Cotidiano

Pedro estava pensando em sua vida. Ele encontrava-se no ponto de ônibus, mas seus pensamentos estavam distantes viajando no tempo e espaço de suas lembranças mais primitivas. Apesar do vigor de sua juventude, aos vinte e três anos, ele sentia o peso ingrato das inúmeras responsabilidades que inevitavelmente alcança a todas as pessoas mais cedo ou mais tarde. Ele se perguntava constantemente como a vida poderia ser tão ingrata com ele.

Há pouco menos de uma semana sua namorada, Aline, lhe dera a notícia de que estava grávida. Grávida? Ele se questionava. Como ele poderia ser pai neste momento. A sua irmã mais velha era casada há cinco anos e ainda não tinha filhos, pois acreditava que não estava financeiramente estruturada para ter filhos. “Temos que estar preparados para investir no Capital Humano de nosso filho.” Dizia ela. “Capital Humano?” O que é isso afinal? De qualquer forma ele nem era casado e o namoro com a Aline estava longe de ser um relacionamento promissor.

Pedro morava com seus pais e acreditava ter uma vida relativamente confortável. O pai era militar, um sargento aposentado, e apesar de sempre ter sido muito intransigente com os filhos era ao mesmo tempo amoroso. Sua mãe era uma mulher muito dedicada para atender todas as necessidades de sua família, contudo era muito religiosa e provavelmente não aceitaria muito bem essa notícia. Bem, quanto ao pai seria muito previsível a sua reação. Ele simplesmente faria com que Pedro cumprisse com suas obrigações.

Todas estas coisas estavam realmente atormentando o atual e frágil estado de espírito de Pedro. Ele sempre foi visto pela sua família como inconsequente e este último acontecimento só iria reforçar esta teoria. Ele estava cansado de ser constantemente comparado com seu avô, de quem herdara o nome, uma pessoa que apesar do laço de sangue ele não conheceu. Seu avô tinha falecido quando Pedro ainda era uma criança e muito jovem para qualquer tipo de lembrança. Veja que absurdo, nem o meu nome é realmente meu! Pensou. Como vou fazer para criar uma criança?

O que quer que aconteça uma coisa era certa: ele não queria ter uma vida igual a de seus pais. Sempre pensou em juntar dinheiro e viajar pelo mundo. Conhecer novas pessoas e lugares. Isso sim é viver! Passar a vida toda, como meu pai, obedecendo a ordens em uma mesma rotina… Não, isso não é vida! E a minha mãe que busca a felicidade em uma moral cristã e, no meu ponto de vista, extremamente duvidosa.

Felicidade. Que palavra que parece estar tão distante da sua atual situação. E como tudo isso não seja o suficiente ele acabara de ser demitido. “Contensão de despesas, rapaz. Não é nada pessoal.” Disse o seu supervisor.

Pedro sempre se orgulhou de ser um rapaz bem apessoado e de ter muita facilidade de arrumar namoradas. Gostava de praticar esportes e jogar videogame. Não gostava muito de ler, como alguns de seus amigos, sempre preferiu assistir filmes e baixar músicas na internet. Mas, de qualquer forma essas coisas estavam se desvanecendo como nuvens em um céu distante…

Neste momento ele percebe que seu ônibus já estava parado no ponto e olha para o colega de trabalho (ou melhor: ex-colega) que já de dentro da condução diz para ele: — Vamos Pedro, a vida continua!

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