Crise dos vinte

Estou exausto. Digo isso com todas as letras porque realmente estou. Não que eu já não estivesse há um ano, mas acho que agora percebi que estou exausto pra valer e preciso de ajuda.

Não, não, não: queira eu ou não, essa não é uma canseira de final de semestre. Não é uma canseira da rotina. Não é uma canseira de alguém. Eu não estou enjoado de uma fase da vida. Não é como se eu estivesse farto de ouvir as mesmas músicas, assistir ao mesmo tipo de filme ou comer as mesmas coisas. Eu não estou cansado do meu curso na faculdade, dos meus professores e das minhas companhias diárias. Eu gosto de onde trabalho, o clima está adequado, conheço pessoas bacanas e agora vou até ter uma nova sobrinha: minha vida parece ir bem, ao que tudo indica. Não é este tipo de canseira (você sabe, a canseira do mundo) que estou sentindo agora. Estou cansado do que sou e me custa admitir, porque dou muito para ser o que sou hoje. Acho que dou tanto que é isso o que me deixa cansado.

Sei o quão detestável é este tipo de texto, mas acho que eu precisava de alguma forma dizer a alguém (em primeiro lugar, a mim mesmo) que estou exausto de ser tão quebrável e de ter me tornado tão dependente de algumas coisas nos últimos tempos. Estou escrevendo este texto aqui porque sei que arranjaria uma forma de dizer estas palavras para a pessoa errada e que tudo ficaria ainda pior do que está. Não aguento mais colocar tanta expectativa em coisas que eu sei que não me levarão a lugar algum. Não aguento mais ser decepcionado e acabar em um bar, reagindo à decepção da mesma forma como eu odiaria ver as pessoas ao meu redor reagirem: bebendo e dizendo as palavras erradas para as pessoas erradas. Esse é o lado bom da história, porque não quero nem pensar no que eu disse para os desconhecidos. Eu sei que não sou essa pessoa. Estou cansado de pedir ajuda aos outros porque sei que só eu mesmo posso me ajudar nesse momento.

Eu posso escrever um milhão de textos aqui, nessa página em branco desse site que eu não entendo muito bem como funciona, mas ainda não seria o suficiente para dizer o quão cansado estou. Eu poderia fazer como o Lemony Snicket e escrever folhas e folhas da frase “Estou cansado” e mesmo assim não seria o bastante. Acontece que eu estou num momento da minha vida onde nem eu sou capaz de entender o que virá amanhã e toda essa imprevisibilidade acaba comigo. Eu quero conhecer o solo onde estou pisando, quero ter segurança, quero poder criar as expectativas que eu estou predisposto a criar porque tenho uma personalidade muito bosta que se encaixa perfeitamente com o signo muito bosta que os astros foram me arranjar. Não, gêmeos não é o pior signo do zodíaco. Câncer que é. Olha só esse nome desgraçado, nome da pior doença que a humanidade já conheceu. E quem tinha que ter nascido com o Sol em câncer? Sim, eu.

Bem, esse texto não se trata sobre o zodíaco, mas sobre como eu me encontro nesse momento. É que eu quero ter uma rotina, uma boa rotina. Quero que todos os dias sejam como o meu café da manhã, sabe? Eu sei que vou comer pão com manteiga e não me desagrada nem um pouco acordar pela manhã sabendo que vou comer pão com manteiga. Eu não quero outras coisas. Eu só quero que o que eu tenho agora dê certo. É, eu sei que acabei de dizer que a vida está caminhando bem e o problema está em mim, mas a verdade é que as coisas chegaram a um ponto que eu não tenho nem ideia de onde o erro está. Eu continuo tendo as pessoas mais amáveis do meu lado, continuo sendo um bom aluno e continuo tentando dar o meu melhor para todos, mas eu não vejo no que ter fé. Não tem nada que possa me inspirar, um grande plano que me mova para frente e não me mantenha estático ou pior: me leve para trás. Talvez seja só uma seca, talvez esse cansaço todo passe quando a Taylor lançar um novo álbum com o qual eu certamente vou me identificar, mas eu duvido disso. Olha só, ela acabou de sair de um relacionamento de um ano e dois meses e eu mal consigo manter algo sem deixar que minha sensibilidade excessiva e meu engajamento em dar o meu máximo estraguem tudo.

