PORQUE HUMORISTAS NÃO DEVERIAM SER CONSERVADORES

Com o fim de uma trágica eleição, que trouxe mais perguntas do que respostas, resolvi buscar conforto no que mais amo: a comédia. Então, ouvindo os discos dos meus humoristas favoritos, cheguei numa estranha conclusão: é meio absurdo que existam humoristas conservadores.

Essa percepção ganhou mais forma quando constatei a quantidade de humoristas com uma inclinação para a esquerda. George Carlin, Bill Hicks, Chris Rock, Lenny Bruce, Wanda Sykes, Dave Chappelle, Woody Allen, Sarah Silverman, Stephen Colbert, Jim Jefferies, Jon Stewart, Bill Maher; a lista é quilométrica. Durante as eleições americanas, praticamente todos os humoristas fizeram sátiras muito violentas e destrutivas contra Donald Trump. Acredito que apenas o comediante Dennis Miller declarou voto ao candidato da ala conservadora. Neste ponto, me vi diante da questão antes levantada pelo professor Rui Ramos: “porque é que todos os humoristas da rádio e da televisão são de esquerda?”.

Acredito que parte dessa resposta encontra-se na própria história do humor.

Ao longo dos séculos, não foram poucos que tentaram “conter” o riso. Sócrates já dizia que “deve-se usar o riso como se usa o sal — com parcimônia” (Stobaeus). Tanto Platão como Aristóteles opuseram-se também ao humor e à obscenidade, acentuando a necessidade do riso contido, inofensivo. Em A República, Platão declara que os guardiães do estado ideal são proibidos de se entregar ao riso porque o riso exagerado é normalmente seguido de uma reação violenta. Em As Leis, reconhecida como uma obra conservadora, Platão chega a querer abolir completamente a comédia.

A Igreja foi ainda mais longe. Na epístola aos Efésios, no Novo Testamento, o autor declara que a “zombaria” não tem lugar na comunidade cristã. Outros autores cristãos condenaram amplamente o humor, como Inácio, Clemente de Alexandria, Orígenes e, literalmente, em dúzias de passagens, por Basílio e João Crisóstomo. Os dois últimos chegaram ao ponto de condenar também o riso, o que, de fato, muitos padres fizeram. Clemente de Alexandria, que escreveu um livro, o Paedagogus, para os jovens cristãos de classe alta, dedicou uma seção especial à questão do riso. Ele quis banir os cômicos da sociedade cristã. A esse respeito, como em relação a vários outros assuntos, esses doutores da Igreja seguiram a tradição dos filósofos conservadores. O motivo é que o riso, em muitos aspectos, é pagão. O humor é o contrário do controle. Não é surpresa que um grupo social que tentava manter o controle sobre todos os tipos de expressão física, como comer, dormir e a sexualidade, também se opusesse ao riso.

Mais tarde, no final do século XVII, houve um desprezo por todos os tipos de humor. Também foi nesse período que o bobo da corte saiu finalmente de cena. Entre as justificativas há a relação entre o riso e a sociedade. O pensador russo Mikhail Bakhtin traçou um quadro da cultura medieval dividida em dois grupos opostos. Um era a cultura oficial, a cultura da Igreja, a cultura dos homens cultos. Esta cultura foi caracterizada por Bakhtin como uma cultura onde as pessoas nunca riam e que até odiavam o riso. No outro grupo da cultura medieval, Bakhtin encontrou a tradição popular, dominada pelo riso. Na visão dele, o carnaval era a destilaria dessa cultura popularesca. E aqui morava o problema da elite conservadora: toda a festividade requer abandono da normalidade cotidiana. Em um contexto mais amplo, o carnaval e as festividades análogas podem corromper temporariamente as regras sociais rígidas a que todos nós obedecemos. O carnaval cria um mundo desordenado de realidade invertida, onde tudo o que é normalmente proibido torna-se permitido. Dessa forma, por servir como um instrumento de crítica dentro do mesmo grupo social, o riso era perigoso para os poderosos. Embora a brincadeira urbana fosse permitida entre os membros da classe alta, eles jamais estenderam o direito de fazer piada sobre um nobre para além de seu próprio grupo, muito menos para a classe popular: piadas dentro do grupo funcionam como um instrumento de coesão grupal, piadas de fora ameaçam o status.

O problema do conservadorismo encontra-se inclusive na construção de piadas. Dentre muitas coisas, piadas são uma subversão do status quo. O filósofo Kant acreditava que a escrita humorística consiste de um processo voluntário e consciente de olhar para as coisas e pensar sobre elas de um modo fora do convencional. Nesse sentido, o conservadorismo é um problema justamente por nos manter presos a certas concepções do pensamento normativo. Para criar piadas, o humorista precisa abdicar de comportamentos, quebrar as normas, desobedecer padrões sociais; enquanto o conservadorismo se esforça para manter as coisas como são. Esse é um conflito que jamais será evitado. A comédia questiona o status quo. Sempre. E a direita — independente do governo vigente — tem um apreço pelas instituições, que refreia a vontade de questionar o estado das coisas.

Por tudo isso, considero o humorista conservador um indivíduo que vai contra a sua própria natureza.

Texto escrito por Daniel Duncan


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