Igrejas Pequenas e o Problema Pastoral

Sim há igrejas grandes e igrejas pequenas, a maioria são igrejas pequenas. Na última semana começamos nosso diálogo falando sobre igrejas pequenas que não crescem. Antes de continuar, leia aqui a primeira parte. Há vários motivos que igrejas pequenas ficam presas em crescimento. Quero abordar 8 motivos dos principais que tenho visto atrapalhar as igrejas pequenas. Hoje falaremos sobre o problema pastoral.

Igrejas Pequenas e o problema com o Pastor

É sempre o pastor o culpado. Sei que você pensou isso! (pode rir, é bom) Calma! Vou explicar melhor… O primeiro problema de que igrejas pequenas ficam estancadas é que o pastor é o “faz tudo”. Não somente isso, mas ele também é a fonte primária de dar cuidado (“cuidado pastoral”). Não estou dizendo que o pastor é o problema, mas a percepção de sua função está errada.

Sou convicto de que se pastores e as igrejas pudessem trabalhar mais a questão do “cuidado pastoral”, creio que as igrejas iriam crescer.

Pastores morrem na Praia

A maioria que sai do seminário, de treinamento pastoral, ou de qualquer outro meio de treinamento para o cargo pastoral (independente se é equipe pastoral, pastor auxiliar, pastor executivo ou pastor sênior), todos sentem que estão cuidando de pessoas. Isso é uma verdade. Porém, quando há a necessidade de que o pastor tenha que fazer todo casamento, todo funeral, regularmente visitar todas as famílias, participar de todas as reuniões e liderar todo estudo bíblico ou grupo, é impossível ele fazer outras coisas. “Mas ele é pago para fazer isso! Quais outras coisas?”

Quais são essas outras coisas? Preparar uma mensagem/sermão. No seminário a média de tempo para preparar uma mensagem expositiva era em torno de 40 horas. Essas 40 horas são: tempo exegese e hermeneutica, pesquisa, contextualização, estruturação, primeiro rascunho, rascunho final. O tempo de oração para essas 40 horas? Alguns colegas multiplicam isso por 3 que daria 120h. Obviamente esses números são abstratos e irreais (considerando que há 168 horas por semana).

De acordo com a LifeWay, nas igrejas de 1–49 pessoas seus pastores gastam em torno de 5 horas preparando sermões. Esse tempo de preparo é devido à realidade de que os pastores são bivocacionados e não trabalham em tempo integral no ministério — principalmente pela razão de que a igreja seja pequena demais para manter uma remuneração. As estatísticas demonstram que os pastores gastam em média de 7–18 horas de preparo. Mandei mensagem para 20 colegas espalhados por SP e o Sul do Brasil e percebo que a média tem sido entre isso.

Além de preparar mensagens, existe algo chamado liderança organizacional. Precisamos compreender que a Igreja é mais do que uma comunidade de fé. Ela é uma organização e dentro dessa organização há o dever de cumprir a grande comissão. Nessa liderança organizacional, além de disseminar a visão e missão da comunidade de fé local de acordo com o contexto demográfico/cultural que ela se encontra, ela deve capacitar outros líderes a fim de não comprometer o futuro. Esse é um aspecto de Mateus 28 e link para Atos que muitas igrejas esquecem (e muitas igrejas ignoram). O livro de Atos representa a continuação do ministério de Cristo por meio dos Apóstolos, e que estende até nós.

O Problema com o Modelo

Portanto, o modelo atual do cuidado pastoral simplesmente não é escalável. Há um oceano de estudos que demonstram que o cuidado em grupos grandes é ineficiente, sendo que é muito melhor mentoria/discipulado/aconselhamento em grupos menores (esticando até 12 pessoas… e isso já é muito!).

A ironia disso é que se você é um bom pastor que ama suas ovelhas, suas ovelhas vão te amar. A igreja vai crescer até chegar 100 ou até 200. Quando chegar nesse volume, as expectativas se tornam um peso. Inevitavelmente o clima tonará em desapontamento. Ficaram tristes que o pastor não foi para aquele “meu” evento ou reunião. O perigo é de desdobrar um pensamento de seletividade por parte do pastor. Se você está lendo esse post, acredito que você entende.

