Mercado da Capixaba: patrimônio, tradição e abandono

Com 92 anos de tradição, o Mercado da Capixaba no centro de Vitória tenta resistir ao descaso dos órgãos públicos.

por Daniel Jacobsen

Aberto em 1926 durante a gestão do governador Florentino Avidos, o Mercado da Capixaba na avenida Jerônimo Monteiro viu Vitória crescer, se desenvolver e o esquecer. O local onde já se encontrou de tudo hoje resiste à crise, ao descaso público e à demora de novos projetos.

Seu nome vêm da avenida em que se encontra, que antes se chamava Avenida Capixaba. A história do Mercado se funde às histórias das pessoas que passaram por ele nesses 92 anos. É a história do senhor Maurício Rosa da Silva, baiano de 63 anos, que há 40 anos veio para o Espírito Santo após identificar a carência de um comércio de artesanato em Vitória. Capixaba do coração desde março de 1978, Maurício construiu aqui sua família, seu comércio, sua identidade. Firmou um contrato para estabelecer-se no Mercado da Capixaba numa época em que tudo que se procurava se encontrava no centro da capital Vitória.

Maurício da Silva: “O Mercado sobrevive pela tradição.” / Foto: Daniel Jacobsen

Mas desde que se intensificou a migração de investimentos para a região do Novo Arrebalde, na Praia do Suá, Jardim Camburi, Jardim da Penha e outros bairros, o comércio do centro viu-se enfraquecido, esquecido. Aliado a isso, os municípios vizinhos Vila Velha, Serra e Cariacica, com o desenvolvimento de seus próprios comércios tiraram a necessidade de se deslocar para a antes tão popular área central do município de Vitória.

Maurício conta que nas épocas de alta chegava a trazer um caminhão de mercadorias para serem vendidas no período de férias, mas que com o enfraquecimento do centro isso acabou. “Quando tudo ficava no centro, o movimento era melhor. Hoje todos os bairros e cidades tem seus próprios comércios. Acham tudo lá”, conta. Hoje em dia as pessoas que frequentam o Mercado da Capixaba são os moradores e quem trabalha próximo. Os turistas movimentam o comércio nas épocas de temporada. O público é variado, de todas as idades e rendas. “Os adultos trazem os filhos para conhecer”, afirma Maurício. Para o comerciante, mais pessoas poderiam se interessar em visitar o Mercado se houvesse um investimento em propaganda. “As pessoas precisam ser convidadas a estar aqui”, conta. Antonio Arruda, 40, não frequenta regularmente o espaço mas destaca a necessidade de investimento no local: “Me parece que é sempre a mesma coisa, já há muitos anos. Faltam investimentos. É um espaço interessante, mas poderia ser melhor. A cidade merece isso”, aponta o musicoterapeuta e funcionário público.

Cartazes e faixas demonstram preocupação dos moradores do centro em relação ao Mercado da Capixaba. Condições da fachada denunciam estado de conservação do prédio histórico. / Fotos: Daniel Jacobsen.

Apesar de toda história, o Mercado da Capixaba enfrenta dificuldades. O prédio é velho e faltam cuidados. Além do visual prejudicado, a construção da década de 20 corre risco de desabamento, segundo laudo da Defesa Civil. Uma reforma emergencial precisa ser feita antes que um ponto de memória da cidade se perca. Após muitas manifestações a favor da preservação do Mercado, somadas ao risco constatado de desabamento, têm-se para o ano que vem finalmente uma reforma programada.

Atualmente, o comércio do senhor Maurício vende produtos de 20 a 25 artesãos, em sistema consignado. Todos já estão sendo avisados que terão que retirar seus produtos para o encerramento das atividades para reforma. Uma das fornecedoras é Amélia de Souza Araújo, que conta que fornece produtos ao mercado já há muito tempo. Para ela, o Mercado é muito importante para a cidade, pois além de manter viva a história, atrai turistas e movimenta o comércio.

