Mais que um título histórico, uma lição de vida

Há exatos 15 anos, Vasco encarnava o time da virada e respondia aos descrentes — como eu — com a mais emocionante de suas conquistas.

Por Daniel Costa e Silva

Rio de Janeiro, 20 de dezembro de 2000

Acordei desanimado. Embora, no papel, o Vasco tivesse um time bem mais forte que o do Palmeiras, rival daquela noite, em São Paulo, na decisão da hoje extinta Copa Mercosul, a situação andava preta para o nosso lado. A perspectiva de deixar mais uma taça escapar, a exemplo do que acontecera nos últimos dois Estaduais e no Mundial de clubes, era forte e dava medo — amenizado apenas pelo fato de que eu, aos 19 anos, era vagabundo, estava de férias na faculdade e, portanto, ficaria livre das gozações na manhã seguinte.

Minha confiança no título era tão pequena que combinei com um grande amigo flamenguista de ir a um show de rock por volta de 0h — ou seja, assim que a bola deixasse de rolar. Também evitei me reunir com a turma da época para assistir à final em frente à TV. Eu, Fabiano, Adriano e Felipe, inseparáveis em São Januário ou no Maracanã, acompanhamos na minha casa o jogo anterior, também em São Paulo, crentes que teríamos 90 minutos absolutamente protocolares regados a cerveja e amendoim, e nos demos mal: Romário perdeu um caminhão de gols e o Vasco, jogando por um simples empate para ser campeão, foi derrotado por 1 a 0, frustrando geral. Desta vez, cada um ficaria no seu canto. Era o mais sensato.

Juninho Paulista e Romário calaram a torcida do Palmeiras no Palestra Itália

Não havia motivo para oba-oba. No sábado anterior, encaramos um sol escaldante em São Januário e vimos o Vasco abrir 2 a 0 no Cruzeiro no jogo de ida da semifinal do Campeonato Brasileiro. A vitória parecia pra lá de encaminhada, mas permitimos o empate do time mineiro no segundo tempo e a crise explodiu. No vestiário, o técnico Oswaldo de Oliveira discutiu com Eurico Miranda, recém-eleito presidente do clube, e levou um pé na bunda ali mesmo. Joel Santana, “peixe” de Romário, assumiu 24 horas mais tarde um grupo cheio de craques, mas cabisbaixo. A torcida embarcou no pessimismo. E quando a quarta-feira chegou, era mais fácil encontrar uma panicat cursando medicina do que um vascaíno confiante.

Passei o dia fora. À noite, ao pisar em casa, encontrei minha mãe lendo um livro. Sentei ao seu lado, pensativo, e ela, decifrando-me em décimos de segundos, perguntou de soslaio se eu estava nervoso com o jogo. Admiti que sim, argumentando que um terceiro vice-campeonato em sequência nos transformaria em piada pronta para os rivais, especialmente os rubro-negros. De férias do próprio time há um tempo, eles desde cedo engrossaram o coro palmeirense. Sensível, Dona Anunciata me olhou e disse: “Relaxa. Tenho certeza que hoje o Vasco ganha”.

Romário marca o quarto gol do Vasco e sai para comemorar: virada épica estava consumada

Subitamente, me vi tomado por uma onda de otimismo. Ora, o jogo começa 0 a 0, ninguém tem a vantagem do empate e o Palmeiras, com o dinheiro da Parmalat minguando e nenhum jogador fora de série, fizera muito de ir à final. Me agarrei nestes pensamentos e, sozinho no quarto, sem companhia, cerveja ou amendoim, liguei a televisão.

Corta para o intervalo. Passados 45 minutos, eu era um remendo de ser humano. O Vasco perdia por 3 a 0 e uma corrida de bicicross (?)diante dos meus olhos atônitos anunciava que eu havia trocado para qualquer canal assim que o árbitro Márcio Rezende de Freitas encerrara o primeiro tempo. Pensei na minha mãe (ela prometeu, cacete…); pensei no Fabiano, no Adriano e no Felipe, isolados como eu; pensei, com uma pontinha de inveja, no meu amigo flamenguista e em todos os “secadores”. Os gritos de gozação nas janelas do meu prédio brotavam aos montes e reforçavam o meu calvário.

Não me movi da cama por 15 minutos. Devo ter tido umas quatro câimbras. Morto-vivo. E, assim que a bola rolou, lá estava eu outra vez com a TV ligada. Concentrei toda a minha torcida para um gol de honra nosso e mais nenhum deles. Sem mentira, essas eram as únicas motivações que eu tinha— não levar de quatro e nem de zero.

