O PROBLEMA DO TERMO “POLITICAMENTE CORRETO”

Essa semana, Claudia Leitte foi protagonista de uma verdadeira guerra nas redes sociais. De um lado, pessoas indignadas com um caso de assédio sexual envolvendo a cantora. Do outro, pessoas denunciando as arestas em torno da liberdade de expressão. Nos EUA, há algumas semanas, fãs de Os Simpsons fizeram uma verdadeira caça às bruxas — incluindo ameaças de morte — contra o comediante indiano Hari Kondabolu. O motivo? Um documentário de humor intitulado The Problem With Apu sobre os problemas da representação sul-asiática na cultura norte-americana. O que essas duas histórias têm em comum é a visível intolerância à críticas por parte da direita conservadora.

Existe uma piada básica e transversal a todas as culturas que é a seguinte: uma pessoa tropeça e cai. Segundo Freud, uma possível explicação seria o fato de piadas envolverem a criação ou o estímulo de uma tensão, que será descarregada através do riso. Assim, ao vermos uma pessoa cair, ignoramos nosso censor interno, e rimos. O prazer da piada nasceria então dessa relação: do ponto de vista freudiano, piadas permitem que por um momento apreciemos o prazer proibido de liberar nossos impulsos mais primitivos. O humor teria a mesma função dos sonhos para Freud: libertar instintos e desejos sexuais agressivos e socialmente reprovados/reprimidos. Dessa forma, mesmo que a intenção do comentário fosse apenas “fazer uma brincadeira” com a cantora, isso não significa que a fala esteja isenta de carregar — de forma consciente ou não — um aspecto cultural que precisa ser combatido (no caso, o assédio sexual). No entanto, é possível observar que, para muitos liberais, tudo se resume a questão do “politicamente correto”, de que o mundo está deveras “certinho” e que não se pode falar/ou fazer mais nada. Porém, quem diz que trata-se apenas de um possível controle da linguagem, ou não entendeu o que é assédio sexual, ou não sabe o que é a liberdade de expressão. Pois se a liberdade de expressão consiste em dizer o que quiser, isso também deveria incluir o descontentamento da cantora em relação à uma “piada” e o ponto de vista de um indiano sobre um personagem que o representa.

De maneira geral, para o liberalismo, a liberdade de expressão é o princípio básico que defende a liberdade de articular todo e qualquer discurso sem medo de retaliação, censura, ou sanção. O liberalismo acredita que o discurso aberto e franco é a principal arma contra qualquer posicionamento extremista. Como bem disse Thomas Edison, o xodó dos liberais: “nenhuma ideia é perigosa para a sociedade quando discutida abertamente”. Confesso que gosto bastante desse conceito. Isso significa que tudo está sujeito a crítica e que a sociedade não precisa sempre responder positivamente. Contudo, para a direita, isso não vale para críticas envolvendo casos de assédio, ou sobre um desenho animado. O que de fato é curioso, porque criticar algo— quer a crítica seja contundente ou não — não configura uma “censura”, é o contrário: um exercício democrático.

Mesmo que uma crítica seja absurda, é necessário que as coisas sejam contestadas. Quando uma crítica é cessada, cria-se um tabu, e é aqui que o pensamento morre, transformando rapidamente um ponto de vista em um dogma. Em um mundo ideal, um discurso humorístico diz o que lhe apetece e o público diz o que lhe apetece sobre o discurso humorístico. Piadas não são um amontoado de palavras desprovidas de significado e liberdade de expressão não implica em um mundo sem críticas. Piadas não são especiais e correm os mesmos riscos de qualquer declaração. Claro, embora existam ressalvas (ironia, sarcasmo), no geral, tudo que é um problema no discurso não-humorístico também será ao se tornar uma piada. Novamente, óbvio, em todo caso, é necessário que haja uma ponderação em relação ao discurso. Particularmente, tenho um problema com proibições. No entanto, observo que o controle da linguagem é apontado na maioria das vezes na esquerda, enquanto a direita bebe da mesma fonte. Nos anos 70, Gianni Rodari já falava sobre isso em Gramática da Fantasia:

É preciso estar atento a um aspecto particular do “riso de superioridade”. Se o perdermos de vista, ele pode assumir uma função conservadora, aliar-se ao conformismo mais enjoado e enviesado. Aí está a origem de um certo “cômico” reacionário, aquele que ri do novo, do insólito, do homem que quer voar como passarinho, das mulheres que querem fazer política, dos que não pensam como os outros, não falam como os outros, dentro das tradições e dos regulamentos. Para que o riso tenha uma função positiva, é preciso que sua flecha golpeie ideias velhas, o medo de mudar, a beatice das normas. Os “personagens errados” do tipo anticonformista devem ter destaque nas nossas estórias. A sua “desobediência” à natureza, ou às normas, deve ser premiada. São os desobedientes que movimentam o mundo.

Nesse aspecto, hoje, a noção de transgressão está sendo deturpada pelos defensores assíduos do politicamente incorreto. No sentido que piadas racistas/machistas/homofóbicas/etc são transgressoras. Pelo contrário, a transgressão nasce quando se ultrapassa uma norma social e não quando você reafirma um aspecto cultural que pulsa diariamente (e deveria ser combatido). Humoristas como Lenny Bruce, Bill Hicks e George Carlin não eram transgressores porque faziam comentários “polêmicos”, mas pela ruptura que criavam com a sociedade da época. Um bom cômico sabe que o riso é um fenômeno cultural e social, no qual a transgressão surge quando as normas vigentes são ultrapassadas. Em um universo onde o assédio sexual é uma realidade, onde a representatividade na tevê ainda é um problema, um personagem, ou uma “piada”, como no caso da Claudia Leitte, é ruim, não por ser “polêmica”, mas por perpetuar e relativizar um aspecto cultural que no frigir dos ovos corrobora para manter uma sociedade onde mais pessoas, homens e mulheres, passaram por esse problema todos os dias. Logo, o termo “politicamente correto” torna-se um problema, levando o debate para uma única via, quando, na verdade, a liberdade de expressão é o contrário disso, com vários pontos que são necessários considerar — até os que você discorda. E, por conta disso, os defensores do “politicamente incorreto” acabam criando uma estratégia de controle do pensamento através do controle da linguagem. Um lado aponta um problema: “isso foi assédio”. O outro lado rebate: “é inadmissível que essa crítica seja dita, cale-se”. Ao que parece, hoje, as pessoas acham que têm o direito de ofender, mas não de serem criticadas por terem ofendido, sendo que é totalmente legítimo uma reação negativa ao discurso que desagrada. Ao dizer que tudo é “politicamente correto”, que o mundo está deveras “certinho”; o indivíduo elimina o lugar do outro como sujeito e cria um novo problema.

Esses dois episódios são um claro retrato de como a direita ainda não aceita ser contrariada. Ao contrariar, é censura, é “mimimi”, é vitimização; é tudo, menos crítica. Estes podem ter a liberdade para falarem qualquer bobagem, qualquer absurdo, mesmo que estes absurdos sejam repudiados caso ditos por outras pessoas de um espectro político oposto. O termo “politicamente correto” acabou se tornando um instrumento autoritário usado por gente mal intencionada que quer determinar o que outro pode ou não achar errado, excluindo toda e qualquer discordância sobre o caráter de algo.

Texto escrito por Daniel Duncan


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