A Prefeitura de Vitória pretendia reformar o Mercado da Capixaba com o dinheiro da venda do Saldanha da Gama, conforme anunciado no começo do ano de 2018, mas a venda não aconteceu e atrasou os planos de transformar o prédio num centro gastronômico e cultural de referência para a cidade. Agora, querendo ou não, tendo vendido ou não o Saldanha, a Prefeitura não tem escolha a não ser reformar o prédio de estilo neoclássico e eclético, tombado pelo Conselho Estadual de Cultura em 1983, que está com corrosão no telhado metálico, uma parede com risco de colapso por umidade e rachaduras. Os comerciantes que mantém lojas no prédio já foram advertidos da interdição, e alguns tentam autorização para funcionar até depois do Natal, como seu Maurício.

O projeto de restauração da Prefeitura de Vitória propõe que através de licitação uma concessão seja dada a uma empresa privada para que assuma a administração do prédio, que deverá servir como centro gastronômico, espaço para lojas e eventos culturais. No projeto, duas antigas portas laterais há um tempo fechadas serão reabertas, retomando o projeto original do arquiteto tcheco Joseph Pitilick. Na área central haverá um palco para apresentações artísticas, e a rua Araribóia será fechada para o tráfego de veículos e servirá como extensão do Mercado. Quatorze lojas funcionarão no prédio, e serão de responsabilidade da empresa que administrar o local. O custo estimado para a revitalização do prédio histórico é de R$400.000,00 segundo a Secretaria de Desenvolvimento Urbano de Vitória (SUPEC), responsável pelo projeto arquitetônico da reforma, custo apurado via Lei de Acesso à Informação.

O senhor Maurício diz estar satisfeito com a reforma do prédio que parece que enfim será realizada, mas a concessão das lojas o preocupa. Conforme comunicado em reunião entre comerciantes do Mercado e os órgãos públicos, as lojas serão “leiloadas”: “Quem pagar mais fica com a loja, não importa quem está aqui há 40 anos”, diz emocionado. Pelo visto o projeto de preservação histórica leva em conta apenas a identidade arquitetônica do prédio, e esquece das pessoas que fizeram de sua própria história a história do centro de Vitória. “Quando você pega alguém que está há 40 anos e descarta, como que vai ficar? Como vai ser a vida do senhor com 63 que está a 40 anos aí e descarta assim? Não pode descartar como se fosse lixo”, falou com lágrimas nos olhos. Com emoção, Maurício conta que provavelmente irá fechar o comércio de artesanatos após tantos anos trabalhando no mercado.

Toda essa situação de interdição de emergência poderia ter sido evitada com investimentos na época correta. Após o incêndio que ocorreu no prédio em 2002 e destruiu grande parte da construção histórica, inclusive a Secretaria Municipal de Cultura que funcionava no segundo andar, nada ou muito pouco foi feito. Sem investimento, o outrora importante centro de comércio atingiu o nível crítico.

O medo da “gourmetização” após a reforma preocupa os frequentadores do Mercado. Maurício destaca a importância do Mercado como valor histórico, cultural e popular do centro de Vitória, valores esses que não podem se perder após a revitalização do espaço. Para ele, o Mercado da Capixaba tem que ser para todos, independentemente da faixa de renda. “Que ofereça um prato que um trabalhador que ganhe 1 salário possa comer. Moqueca de 200 reais o trabalhador não pode comer. Coisa pública tem que ser assim”, reforça Maurício.

Por fim, o comerciante destaca que figuras importantes já passaram pelo Mercado: políticos, artistas que vinham se apresentar no Teatro Carlos Gomes, jornalistas em busca de panelas de barro, mas para ele, pessoas de renome não significam tanto quanto o capixaba cotidiano, que vê na história do Mercado a sua própria história, pessoas como ele:

“Valorizo mais um senhor como o que passou aqui hoje e disse ‘Eu vivi essa história, que época boa’. Esse é o momento que mais me toca. Gosto da história das pessoas, da gente”, conclui emocionado.