O Vasco voltou para o segundo tempo um pouco mais agressivo, enquanto o Palmeiras segurava a onda. Até aí, nada demais: o placar dilatado construído na etapa inicial meio que obrigava os times a adotarem tais posturas. Aí, aos 14 minutos, um pênalti foi marcado a favor da gente. Romário cobrou e diminuiu. Não esbocei reação. Zero. Sabia que o adversário, incentivado por um Palestra Itália lotado, não daria esse mole. Ou não…

Dez minutos depois, outro pênalti para o Vasco. De novo Romário: 3 a 2. Acordei do coma induzido e, pela primeira vez, imaginei um cenário favorável: “Porra, agora dá. Faltam pelo menos 25 minutos, o Palmeiras acusou o golpe”. Mas a expulsão de Júnior Baiano, pouco depois, esfriou meus ânimos. Minha mente viajou logo ao encontro do pior dos mundos, o da reação em vão. Pagaríamos pelo péssimo primeiro tempo e sairíamos de campo com a pecha de “vice de novo” mais entranhada do que nunca: “Merda”, sussurrei baixinho…

Mas o futebol, cara, o futebol é…o futebol é FODA! Aos 40 minutos, Romário pegou mal um cruzamento da direita e a bola caiu caprichosa nos pés de Juninho Paulista, que mandou para a rede e empatou. Dei um berro que fez minha irmã, estudando para uma prova final do curso de Economia no quarto ao lado, bufar de raiva: “Porra, Daniel, tá maluco?!”.

https://www.youtube.com/watch?v=9RI4crC_1pE

Ela ainda não tinha visto nada. Minha mãe, meio zonza de sono, apareceu na minha porta quase como um zumbi: “O que houve??”. Eu, branco, repetia: “CARALHO, o Vasco tava perdendo de 3 a 0 e empatou, tá 3 a 3! 3 a 3! 3 a 3!!!!!” Sem se dar conta do que efetivamente aquilo significava, ela, um tanto quanto aflita, mandou um “Ai, meu Deus, então vai para os pênaltis?!” Respondi com a delicadeza que o momento pedia: “Porra, mãe, pênalti é lucro! Dane-se! Tava 3 a 0! E tá 3 a 3! 3 a 3!”.

Não conseguia mais parar quieto. Eu andava de um lado para o outro no quarto, suando horrores, coração a mil, rezando para acabar empatado. Nem vi Juninho Pernambucano, possuído como um demônio, bater no peito em frente à torcida vascaína ao sofrer uma falta. Foi quando Viola arrancou pela ponta. O relógio no canto superior esquerdo da tela marcava 47 minutos e a jogada parecia sem futuro. Pisquei. Do nada, a bola sobrou dentro da área pro Juninho Paulista. Ele chutou, a redonda desviou na zaga e parou arrumadinha nos pés do Romário. Predestinado, o Baixinho chutou com convicção e marcou o gol que nenhum, absolutamente nenhum vascaíno jamais irá esquecer: 4 a 3. PUTAQUEOPARIU! A virada do século, a mãe de todas viradas, estava ali consumada.

Completamente extasiado, me debrucei na janela do meu quarto e gritei TODOS os impropérios possíveis e imaginários: “F…da…P…, Vai t… no C., Vice é o C…!, Aqui é Vasco, C….!, Aparece agora, flamenguista f…d.p…!” Minha mãe repetia: “Você vai cair, sai daí!”. “Não saio!!!” Ria, chorava, berrava… Afirmo sem medo de errar que nenhum outro instante da minha vida, até aquele quarto gol, me causara tamanha comoção.

A impressão é que a ficha batia e voltava. Não conseguia mensurar o quão épico o Vasco fora. Me senti cansado, sem forças, era como se eu tivesse tabelado em campo com o Romário e defendido com o Helton. Queria continuar gritando, mas arfava. Assisti todos os programas esportivos dos canais a cabo até o fim tentando encontrar uma explicação plausível pro que acabara de acontecer. Não preguei o olho na madrugada. Corria adrenalina dos pés à cabeça. Só voltei a sentir isso 13 anos mais tarde, ao aterrissar de um salto de paraquedas.

Juninho Paulista comemora o gol de empate. Ao fundo, o lateral-direito Clebson, que morreria seis meses depois

Às 6h30m, estava fardado de camisa do Vasco. Catei uns trocados na carteira e desci para a padaria comprar pão — algo que nunca fazia. Queria mostrar o meu orgulho ao mundo — principalmente aos que dormiram no intervalo e acordaram achando que iriam tirar um sarro de nós. Desta vez não, neném!

O dia 20 de dezembro de 2000 marcou para sempre uma geração. O cara não lembra o que comeu ontem, mas relata precisamente, como eu, onde estava e o que fazia há 15 anos. Escrevemos uma das páginas mais bonitas da história do futebol. Felizes os que testemunharam, muito mais do que um título, uma lição de vida. ‘Quando tudo está perdido, sempre existe um caminho (…)’ cantou Renato Russo no encerramento do Globo Esporte de quinta-feira (vídeo acima). Parabéns a nós, vascaínos, pelo privilégio de celebrar data tão especial. Quem viu e viveu aquele momento com tanta intensidade, sabe bem do que estou falando.

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