CUSPARADA

FOTO DANIEL PACIFICO

Rua da Consolação, 1996,
fim de noite, fria, dura, paulistana,
do trabalho para o cursinho, do cursinho para vida,
queria entrar na USP, economia,
no ponto ônibus, parado estava
quando senti o hálito da cusparada.

Hálito nojento, morno, fétido,
fruto da ignorância travestida de revolta.
O gozo esporrado e consentido,
e mais quente e honesto que a morna e covarde cusparada.
Ao meu redor, nem um lenço, nem atenção, apenas nossa…
Coitado!!!

Demorou bastante até que meu ônibus chegasse,
Lotado, entrei e segui em pé por de 20 anos,
na hora de descer, já amanhecia o dia, a cusparada já tinha secado.
Faminto parei em uma banca e pedi um jornal com pão na chapa e café,
Os rostos eram diferente, mas as noticias as mesmas,
e na seção de tendências a cusparada era hit para o inverno.

O tempo voltou, pude ver de onde veio a cusparada,
um ônibus todo fudido, vindo de lá pra cá, de cá pra lá, sentido centro,
Chico pilotava, José cobrava e Jean discursava,
dentro do curral, uma llama fez o que podia, cuspiu,
e sentindo novamente o hálito morno, nojento é fétido,
passei a transitar por uma tempestade de cusparadas.

“Na selva de pedra eles matam os humilde de mais”,
cuspiam na minha cara…
toda vez que faltavam vagas pra viver,
e sobravam vagas para morrer.
toda vez que faltavam vagas para evoluir,
e sobravam vagas para me alienar.

Me cuspiam quando…

me faltavam olhares convergentes de quem amava,
Quando a policia me enquadrava.
Quando a marmita estava fria.
Quando a rotina me deglutia.

Cuspiam na minha cara,

toda vez que Napoleão comia coxinha, e arrotava mortadela.
Toda vez que na dispensa da escola,
a merenda faltava, e a fome sobrava.
Toda vez que a Globo Rural me falava

Quatro patas é bom, duas patas é ruim.

Cuspiram na minha cara,
em razão da democracia,
em razão do golpe,
em razão da Fé que aliena, e toda vez
que o ônibus passava do ponto que iria descer.

Quando isso acontecia, gritava para o motorista,
“Se for pra homenagear, que seja Homenagem a Troâ”.
Pois acho mais honesto o quente gozo esporrado e consentido,
do que a morna e covarde cusparada.

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