Linha Azul

Cinzeiros com cinzas de cigarro e bitucas e um ainda queimando. 
Pego este, quase na bituca. 
Ele queima. Apago-o.
Miro as cinzas.
Elas voam com a brisa que bate da varanda.
Vou até lá.
Chove numa tarde escura de São Paulo.

No Metrô, fico em pé.
Observo os outros, distante adentrados nos portais luminosos.
Alguns permanecem naquele presente passado.
Os fones nada tocam.
Ninguém sabe. Acham que ouço.
Vejo-os e escuto-os.

Não quero nada com nada.
Sigo o meu caminho.
Vago pelo subterrâneo de São Paulo.
Debaixo da terra a luz natural não chega.
O calor não me afeta aqui, embaixo.
Só o humano — que evito.

Pessoas vão de A a B sem saber o que há entre A e B.
Uma liberdade de laboratório:
Vá até aonde vou.
E somente onde estou.
Na velocidade que sigo nos túneis 
Feitos com cimento como a cidade de cima
Se paga, viaja, 
se não paga
Bala.

Azul e de norte a sul
Do lado de lá do rio
Onde o trem da terra sobe
A novela é essa para os espectadores do Carandiru,
Atrás de grades e de paredes,
Cerrados a espera do fim daquela trama nada global.

…melhor pedir do que roubar,
Diz o papel entregue pelo garoto prateado
Que foge, descalço, dos homens de preto
Capas de revista e bonitos
Mas que batem fortes como touros e covardes
Como carrascos de formigas.

Moedas doadas 
A igreja da Armênia treme
Vidros da torre não se desfazem
São os sinais da cruz feitos
Para o Pai-Nosso, que ficais aí,
Não venha ao meu
Que não mexo no seu.