A obsessão com Chris McCandles

Acho engraçado como um livro, história, pessoa pode movimentar milhões a acreditarem em traços em comum.

Quem já assistiu ou leu “Na Natureza Selvagem”, escrito por Jon Krakauer com os relatos de Chris McCandles provavelmente sentiu-se como se a vida fosse aquilo e nada mais. Sentiu que deveria fazer o mesmo e necessidade de sair por aí. Ou se encontrou no famoso “happiness only real when shared” que está gramaticalmente escrito errado inclusive.

Para quem não assistiu o filme ou leu o livro, em resumo: Christopher era um menino de uma família classe média alta, nascido na Califórnia, que se graduou e partiu para uma aventura sem volta rumo ao Alaska após sua formatura. Chris procurava viver do que a terra tinha a oferecer de forma simples e básica por isso partiu sem equipamento e estoque de comida: somente munido de alguns livros e pensamentos diversos.

A verdade é que o livro que retrata a vida do McCandles me irritou e intrigou. Me levou a traçar um caminho entre as leituras anteriores dele e os fatos sobre os locais, e nas últimas 3 semanas estive com o nariz no meio dos livros tentando entender um fascínio geral. Tentando entender o garoto também.

E eu cheguei à uma conclusão referente à volatilidade do ser humano em relação à vida. Somos compelidos a um sistema de trabalho, estudo, sucesso e temos em sua maioria, necessidade de desbravar o mundo e sair desse casulo. De forma genérica. Milhares de pessoas morrem na mesma trilha que McCandles seguiu no Alaska por acharem de forma inocente, que aquele deveria ser o caminho deles também.

Muitos levam os escritos do jovem solitário: quando no fim, ele não era tão sozinho quanto pensam que era. Pelo contrário, ele fez mais amigos que eu nos meus 21 anos. Ele se distanciava das pessoas mas, nunca as eliminou de sua vida. A não ser seus pais, que ele tinha como opressores extremos.

Engraçado, que McCandles não suportava seus pais por motivos pessoais da vida dos mesmos mas, tinha como herói Tolstói, que durante sua adolescência não fez nada além de se encontrar com prostitutas e beber muito. Sinal de imaturidade, rebeldia e falta de empatia. Conseguia relevar os erros de seus escritores mas não os de sua própria família, a quem dizia que amava.

Essa história desencadeou diversas outras e uma indignação geral aos alasquianos que vivem por séculos nos locais e sobrevivem nas condições apresentadas. Isso, porque se preparam para a vida de tal forma e não só saem pelo Alaska com quilos de arroz e uma muda de roupas como McCandles fez.

Sinto que a comoção em relação ao McCandles nada mais é do que reflexo da nossa necessidade de sair dos sistemas impostos pela sociedade. Muitos se identificam e levam ele como inspiração. Não desmerecendo a forma que viveu mas, ele não tinha um propósito externo. Acredito que tenha sido inteiramente feliz mas, não acredito que essa espécie de felicidade seja compelida a todos. Não me sinto inclinada a acreditar que a única forma de felicidade seja a do desapego e ensinamentos da filosofia contemporânea. Ou mesmo a “morte prematura”, em prol de experiências de vida.

De fato, McCandles não tinha a vontade de mostrar, ensinar ou alertar sobre nada e mesmo assim, acabou fazendo-o. Acontece que essa obsessão criada ao redor dele e sua história, tem criado uma necessidade utópica em seres humanos ao redor do mundo.

Não me sinto compelida a sair pelo mundo desprovida de tecnologia e conforto após ler a obra de Krakauer e posteriormente algumas obras de Tolstói, Pasternark e Walden. Acontece que essa revolução interna atinge tantas pessoas pois transforma-se a história em um romance muito bonito. É palpável. Em um piscar de olhos, você se sente tão McCandles quanto o próprio e tatua os ensinamentos do mesmo além de gritá-los aos quatro ventos.

Quando que na verdade, a felicidade pode até só ser real quando compartilhada mas, acreditar plenamente que essa forma desbravadora é a única de ser feliz, é ser inteiramente cego em relação à todas as infinitas possibilidades de acordo com todas as combinações genéticas e de personalidades mutáveis possíveis nesse mundo.

Em resumo, acreditaria sim que McCandles foi feliz. Não acredito que essa vida seja para todos ou somente a única forma de felicidade. Não acredito que seja necessário desprender-se de materiais, pessoas ou filosofias. Não acho que seja necessário viajar e viver outras realidades de vida, caso a pessoa não queira. Creio que muitos são felizes com as 40 horas de trabalho semanal e rotina Segunda- Sexta. Também acredito que muitos sejam felizes saindo pelo Alaska com mínimas chances de sobrevivência.

Só não acredito em fazer unitárias e imutáveis, as formas de felicidade.