Soco de Uma Polegada

Nenhum outro golpe é mais emocionante


Bruce Lee é um ídolo da geração do meu pai, mesmo assim sempre me fascinou, especialmente, pela maneira como preparou e treinou seu corpo para fazer coisas que muitas pessoas atribuem como resultado de um dom. A consciência corporal e disciplina de Lee são, quase, paranormais.

De tudo que já li e assisti, nada impressiona mais do que o mítico Soco de Uma Polegada. Não há, nas artes marciais, outro golpe tão impressionante quanto o golpe do Bruce Lee.

Imagine o seguinte: no espaço de uma polegada, Bruce Lee era capaz de desferir um soco tão potente que derrubava oponentes arrancando-os do chão. O golpe é tão impressionante que fãs mundo a fora o adoravam somente por isso e até filmes de Hollywood se aproveitaram da mística do golpe. Em Kill Bill, por exemplo, a Noiva é treinada por Pai Mei para aprender o soco de três polegadas, numa clara alusão ao golpe de Lee.

Pai Mei ensinando a técnica para a Noiva

Bacana né? Mas você sabe como o “Soco de Uma Polegada” funciona?

A Popular Mechanics resolveu mergulhar a fundo na mística em torno do golpe e descobrir como Bruce Lee o fazia funcionar. Numa combinação de fisiologia aprimorada, biomecância e neurociência, o devastador soco de uma polegada de Lee ia muito além da força de seu braço. O resultado era conseguido através de uma sequência fluida de cada parte do seu corpo.

Na pesquisa feita por William Herkewitz, ficou claro que o soco não depende somente de força.


Biomecânica Explosiva

Num instante, o punho de Bruce Lee é capaz de transpor uma pequena distância e acertar um alvo num impacto com uma força descomunal. O soco é uma combinação de uma série de movimentos que envolve o corpo inteiro. E tudo começa, vejam só, pelas pernas.

Em meros milissegundos, uma centelha de energia cinética nasce nos pés de Lee e viaja pelas pernas que se esticam abruptamente após uma explosão de extensão dos joelhos. A extensão repentina das pernas aumenta a velocidade de torção dos quadris de Lee que, por sua vez, dá uma guinada no ombro que empurra seu braço para a frente.

Num ato contínuo, assim que o ombro de Lee mpulsiona o braço para frente, o cotovelo estende quase que simultaneamente e movimenta o punho em direção ao alvo. Finalmente, Lee dá um chicotada no punho aumentando mais ainda a força do impacto.

Detalhe importante: logo após acertar o alvo, Lee recolhe o punho apenas poucos centímetros quase que imediatamente após tocar o alvo. Aparentemente, esse recuo é feito por que quanto menor o tempo de impacto no alvo, mais poderosa é a compressão da força no alvo, tornando o golpe descomunalmente forte.

Em resumo, no momento em que o punho encontra o alvo, Lee combinou a força dos principais músculos do corpo em um pequeno alvo. No entanto, o que parece ser obra de uma combinação perfeita de movimentos e contrações musculares em cadeia que resultam numa explosão de força, os músculos de Lee não são as engrenagens mais importantes por trás do soco de uma polegada. Isso quer dizer que a simples contração das fibras musculares não significa coordenação e, pelo que se pode ver, o timing perfeito dos diferentes movimentos coordenados são a alma do soco de uma polegada.

Como o soco acontece num espaço minúsculo de tempo, Bruce Lee precisa sincronizar cada segmento do jab — impulsionando as pernas, estendendo os joelhos, torcendo o quadril, impulsionando o ombro, braço, cotovelo e punho — com extrema precisão. Além disso, cada articulação no corpo de Lee tem um único momento de pico de aceleração, e para obter o êxito máximo do movimento, Lee deve articular cada fase dos movimentos de modo que cada novo período de pico de aceleração siga imediatamente o anterior.

Descrever esta função para uma máquina é simples, um software bem escrito resolve, mas para um ser humano desenvolver este nível extremo de sincronia e harmonia necessita diversos componentes exclusivos, o maior deles é a disciplina do treino.

Esta tal coordenação de movimentos é o ponto chave do soco de uma polegada e, é neste ponto que, a neurociência explica como funciona.


A Arte da Neurociência

Apesar da biomecânica por trás do golpe não ser nem um pouco trivial, o soco depende muito mais de um questão cerebral do que de força pura.

Num estudo conduzido em 2010, Ed Roberts, uma neurocientista na Imperial College London, comparou a força de socos num raio de duas polegadas, aproximadamente, entre praticantes de karatê e pessoas fisicamente aptas e semelhantes mas sem treino em artes marciais.

A primeira observação foi que os praticantes de karatê socam melhor e mais forte do que aqueles que não possuem experiência em artes marciais, ainda que todos os sujeitos possuíssem preparo e aptidão física semelhante. Óbvio né? Não precisa de estudo para isso, mas…

Roberts, no entanto, acabou descobrindo que os músculos treinados dos caratecas pouco fez diferença no resultado do soco. Na verdade, quando visto por câmeras equipadas com rastreamento de movimentos, os socos que tinham a melhor sincronia com os vários picos de aceleração num só movimento complexo foram também os mais poderosos.

E, quando Roberts fez leituras das atividades cerebrais dos participantes do estudo, descobriu-se que a força e coordenação de cada participante estava diretamente relacionada com a microestrutura de substância branca (conjunto de células no cérebro que são responsáveis pelo gerenciamento da comunicação entre as células neurais) na área motora complementar do córtex motor. Qual a importância disso? Bom, estudos sugerem que esta região do cérebro controla a coordenação dos músculos dos diveros membros e partes do corpo e, quanto mais substância branca nesta região do cérebro, mais conexões celulares (tanto em quantidade, quanto em complexidade) são permitidas, o que poderia aumentar a capacidade do lutador em sincronizar os movimentos envolvidos no soco de uma polegada.

Isso nos leva a acreditar que Bruce Lee conseguia esta façanha por ter superdesenvolvido a substância branca do cérebro, especialmente no córtex motor. Mas não pensem que ele já nasceu predisposto a desenvolver mais substância branca por obra do destino e, por consequência, ter mais facilidade para aprimorar o soco. Bruce Lee estimulou a produção de substância branca da mesma forma como desenvolveu seus músculos e técnicas: COM MUITO TREINO.

Apesar de pouco tempo por aqui, Bruce Lee treinou seu corpo praticamente a vida inteira, e mostrou que o cérebro se permite adaptar e até refazer conexões nervosas mesmo depois de formado. O conceito de neuroplasticidade explica que o cérebro é capaz de desenvolver novas conexões para lidar com as novas demandas. O treino aprimora o corpo e o cérebro que, por sua vez, aprimora a nossas habilidades e técnicas que acaba desenvolvendo ainda mais o cérebro.

O lado ruim disso tudo é que a neuroplasticidade do cérebro diminui com a idade e começar a desenvolver a habilidade, fisiologia e biomecânica para dar um soco de uma polegada tarde na vida talvez não dê resultados no mesmo nível daquele de Bruce Lee. Quanto mais cedo começar a treinar, mais chances tem de se desenvolver tal habilidade, mas começar a treinar agora pode dar resultado, basta começar. Um antigo provérbio chinês explica melhor:

“A melhor época para plantar uma árvore foi há 20 anos. O segundo melhor tempo é agora.”

Como dito lá em cima, ter disciplina no treino é o fator essencial para alcançar este nível de excelência. As características genéticas, fisiológicas, mecânicas e sensoriais são resultados de muito treino e Bruce Lee treinava como nínguem.


*Post original: danielestrela.com

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