Escrever isso tudo me lembrou uma vez em que eu contei o que tinha acabado de acontecer para a minha melhor amiga e ela me disse algo como “Nossa, há um ano você jamais faria isso”. O mais engraçado é que eu já não falava com ela há meses e quando eu encontrei ela no metrô (o que nunca tinha acontecido até então e nunca mais aconteceu), eu sabia que tinha que contar o acontecido da noite passada (que não importa agora do que se trata) para ela. A verdade é que, até os meus dezessete anos, época em que essa minha amiga convivia todos os dias comigo, eu não era grande coisa. Minha aparência era exatamente como é hoje e eu tinha problemas de autoestima, mas eu acho que eu tinha um futuro para olhar. Eu tinha todos os meus planos bem diante de mim e tinha um grande sonho: dar orgulho para a minha mãe. Essas coisas caíram por terra quando eu perdi ela e, consequentemente, tive que crescer do dia para a noite. Ah, e antes que eu me esqueça, já aviso logo que estou escrevendo isso no meio da noite e que não vou revisar esse texto de forma alguma, até porque ninguém vai ler.

O problema é que eu lidei tão bem com a perda da minha mãe que foi, sem sombra de dúvidas, o momento mais doloroso da minha vida, que acho que perdi a capacidade de lidar com as outras coisas. É como se tivesse consumido todas as minhas forças de uma só vez e agora eu tivesse que manter minha cabeça ocupada o tempo inteiro para não fazer besteira. Nesse momento, eu tenho quase dezenove e tudo o que faço é escrever textos que as pessoas jamais vão ler, como este. Não importa quão bem as coisas vão para mim, eu sempre vou ter a habilidade nata de seguir pelo caminho errado. Meus olhos não devem enxergar bem tudo o que já passei até hoje, mas sei que já me machuquei o bastante, que estou um caco e que não quero mais estar assim. O pior é saber que eu me fiz assim e não alguém que mora longe demais daqui ou coisa do tipo. Eu sou assim por natureza, autodestrutivo e muito, muito afetivo. Estou exausto dessa inconstância, exausto de tudo ao meu redor, especialmente de perder tempo com pequenas coisas que não anulam todas as coisas boas que me acontecem…

Meu Deus, tira esse nó na minha garganta. Não quero mais viver, se for para continuar a viver assim. Não posso permitir que isso acabe comigo de forma alguma. Já passei por tantas coisas piores do que esse momento da vida. Já estive na fossa de um relacionamento de sete anos que não me levou aonde eu gostaria de estar. Já tive que me assumir e lidar com a minha natureza, o que não foi nada fácil. Já perdi o meu avô e cinco meses depois minha mãe, o maior amor da minha vida e minha alma gêmea. Eu só quero voltar a ficar feliz quando uma amiga se mete em uma furada que acaba em um namoro. Eu só quero ter pique para voltar a correr de noite nessas férias. Quero assistir a um bom filme comendo pipoca e chocolate. Quero que alguém coloque expectativas em mim que possa cumprir, mas se não puder, que finja e me engane bem. Eu quero ter um bom motivo para escrever um álbum, mesmo sem ser compositor, desenhar um monumento, mesmo sem ser arquiteto ou escrever um livro de poesia, mesmo sem ser poeta. Nada disso acontece há um bom tempo e, no final do dia, eu só consigo lembrar de respirar fundo e tentar manter o controle. Talvez a crise dos vinte tenha chegado mais cedo para mim, aos quase dezenove. Só espero que ela não demore muito a passar.

“Hold my hand while you cut me down. It had only just begun, but now it’s over now.”
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