38 LINHAS

FOTO DANIEL PACIFICO

10:35 da manhã, acordo ao estilo mais “noiado” do que o Martyn McFly no final do “De Volta Para o Futuro”, vestindo jeans e camisa do dia anterior, com os braços enrolados no suspensório, e ao olhar para o calendário espantado fico e digo, caraca já são 38? Parece que ontem mesmo foi 18.

Com a cara esculpida no sono fui para a cozinha, e tomei um susto ao ver minha mãe, que me fez espontaneamente questionar: Uai, que você está fazendo aqui Mãe? E ela, montada na sua imagética inconfundível devolve, eu que te pergunto Daniel, o que você está fazendo aqui?

Eu? Putz… Não sei?! Quando sentei na mesa caiu a ficha de que a vida não tinha seguido uma trajetória retilínea linear, e até foi bom isso acontecer, afinal prefiro as trajetórias curvilíneas, ainda mais se for da “Senhora Tentação” que acabei de conhecer.

Mas engana-se você sobre a existência de um DeLorean, nada disso, aqui nos trópicos a máquina do tempo assina a alcunha de Caveirão, 38 sinistros, mais remendado do que cara de areia mijada depois de fazer a barba, porém, seu maior atributo não era estético e sim de não pipocar, encarando qualquer rolê, haja visto que há um ano atrás estávamos na Lua, que me custou 37 tempos para desembarcar.

No espaço sideral, apreciando a paisagem sinestésica, meti o loco na cabeça e resolvi parti para Vênus, e o tempo que se sucedeu foi me conduzindo para novos embarques e desembarques no destino chamado vida, que de tão irônica, assemelha-se a uma moeda de duas faces, a qual para se ver um lado, perde-se o outro, não cabendo aqui o truque de fazê-la girar, que segundo a crença popular o seu efeito é tão colateral quanto passar por debaixo de uma escada.

Além de novos sinistros, pilotando o Caveirão ganhei todas as cores do sol, da lua, todos os sorrisos e abraços, notas de esperança incorporada em cada música que ouvi, mas toda vez que torcia a chave na ignição sob o tom de despedida para seguir adiante, o combustível que explodia nas câmaras era composto com lágrimas de saudade. Sim, levei 38 anos para descobrir a cor e a dor de sentir saudade de verdade, sentimento este proveniente dos nós que se desfaz transformando-se em laços que se eterniza, imprimindo na alma uma vontade de sempre querer voltar, dando a impressão de parecer uma prisão, mas não, é o contrário. Quando vive-se tal perturbação, ela é o resultado de uma gênese que materializa pra alma um pedaço de liberdade.

Ao fim do verão juntei num saco de entulho todos os pedaços de liberdade que tinha acumulado, e acompanhado pelo som da tabajara do samba, segui com o Caveirão para o presente. Carregando a falsa impressão de finito, foi difícil girar a chave na última viagem, mas não tinha outra opção a não ser ir, pois, tal como o filme, estava deixando desaparecer a minha existência num pedaço de papel fotográfico, impresso com falsas impressões.

Mas, lembram do laço? Então, eles se eternizam, e uma vez que amadurece, tudo vira uma grande farra, pelo menos comigo. E não vou mentir não, sou réu confesso, e já confessando… ahhhh, como eu gosto de uma farra, principalmente se estiver bem acompanhado.

E aqui vamos iniciando mais um capítulo, o de número 38, transmitindo a farra diretamente de Vênus. Pode parecer bagunça, mas não é não, pois o barato aqui é celebrar a vida.

Obrigado Vida, Bem Vindo 38!