Cuidar de 25 pessoas é possível. Entretanto, cuidar de 200 pessoas não é. Talvez você tenha lido o livro “Proíbido A Entrada De Pessoas Perfeitas” de John Burke. Eu sei que o pastor John Burke visita todos de sua megaigrejas, mas ele é a única exceção que eu conheço (se você ainda não leu, leia. Vai abrir sua mente sobre a relação entre igreja e sociedade).

Quando pastores tentam cuidar de 100 ou até 200, algo acontece. Além do sentimento de exaustão espiritual e físico, há o burnout.

A consequencia disso?

Todos se machucam no processo

O pastor fica frustado pois não consegue acompanhar todos. A igreja fica frustado pela mesma razão. Eventualmente o pastor vai ter burnout ou deixando a igreja, e a igreja diminui de tamanho. Ao chega um novo pastor para trazer sangue novo para a igreja (termo que usamos muito), o ciclo se repete: crescimento, frustação, burnout, saída.

A pior de todas as ironias é que aquilo que você é bom (ser um bom pastor que cuida bem de suas ovelhas) é justamente o que faz deixar a igreja (em alguns casos, abandonar o ministério) quando não há como acompanhar o crescimento.

O outro lado é que há a possibilidade de você “aguentar o tranco”. Se você aguentar, a igreja acaba estancando e toda tentativa de crescimento natural (evangelismo e etc) é frustado. Esse platô é simplesmente porque a igreja não foi estruturada para o crescimento.

Agora que temos um panorama, queria falar sobre duas implicações e como trabalhar de uma maneira diferente dentro da sua igreja.

Complicação Pastoral

Pastores são uma benção, entretanto há um problema sério que existe dentro de muitas igrejas, especificamente igrejas pequenas: agradar a todos. A maioria dos pastores que conheço tem um problema em lidar com conflito e confrontação. Querer não desagradar pessoas é como gasolina que alimenta um conflito dentro do próprio líder! Pessoas querem que você cuide deles, e você odeia desapontar elas. Eu entendo isso… Você acha que se dizer “não” ela vai simplesmente procurar outra igreja, certo?

Chamamos isso de um quadro de dependência emocional (ou melhor, codependencia). Vou dar um exemplo claro que vejo que acontece, e por favor não se sinta ofendido. Em algumas denominações é comum ouvir depois de um sermão em que a maioria da igreja foi no apelo que aquele sermão “foi poderoso”. A maioria dos pastores que eu conheço da Assembleia de Deus (somente para dar exemplo e na minha igreja é a mesma história), quando o apelo é um “fiasco” no domingo, suas segundas-feiras é caótico. Lá no fundo os pastores dependem da igreja para um sentimento de valor. A igreja se torna o salvador funcional do pastor. Aquele sentimento de autovalidação.

No contexto do cuidado pastoral, o pastor precisa sentir que ele é precisado. Temos aqui a codependência.

Complicação Congregacional

Do outro lado, muitas igrejas definem sucesso pastoral baseado na disponibilidade do pastor, quanto ele é agradável e amigável. Se ele está sempre disponível, sempre agradável, e sempre amigo, então ele é um bom pastor.

Para essas igrejas eu tenho algo para dizer: acho que elas deveriam ir ao petshop e comprar um cachorrinho.

O pastor não é um cachorrinho, sempre ali de rabo abandando, sempre agradável e bom companheiro. Onde fomos parar como igreja em pensar que nosso pastor é um filhotinho? Isso não é liderança pastoral e para piorar, acho que talvez nem conhecemos o evangelho.

Se esse padrão fosse verdadeiro, então teríamos que jogar fora a Bíblia. Jesus jamais seria contratado, nem mesmo Paulo, Moisés, Jeremias, Oseias, Tiago, Ezekiel ou tantos outros.

O alvo de liderança é liderar, e não ser “gostado”. Isso não significa que há pretexto para ser bruto, não dominar a carne e abrir mão dos frutos do espírito. Liderança requer que seja feito o que é de melhor, e não o que todos querem. Se estiver em uma situação difícil e está tendo dificuldade nessa área, pergunte para si mesmo “o que um bom líder faria nessa situação”. Acredito que a resposta te surpreenderia.

Se uma igreja quer crescer, ela precisa entender que essas expectativas para seu pastor não é viavél. Não é melhor para igreja, e muito menos ao longo prazo para a saúde de seu pastor. Esse ponto é muito difícil de igreja compreenderem. Isso é difícil em discussões de seminário. Vi de perto os resultados disso. É desastroso.

