Joanne, Lady Gaga.

Joanne, Lady Gaga.

Joanne, quinto disco de Lady Gaga, é, antes de tudo, um convite. Joanne é parte do nome de batismo da cantora, homenagem à sua tia Joanne, que morreu de lúpus aos 19 anos. Através da metonímia, das partes pelo todo, ela oferece partes da sua vulnerabilidade e trajetória pessoal, para criar laços de identificação com o ouvinte. Se nos trabalhos anteriores essas canções biográficas eram esporádicas e homeopáticas, aqui, elas ganham força e presença.

Em um registro de entrega, Gaga oferece ao público o que tem de mais interessante: ela mesma. “Todos temos Joanne em nossas vidas, figuras que morreram e cujo o luto e ausência nunca conseguimos superar em profundidade.” É a partir dessa experiência pessoal e única que o pacto de leitura com os espectadores é estabelecido. Um pacto que começa pela voz, como acentua Mark Ronson, um dos produtores do trabalho.

A voz é ponto de partida para essa viagem. E pra falar da voz de Lady Gaga, é preciso fazer uma viagem no tempo na cultura pop recente. Passando pelo jazz de seu último trabalho, em conjunto com Tony Bennet, lançado em 2014, Gaga fez de tudo um pouco: o EDM do seu controverso Artpop, o synthpop soturno de The Fame Monster, o europop ensolarado e glamouroso de The Fame, dance pop panfletário de Born This Way. Esse último, mostrando ambições e influências oitentistas como Bruce Springsteen, Whitney Houston e, é claro, Madonna. Mas, mais do que os artistas mais óbvios, Gaga é capaz de trazer referências e colaborar com nomes como Brian May nas guitarras de You and I, o ápice da carreira de moça e Clarence Clemons no sax de The Egde of Glory, mostrando que ela sabe o que está fazendo, estudou as referências e a história da cultura pop.

Joanne é também um retorno aos primeiros trabalhos da cantora, no ep independente Red & Blue, que contava com uma orientação pop rock, com composições próprias e cover de Pink Floyd, por exemplo. Lady Gaga não retorna somente ao lar, ao Queens, aos mortos totêmicos mas também asua própria musical natal.

Para seu quinto trabalho ela se cercou dos produtores de maior cacife: Mark Ronson, responsável pelo Back to Black, clássico de Amy Winehouse e por um dos maiores hits do ano passado, Uptown Funk; Kevin Parker, queridinho do Tame Impala; ela mesma, que se auto produz desde sua estreia e outros nomes. No time dos compositores é preciso citar Hillary Lindsey, figura carimbada no cenário country de Nashville, Beck, Father John Misty e Josh Homme (que também assina guitarras).

Despedindo-se de qualquer embuste característico dos seus álbuns anteriores, sem raios no rosto ou próteses, sem os figurinos extravagantes, Lady Gaga é ela mesma. Por trás dos disfarces, em toda sua vulnerabilidade e imperfeições, sua voz é orgânica e cristalina, sem o tipo de efeito ao qual éramos acostumados.

Se The Fame os lançamentos subsequentes podem se assemelhar à adolescência: a identidade, sexualidade, rebeldia e agressividade, Joanne é um registro que encontra a paz da maturidade. Ela precisou trilhar um longo percurso para perceber que menos é mais e nesse trabalho poucas faixas são fillers e não há cansaço para o ouvinte, como era característico de trabalhos como Born This Way e Artpop.

BloodPop, Mark Ronson, Lady Gaga e Kevin Parker, produtores do disco.

Não é novidade nenhuma perceber seus flertes com outros gêneros além do pop. Desde 2011, quando lançou uma versão de um de seus maiores hits em country, era possível perceber sua atração pelo gênero miscigenado norte-americano. O rock, é claro, sempre esteve em seu DNA, mesmo que camuflado. Aqui ele ganha mais corpo, na bateria presente em Diamond Heart, a faixa que abre o disco e fala sobre uma sobrevivente de estupro que se torna stripper, junto com guitarras agressivas, encontro hipotético do Bowie de Let’s Dance com Springsteen de Born in the USA, potencializando um refrão extremamente enérgico para o rock de arena.

Para os que buscam baladas mais calmas e influenciadas pelo folk e country, a faixa título, Sinner’s prayer e Million reasons são extremamente funcionais e mostram não só, habilidades vocais, mas também, camadas de pessoalidade de Gaga. O pop dançante aqui também não é fraco, embora dificilmente se pareça às canções que a consagraram, como Bad Romance e Poker Face. AYO tem um refrão cativante e é a mais radiofônica do trabalho, John Wayne é agressiva com percussão marcada e flertes com o country, Dancing in circles, produzida por Beck possui ecos da latinidade e world music do Major Lazer e Perfect Illusion é o dance rock psicodélico do Tame Impala.

É claro que há faixas que poderiam ser melhor, como o funk à lá Prince em Hey Girl, até simpática mas que poderia oferecer mais graças à presença de Florence Welch ou o cabaré da Broadway em Come to Mama. Mesmo esses exemplos são acima da média e compõe a tapeçaria sonora do registro. A bônus Grigio Girls é mais interessante do que ambas e merecia figurar na versão tradicional do disco.

Em uma de suas primeiras entrevistas da carreira, Gaga disse que usava autotune nas suas músicas não porque não soubesse cantar, mas porque era isso que “o público jovem gosta de ouvir”. Joanne é uma evolução natural de Born This Way e, por ter sido lançado cinco anos após esse álbum, soa anacrônico, sendo esse seu maior defeito.

Mais radical do que próteses faciais e vestidos de carne é a capacidade de expor vulnerabilidade de nossas histórias pessoais. Gaga parece ter alcançado a liberdade artística para dar à sua audiência o que ela, enquanto artista, julga interessante e não aquilo que seus fãs esperam dela.

Nota: 4,5/5,0

Ouça: Diamond Heart, Joanne, AYO, John Wayne, Perfect Illusion e Million Reasons.