O cinema e o tempo

Começo dizendo que a voz da cantora Adele é linda mas suas músicas sempre me soam demais. Muito sentimentalismo barato. Logo eu que gosto das palavras aterradoras fujo de suas canções, que funcionam bem para o karaokê mas pouco para o cotidiano. Mas acabei ouvindo em loop When we were young. Diferente de uma das músicas que me fez apaixonar e eleger The Killers como minha banda favorita, a música de Adele é uma contemplação sobre a passagem do tempo e seus efeitos em nós.

You still sound like a song
My God, this reminds me
Of when we were young
We were sad of getting old
It made us restless
It was just like a movie
It was just like a song

Ouvi tanto essa música, em tantos lugares diferentes, no banho, caminhando, no ônibus, no serviço… E entendi cada sutileza sobre envelhecer e sobre as mudanças e permanências, os ciclos e os fins. Pode parecer um hábito um tanto estranho mas gosto de me debruçar sobre o tempo e sua passagem e como ela nos afeta, de diferentes maneiras.

Foi só quando acabou a sessão de Doutor Estranho que percebi a ligação entre o Cinema e a passagem de tempo. E escrevi: “A fotografia é a manipulação do tempo e espaço, a apreensão, armazenamento, a luz que fere o papel e se torna eterna. Assim, o Cinema é a manipulação do tempo e espaço. Se para Tarkovski fazer cinema “é esculpir o tempo”, tempo que é matéria prima e fonte, se Bazin olha para os planos sequência como manipulação do tempo, Doctor Strange é um filme sobre fazer cinema, sobre lutar e resistir ao tempo, sobre as leis de tempo e espaço, sua manipulação e suas consequências. Sob o embuste de blockbuster de heróis é um filme-infiltração, visual e tematicamente mais audacioso que seus irmãos do Universo Marvel. Esse filme é um feito e um achado. A sequência sobre a morte na pessoa de Tilda Swinton é linda. Filmão. Encontrei o herói de que precisava (mas é claro, X-men ainda são meus favoritos).”

Os heróis nunca me agradaram. Não os convencionais. Eu só me rendi ao gênero quando encontrei os X-Men, com seus debates políticos e alternativos. Durante muito tempo a criança gordinha e desastrada em mim se projetava em Wolverine, com sua audácia, força e rebeldia. Tudo bem que o último filme dos mutantes não é de longe um dos melhores do ano mas, pra mim, o pior filme dessa equipe ainda é melhor do que a maioria dos filmes de heróis espalhados por aí. Ponto para a bela sequência na qual Xavier com a ajuda de Jean Grey enfrenta Apocalypse num confronto, literalmente, mental. São poucos filmes de heróis que se arriscam dessa maneira, como Doutor Estranho, acima.

Assim, percebi que meus filmes favoritos do ano (ou pelo menos aqueles que me marcaram mais) são todos sobre a passagem do tempo e sua relação com o Cinema.

Aquarius, com seu burburinho mais do que justificado e a atuação de entrega de Braga, é uma aula de direção. Kleber Mendonça Filho parece ter encontrado a maturação que sua primeira obra apontava, mas não em completude. É em Aquarius que ele finalmente doma e usufrui da melhor maneira possível todo o aparato de linguagem cinematográfica que ele experimenta em O Som ao Redor. E é um filme sobre o tempo. Ao mesmo tempo me lembra que falta cinema sobre Ledijane e suas dores, falta Cinema sobre os pobres que são obrigados a morar em região metropolitana por obras da Copa, Antônio Carlos e afins.

Acompanhando a classe média ainda há o belo O que está por vir que gosto de chamar no original, L’avenir. As aulas de francês que abandonei devem servir de alguma coisa. Mia Hansen-Løve extrai de Isabelle Huppert uma atuação mais convincente e naturalista do que aquela empreendida por Paul Verhoeven em Elle. Não é atoa que Mia teve o reconhecimento pela sua direção no Festival de Berlim e que Huppert dividiu o prêmio de atuação pelos dois filmes. As personagens funcionam como duas faces de uma mesma moeda, mas é L’avenir, com sua resistência ao tempo pacífica e cotidiana, como a maior dos espectadores, que me identifico. Sem o marido, sem a mãe, sem a publicação de seus livros resta à protagonista do longa viver.

Por fim, A Chegada é mais uma obra do eficiente Denis Villeneuve, menos claustrofóbica e sufocante que em seu longa anterior, Sicário, compondo planos nos quais os personagens tornam-se pequenos, diante do céu, do tempo, dos seres de outro planeta. Apequenar seus personagens diante do desconhecido, do eterno, do infinito.

É um filme que indaga sobre nossa própria relação com o tempo, uma ficção científica apenas na primeira camada, com suas parcas convenções e roupas contra radiação. “A língua é a primeira coisa que nos une.” Os extraterrestre aqui parecem anjos, deuses, com seu próprio idioma, que é apreendido por Amy Adams (numa atuação contida mas expressiva, sem arrombos de sentimentalismo) de maneira quase profética, assim como capacidade de distender no e pelo tempo, sua eternidade, lembrando Deus eterno, sem início e sem fim. Poucos momentos de didatismo não empobrecem a experiência que é esse belo exemplar de blockbuster autoral.

O cinema, de certa modo, é uma religião. Eu faria da projeção meu altar, se já não tivesse minhas próprias crenças.

Outros belos filmes de 2016: Julieta, Elle, Creepy, Rogue One.

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