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A história é a seguinte: a cantora Beyoncé soltou um videoclipe criticando a violência policial nos EUA — fazendo referência ao assassinato de negros no país.

O resultado? Uma galera fez um boicote do videoclipe, com a desculpa que, segundo eles, a Beyoncé promove o ódio a polícia.

Olha, eu sou uma pessoa bem de boas, mas quando vejo a falta de capacidade das pessoas de interpretarem algo, eu fico bolado. O que será que esse pessoal pensa de tantos outros videoclipes? Que “Thriller” do Michael Jackson conta a história de um negro que voltou dos mortos para matar a população branca? Ou que, sei lá, “Telephone” da Lady Gaga conta a história de um mina que foi presa por se vestir esquisito?

A mensagem do videoclipe, “stop shooting us”, não é anti-polícia.

É anti-assassinato.

As metáforas e os simbolismos apresentados no videoclipe são maravilhosos: um carro da polícia afundando na água junto com a Beyoncé vestida de vermelho, os oficiais rendendo-se para um garoto negro que dança na frente de todo um batalhão, os trajes que lembram uma guerra civil, etc.

Confesso que nunca fui um apreciador do trabalho dela, mas achei meio que sensacional uma cantora do porte da Beyoncé se posicionar contra violência policial dessa forma, sem rodeios. Não consigo imaginar algo assim acontecendo em terras tupiniquins.

Sem falar que é divertido imaginar o povo do Texas e a polícia de New Orleans assistindo a esse videoclipe e se remoendo — não de recalque — mas de raiva mesmo.

O mais engraçado nas discussões que sucederam o lançamento da música é ver como as pessoas ficam mais indignadas com o videoclipe em si e não com o problema que ele trata. A cantora diz:

“Ei, eu acho que a polícia deveria parar de matar jovens negros”.

E o que galera pensa?

“MEU DEUS, ELA ESTÁ FALANDO QUE ODEIA POLICIAS! VAMOS BOICOTAR ESSE VIDEOCLIPE, ARMARIA!”.

É engraçado também observar como as pessoas sempre adoram boicotar essas coisas que tocam nas feridas abertas da nossa sociedade. Por que essa galera não usa essa mesma disposição para boicotar também, sei lá, o preconceito e o ódio ? Tomara que a Beyoncé faça um videoclipe sobre esses assuntos, quem sabe assim, acontece.

Como disse, não sou um fã da obra dela, mas fiquei impressionado com o videoclipe. Em tempos como esses, emitir uma opinião ou crítica pode custar a sua carreira, e, independente do seu gosto musical, a coragem dela é de tirar o chapéu.

Mas se ainda assim você acha que a Beyoncé foi cruel ao retratar a polícia como violenta, você deveria ver como a polícia trata os negros todos os dias.

É bem pior, cara.

5/5

Texto escrito por Daniel Duncan.


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