Eu queria que você soubesse

Sara Herranz

Você sempre me diz: “qualquer um se apaixonaria por você”.

Mas eu queria que você soubesse, qualquer um se apaixonaria por qualquer um que ocasionalmente sente ao seu lado no banco da praça e puxe uma conversa inesperada sobre o tempo. E seria difícil não sucumbir a paixão diante de qualquer um que fosse sensível a ponto de oferecer ajuda para carregar aquele bocado de sacolas escada acima ou abaixo.

É fácil fazer brilhar os olhos diante de qualquer um que conte histórias que você nunca ouviu; qualquer um que te mostre um jeito novo de perceber as coisas, de resolver as coisas ou desmantelar todas elas com uma aparente tranquilidade. O mesmo ante qualquer um que te apresente uma música nova, um filme inédito, o trecho de um livro que você nunca cogitou ler.

Se apaixonar por qualquer um capaz de passar horas em uma mesa de bar, frente a frente, abrindo todas as gavetas da alma para a sua análise, qualquer um que te faça sentir outro, te tire da inércia, da rotina, e transforme você em um canalha quebrador de regras; é natural.

Criar expectativas, que fazem queimar a boca do estômago, sobre qualquer um que te pareça tão distante da realidade, tão estranho, tão livre, tão ameaçador, tão místico, tão racional, tão aberto, tão espetacularmente provido dos “tãos” que você precisa entrever em qualquer um; é banal.

Você se apaixonaria genuinamente por qualquer um que te olhasse nos olhos, te entregasse sorrisos fáceis e lacrimejasse sem pestanejar em momentos de agonia. Porque qualquer um capaz de tentar ser alguém na sua vida é mesmo de se apaixonar.

Então sim, é simples se apaixonar por mim ou por qualquer um; e é por isso que eu sempre preferi ser amada.