Diálogos privados em transportes públicos

Autor: Beeau Gómez

Íamos por São Paulo durante a madrugada deserta e escura das ruas solitárias, motorista, cobrador e eu. Na região da Avenida Paulista, subiram alguns homens que haviam saído do expediente em bares e restaurantes da região. As duas mulheres subiram mais a frente, perto do Centro, e sentaram-se juntas. Na poltrona oposta estava um homem com um fone de ouvido na orelha, e ele conversava com a senhora de grossos óculos de armação transparente e olhos miúdos.

Ce é freira?, perguntou enquanto a fitava.
Não sô, filho.
E esse chapéu de freira? 
É uma touca, mas não sô freira. Sou papagaio de jesus, disse com vagareza.
Papagaio?
É porque eu repito a palavra de Jesus, eu levo a palavra pra onde eu vou.
E pra onde cê ta indo?
Pra casa.
 
Reclamações do trabalho, da política e das finanças dão o tom da conversa até que a mulher sentada ao lado senhora muda o assunto. De vestido longo e laranja, ela elogia o clima ameno da madrugada e o vazio das ruas do Centro, onde a escuridão dá faces limpas aos prédios antigos antes deles serem descobertos pela aurora outonal, de sóis lúcidos e ventos frios.

Prefiro assim do que com calor, de dia e cheio de gente. Dá pra ver melhor no escuro…, finaliza para não ser respondida.

Sabe Davi? Não acredito na história dele, não…, fala o homem.
Tá pensando que cê tem o conhecimento da palavra?, retruca a mais velha. 
Ah… fiz catequese.
Então tem que acreditar.
Mas será que ele fez aquilo tudo?, fala ele separado delas pelo corredor.

Por ali passa um homem negro, de terno e careca, que subira perto da Liberdade. Também de fones, mas nos dois ouvidos, senta-se ao meu lado. Batuca as moedas do bolso direito em ritmo de samba. Ignorando o diálogo sacral que se dá, ri alto. Sacou né, fala ele para moça, que dá risada e esconde o rosto entre as pernas.

Aqui que a gente desce?
É sim, responde a senhora, já é Armênia, dá o sinal, ela diz.
 
Felizes pelo papo na viagem, elas sorriem e se despedem do colega com até logos e vai com deus.

Benção, minha senhora, diz o rapaz encostado na janela.
Benção, meu filho, e vê se ouve a palavra da Bíblia.
Uhum, responde.

Elas descem. A senhora, com dificuldades, vai à frente da mais nova, que, feliz, salta o último degrau da escada.

Que inveja docê, Marilene, fala a senhora.
É a alegria, Rose.

São umas benção essas duas viu, sabem das coisas Jesus, fala o rapaz.
Ô cê são, responde o homem de terno.