Chapter One

Pela primeira vez ele tentou retomar a caneta desde que chegara naquela nova cidade. Tudo era tão diferente: língua, clima, cenário. E, ao mesmo tempo, tão parecido: humanos, problemas, angústias. Qualquer motivação criativa vinha sendo ceifada por uma especie de esgotamento intelectual e emocional que deixava seu cérebro parcialmente adormecido para tarefas que não fossem extremamente objetivas.

O tédio do transporte coletivo era novo. Trinta ou 40 minutos no metrô eram a janela aberta que poderia trazer alguma inspiração de volta. Aquele ecossistema urbanoide formado dentro de uma caixa de lata refrigerada correndo por trilhos subterrâneos oferecia um potencial imaginativo denso, compactando em poucos metros quadrados a diversidade de um mundo inteiro.

Enquanto ele tentava observar discretamente cada uma das figuras do vagão, fingindo não transparecer seu interesse óbvio, nem ser confundido com um maluco obcecado, os dedinhos nervosos da garota ao lado atacavam o aplicativo de mensagens. Era impossível não se distrair imaginando que história ela contava. A conhecida timidez do rapaz não tinha permitido ainda que ele a olhasse diretamente. Até então, sua visão periférica vinha tratando de alimentar sua imaginação com pequenos fragmentos que aos poucos iam construindo um todo desfocado.

Na sua frente, uma garota de olhos azuis e bostas de cobra cruzava olhares envergonhados cada vez que ele tirava os olhos da tela do smartphone e olhava para frente. Uma conexao momentânea criava aquele típico "e se". Mas já era Hewes Street e foi ali que ela ficou.

Com a atenção dissipada pela pelos artistas que faziam do trem um misto de pista de break e pole dancing, ele nem percebeu quando a condutora anunciou a próxima estação. Era sua vez de descer. Até amanhã, ou outro dia qualquer.

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