Reificação e fetiche

Corto caminhos como corto gargantas que falam e pulsam e engolem seco o vômito e a lágrima, a repulsa e o desespero foi o que restou do que se sentia. O cheiro nauseabundo do corpo dilacerado há dias que está na calçada e todos desviam o olhar. Que há de se fazer quando a vida vira coisa? Meu corpo largado na calçada e meus olhos fixos desejam. Meu peito dilacerado de facas e amores bate uma batida por hora e devagar vai desfalecendo, mas meus olhos fixos ainda desejam. Meu peito de sangue e sentimento não pode mais sentir. A luz do sol não aquece, a luz dos monitores sim. A chuva não lava, a cachaça sim. O mar não acalma, o som estridente e constante de buzinas sim. Ó senhor dos esquecidos e mal amados, protegei-nos da clareza e da sobriedade. Ó dor no peito que sinto quando choro, dor no peito que sangra quando choro, lavai-me a alma junto aos meus carrapatos. Amai-vos uns aos outros, ó baratas e ratos. Corto caminhos, não filés mal passados, e o caminho mais rápido é sempre a morte. O caminho mais rápido é sempre a morte. O caminho mais rápido é sempre a morte. Mas a cachaça sempre ajuda a lavar as feridas e seguir em frente. Estou fraco, sou fraco. Sinto fome e do bolso da camisa ouço um grito de desespero. Ou era meu peito? Maldito coração que teima em bater mais forte que consigo suportar. As pernas que passam por mim não sabem dançar como eu. Os sapatos que passam por mim brilham uma arrogância que cega e me faz invisível. Sou super-herói porque tenho super poderes. Eu sou mais invisível que o tempo, mais invisível que a porra do amor, mais invisível que o fedor dessa cidade. É tudo uma grande mentira! Vejo sapatos e pernas passando e passando e passando e como um círculo vivo a mesma cena a cada segundo porque existem 7 pessoas nessa cidade e elas não sabem disso. Sou o número 8 mas elas não sabem disso porque ninguém me vê. Mas eu vejo. Vejo e desejo ser cego como elas, as pessoas. Vejo e desejo sair desse segundo eterno e comer um coração com as mãos e me lambuzar. Vejo e desejo saber como é ter nas mão a vida dos outros. Quero brincar de Deus. Quando eu era criança eu era o Deus dos meus e era justo. Porque teu Deus não pode ser justo comigo também? Que gosto teu coração tem? Quero ter na mão um coração e sentir o peso do amor. Emagreci quando perdi meu coração, emagreci também quando comi lixo e vomitei. Agora que sou invisível acho que nao importa mais minha aparência, mas acho que logo aprendo a voar. E vou voar pr’alguma luz estroboscópica enquanto as buzinas continuam a tocar e meu corpo continua na calçada e meu peito dilacerado e meu cheiro nauseabundo continuam naquele segundo infinito que foi minha vida.