Esquecimento: Enfraquecimento da Memória (1918–2018).
QUANDO O CRIME ACONTECE COMO A CHUVA QUE CAI
Bertold Brecht, Poemas
Como alguém que chega ao balcão com uma carta importante após o
horário de atendimento: o balcão está fechado. Como alguém que quer
prevenir a cidade contra uma inundação, mas fala uma outra língua: ele
não é compreendido. Como um mendigo que bate pela quinta vez numa
porta onde já recebeu algo quatro vezes: pela quinta vez tem fome.
Como alguém cujo sangue flui de uma ferida e que espera pelo médico:
seu sangue continua saindo.
Assim chegamos e relatamos que se cometem crimes contra nós.
Quando pela primeira vez foi relatado que nossos amigos estavam sendo
mortos, houve um grito de horror. Centenas foram mortos então. Mas
quando milhares foram mortos e a matança era em fim, o silêncio tomou
conta de tudo.
Quando o crime acontece como a chuva que cai, ninguém mais grita
“alto!”.
Quando as maldades se multiplicam, tornam-se invisíveis.
Quando os sofrimentos se tornam insuportáveis, não se ouvem mais os
gritos.
Também os gritos caem como a chuva de verão.
Da poesia de Brecht, um refugiado alemão, até o Brasil de 2018: a história se repetindo, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.
Em 1918 acabava, pelo menos em algumas partes da Europa e Ásia, a primeira guerra mundial: o evento mais sangrento conhecido até então. Sob um ponto de vista antropológico, em que a prática seria o critério da verdade, é uma tarefa difícil encontrar características universais que transpassem toda a humanidade em todo seu arcabouço de diferenças culturais. Por isso, o mais acurado, nesses termos, é dizer que os humanos são plásticos: moldados por forças de diversas ordens, podendo ser muitas coisas, inclusive, patrocinadores de massacres, ódio e destruição.
Alguns autores e autoras preferem a narrativa de que a primeira e a segunda guerra mundial, por um conjunto de vários fatores que, infelizmente, não serão expostos aqui são, na verdade, uma grande e única guerra com um pequeno período de relativa paz entre 1918 e 1937 (começo da guerra Sino-japonesa). Essa é a perspectiva que julguei mais adequada pra produção desse texto.
É comum, especialmente entre alemães, a narrativa de que o Nazismo foi um ponto fora da curva em uma história relativamente pacífica. Entretanto (sem nem falar do colonialismo), na república de Weimar (a Alemanha pré-nazi), o Estado já produzia um campo fértil para as manifestações de cunho anti-semita, racista e anticomunista que vieram a desembocar no Nazismo. Exemplos disso são os assassinatos e perseguições de opositores. Entre eles, a conhecida Rosa Luxemburgo, uma das líderes da revolta espartaquista. Além disso, de um ponto de vista jurídico-constitucional, Hitler, em sua ascensão ao poder, colocou a constituição de Weimar “em baixo do braço”: utilizando-se de normas jurídicas de uma constituição positivista, sem tecnicamente “dar um golpe” — como no Brasil de 1964 - . Conforme o jurista brasileiro George Marmelstein: “O alicerce normativo do direito alemão, durante o nazismo, era a vontade do líder (“princípio do Fuhrer”). O que Hitler ordenava era lei e, portanto, deveria ser obedecido”. L’état c’est moi, ou, melhor dizendo: der staat ist ich.

Banalidade do Mal
No Brasil, é comum o mito do pacifismo. Reforçam, como maneira de mascarar conflitos, que somos um povo não-violento mas, na verdade, as evidências apontam para o contrário.
Tão vasta e triste é nossa historia de terror que, pra esse momento, é necessário ser conciso, mas não menos verdadeiro, listando apenas alguns eventos: no século XIX, o Brasil foi responsável por um dos maiores crimes de guerra da história, massacrando a maioria da população masculina do Paraguai. Diretamente ligada ao conflito, temos também a escravização de populações africanas e seus descendentes que, tardando ao máximo, tiveram sua abolição oficializada somente em 1888 — com gigantescas ressalvas, visto que nada ou muito pouco foi feito pelo Estado para sanar as consequências dela, hoje pulverizadas em inúmeros lugares da sociedade — . Além disso, antes mesmo do boom da industrialização, iniciado por Vargas a partir da década de 30, o Brasil participou da primeira guerra mundial enviando enfermeiras; na segunda, enviou tropas e suprimentos - sendo decisivo para a reconquista da Itália.
Na ultima década, segundo o Atlas da Violência 2018, meio milhão de pessoas foram assassinadas no país. Isso são 153 pessoas mortas por dia (!); 200 mil pessoas a mais do que o conflito sul-americano com mais mortes (guerra do Paraguai). Além disso, lideramos o ranking de assassinatos da população LGBT*, sendo o país que mais mata essas pessoas por elas serem como são. No parágrafo acima comentei sobre as consequências da escravização e do racismo pulverizadas por diversos elementos da sociedade: não à toa, segundo o mesmo Atlas, são jovens negros e pardos as maiores vítimas de homicídios.
A Globalização e o “Projeto de Hitlerzinho Tropical”.
Vivemos em um período de extrema interdependência dos países e de conectividade informacional. Por isso, as expressões políticas hoje devem ser analisadas globalmente. À exemplo: o avanço conservador, apesar de tomar particularidades em cada território, é um fenômeno mundial. No Brasil, ele se expressa no militar da reserva Jair Bolsonaro e no crescimento da extrema-direita de um modo geral.
Tivemos, nesta semana, um atentado contra o presidenciável. Diferentemente do Duque Ferdinando, Bolsonaro não morreu (apesar de ainda estar em estado critico) e muito menos começou uma guerra. Entretanto, as consequências políticas e sociais decorrentes desse ataque ainda estão por vir. A questão, na verdade, é entender que o que o mobiliza encontra-se para além das urnas.
É comum, no discurso do “hitlerzinho tropical” — como o presidenciável Ciro Gomes (PDT) o chamou em uma entrevista — a desumanização de certas categorias sociais. Entre suas propostas, “dar passe livre pra polícia matar”. Em outras palavras: aumentar ainda mais os dados de homícidio e aprofundar o genocídio da população negra brasileira, iniciado na diáspora. Ao dizer “bandido bom é bandido morto”, o candidato desumaniza uma categoria imensa, dotadas de direitos como a presunção de inocência (“todos são inocentes até que provem o contrário”) e devido processo legal (direito à julgamento, defesa… o que, em teoria, seria a norma para julgar uma pessoa dentro de um Estado democrático de direito).
A propaganda nazi comparava comunistas, judeus e outra minorias com insetos. A desumanização de grupos, ou seja, retirá-los do que se entende como “humanos” é sempre o primeiro passo para genocídios e crimes contra a humanidade.
Certamente as opiniões do candidato ecoam em vários setores sociais. Apesar de desconhecer dados a respeito do assunto (por isso agora entro no campo do achismo) imagino que se fizéssemos um plebiscito sobre a) pena de morte e b) diminuição da maioridade penal, essas medidas — antidemocráticas e péssimas pra construção de um país mais justo - provavelmente seriam aprovadas pelo povo. E aí surge outra coisa para se entender: o nazifascismo é uma das expressões das massas (sem o apoio do povo e da classe trabalhadora usurpada eles obviamente não governariam) e, por isso, deve ser combatida dentro delas.

