 no Atlético-MG, no Maracanã, dois gols de Evair, na reta final da primeira fase do Campeonato Brasileiro.

Esses pensamentos vêm e vão o tempo inteiro. Nunca vou esquecer que, quando meu sobrinho completou quatro anos, o Vasco venceu o Sport de 2 a 1 e eu tive que acompanhar o jogo acessando o tempo real de um site, porque não tinha TV por perto. E não farei NENHUM esforço para me recordar aos 67 anos.

Como diria Hornby, “durante trechos alarmantemente grandes de um dia normal, sou um retardado”! Obsessivos como eu não pensam em ser presidente do clube, não se preocupam em protestar com o time na zona de rebaixamento, nem em comprar a camisa oficial nova que acaba de ser lançada. Mas obsessivos como eu são flagrados divagando, no meio do trabalho, do filme, de uma conversa, sobre um gol ocorrido há 13 anos atrás, num jogo com 1.201 pagantes, que, se bobear, nem o cara que chutou a bola para a rede hoje consegue lembrar…

Hoje eu não tenho dúvidas: a tatuagem que eu fiz, concebida quando jurei em silêncio que sairia do papel se o Vasco não perdesse o título carioca pro Botafogo em 2015, talvez represente a admissão completa de que isso será sempre assim…

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