Viver como uma só pessoa

Eu precisaria de mais algumas vidas. Uma para ser do tipo aventureiro. Queria colocar uma mochila nas costas e sair viajando por aí. Uma para ser culto, para ler todos os clássicos, entrar em qualquer conversa e falar sobre qualquer assunto. Teria que dedicar uma vida a amar. A amar pessoas de todas as tribos, de todas as cores, de todos os jeitos. Uma vida para ser filósofo. Uma vida para ser cientista. Uma vida para ser artista. Músico que toca em concertos para cem mil pessoas. Estaria em todas as capas de revistas. Uma vida para ser ninguém. Uma vida para ser qualquer coisa. Uma vida para viver em paz. Uma vida para viver atarefado, sem tempo pra nada, com a certeza de que o tempo perdido será compensado na próxima. Uma vida para chorar copiosamente por qualquer coisa. Uma vida para ser cineasta. Uma vida para sorrir. Uma vida para tocar as pessoas. Uma vida para ser lembrado. E uma para ser esquecido.

Sempre que penso nas vidas que queria ter lembro que não estou vivendo a única que eu tenho e, se porventura tiver outra, não saberei nada a respeito da passada, e da mesma forma, pensarei no que poderia ter feito. Assim, diante de tantas possibilidades, tento fazer de tudo um pouco e acabo não fazendo nada. Me perco e me encontro, para depois me redescobrir perdido. Se a vida é uma só eu não sei, mas quero viver muitas. Mas, a minha disposição, só tenho uma. Uma rápida e breve vida. Nada demais, mas não sei o que fazer a respeito. Até descobrir, vou vivendo um pouco disso, um pouco daquilo. Para, no fim, completar tudo, e pensar na vida que vivi. Esperando pela próxima que quem sabe possa viver. Na próxima, tudo será diferente, vou viver como uma só pessoa.

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