Quebrando taboos

Como lidar com isso? Como lidar com essa questão pastoral e congregacional?

Tenha coragem! Se você está em papel de liderança, lembre-se: você foi chamado para liderar. Tenha coragem para trazer mudanças para sua igreja. Ore e lembre que é melhor para todos, e principalmente para a sua saúde particular.

Tendo coragem, mude o ponto focal. A melhor maneira de pensar em cuidado pastoral que seja escalável é ensinar pessoas a cuidarem de pessoas em grupos. Grupos não é somente uma questão prático, mas bíblico.

Pensando biblicamente, um dos primeiros lugares (se não for o primeiro) que fala sobre essa questão é Exôdo 18. Jetro confronta Moisés pois Moisés está fazendo tudo sozinho. Jesus trabalhou dessa maneira também. Quando pensamos sobre os seguidores de Jesus, haviam centenas de pessoas, que foi agrupado em setenta, doze, três e um.

O cuidado pastoral não significa necessariamente “ter cuidado do pastor”. Acredito que o cuidado pastoral vem de alguém que realmente irá cuidar, e muitas vezes há pessoas que fazem aconselhamento melhor do que o Pastor. Hoje, faço pouco aconselhamento. Sabe porque? Entendo que há pessoas melhores e mais capacitados do que eu. Exemplo: não aconselho casais. Geralmente aconselho na área de pornografia e vícios em maneira geral por conta do meu histórico. Isso é bom para mim, pois eu compreendo que não depende somente de mim, e é melhor para a minha igreja.

Na maioria dos casos, o motivo do aconselhamento é facilmente cuidado por algum líder da igreja (obviamente, é necessário treinamento de liderança e especificamente para aconselhamento). Raramente o caso seja extremo para uma necessidade externa. Nesses caso é repassado para o pastor da igreja. Em outros casos, é aconselhado buscar ajuda profissional.

Talvez você esteja pensando como começar? Acredito que o primeiro passo é reunir sua liderança e debater isso. Eles precisam compreender que ao longo prazo fica inviável. É importante que sua equipe, e principalmente o seu núcleo dentro de sua equipe de liderança, entendam que com crescimento as funções de liderança mudam.

Novamente digo que isso é difícil, mas aos poucos sua liderança irá compreender. Se você que está lendo isso está em posição de liderança máxima (geralmente pastor sênior, presidente ou pastor presidente), sua equipe precisa entender que se você cuidar de todos, vai sofrer burnout. As estáticas estão em todo lugar, basta querer enxergar.

#Medo…

Ainda está com medo?

Se você é aquele tipo de líder que quer agradar às pessoas, vou te dar uma dica que me deram que mudou a minha vida: supera. Supera a si mesmo. Vai procurar aconselhamento nessa área. Fique de joelhos e peça para Deus te mudar. Faça o que for necessário para superar o medo de desapontar e desagradar as pessoas.

A perspectiva precisa ser que liderança corajosa é igual ser pais corajosos. Pais não fazem o que as crianças querem, elas fazem o que acreditam ser o melhor pelos seus filhos.

Eventualmente, eles vão te agradecer. Quanto ao resto? Vou ser honesto, eles vão para uma igreja que não está alcançando muitas pessoas.

Nota final

Uma nota final é importante. O que estamos falando aqui é basicamente uma questão administrativa. Simplesmente, como administramos nosso tempo e nossa produtividade como pastores ou líderes da igreja. Muitos pastores e líderes são resistentes a mudança achando que estão “moldando a igreja ao modelo do mundo coorporativo”. O que estamos falando aqui é que queremos que a igreja, em quanto instituição, seja organizada e liderada com pessoas competentes e com profissionalismo. Observando o Novo Testamento, acredito que Deus quer que desenvolvemos nossos dons com perfeição. Acredito que Deus quer moldar todos nós ao caráter de Cristo, e quem se beneficia com isso é o Reino.


Obrigado por ler! Escrevo para a geração “Millennial”, que, assim como eu, luta com a fé e sente que algumas coisas precisam ser repensadas. Leia mais postagens aqui: www.danielromagnoli.com

Se puder ❤ este texto! Comente e eu retorno para você em 24hs… se eu não estiver no Snapchat.