Santana

Comprei uma caixa de M&M’s que servirá muito bem como depósito de pontas, como a que fumo agora antes de entrar no mercado pela ladeira, cujo sol das sete da manhã brilha nos olhos dos motoristas. Em breve, no entanto, ele será encoberto por um prédio que completará o cânion de outras construções ao longa da ladeira da Avenida Voluntários da Pátria. Um dos edifícios, dos mais antigos de lá, preveu o futuro vertical região em seu nome: Itaparica.

O substantivo, que também batiza a formosa ilha que fica na Baía de Todos os Santos, tem origem tupi e significa “cerca feita de pedras”. À medida que a ladeira se aplanifica perto da Avenida Braz Leme, próxima ao metrô de Santana, as características urbanas mudam. Lojas de calçados, de móveis e de vestuário; pequenos consultórios, bancos e comércio ocupam a via e suas adjacentes. Colada com a entrada subterrânea para o outro lado do bairro, a Igreja tem ao seu redor comerciantes autônomos que vendem fones de ouvido, bebidas, cigarros contrabandeados e até relógios de ouro. Estes, em geral, são comercializados por imigrantes camaroneses e nigerianos, que carregam maletas escuras carregadas de falso luxo.

Pela manhã, dão as caras senhoras com bolos e cafés oferecidos por alguns reais aos trabalhadores do nascer do sol, aqueles que não têm o luxo de sono após as dez da manhã. Logo cedo forma-se, nos fundos da paróquia, a longa fila de moradores de rua, travestis e outros para o desjejum servido pelos padres e ajudantes. Depois, o cardápio do dia é a fritura. Batata frita e churros rechedo empesteiam seus cheiros saborosos e enjoantes nas saídas do metrô. No lado leste da estação ficam o terminal de ônibus e os puteiros, que se avizinham com pensões, comércios matutinos e prédios empresariais. Os frequentadores são vários, aproveitando-se da isenção na entrada a qualquer um dos empreendimentos do sexo que predominam o local próximo ao Parque da Juventude, onde antigamente ficava o presídio do Carandiru.

Se o terreno plano chama para os prazeres mundanos e carnais, morro acima se mede a temperatura de São Paulo, a umidade e a velocidade do vento, dados captados no Mirante de Santana, uma casa branca antiga numa praça rodeada por casa. De lá se vê as costas das “cercas feitas de pedra”, além da estalagmite que brota e que em breve esconderá a fresca luz matinal dos rostos de quem observa o bairro por dentro. Aliás, nesta praça, há um belo pôr do sol que cai por trás dos Itaparicas, Julios Rovais e Debieux. Entre tragos e goles, jovens esperam pela sumida do astro — antes que sumam com ele.