[Artigo] Os relacionamentos na era dos “Cinquenta Tons de Cinza”: os contratos de expectativa

Sucesso editorial da última década, a obra da escritora norte-americana E. L. James, “Cinquenta Tons de Cinza”, apresenta uma possibilidade de relacionamento um pouco diferente do que seria de se esperar de uma história de romance. O jovem Christian Grey, possuidor de tantas características com as quais só é permitido aos reles mortais sonhar possuir, se relaciona com a jovem, bonita e “inofensiva” Anastasia Steele, uma universitária “gente como a gente”, embora um tanto quanto estereotipada.

Este texto não pretende analisar a relação homem x mulher, o relacionamento BDSM, ou outros pontos já tão debatidos sobre a obra. O que mais importa nessa análise, no entanto, é outro ponto de destaque da história do livro: o desejo de que os papéis na relação estejam tão bem definidos, a ponto da construção de um contrato. Aos não conhecedores da obra, sim, um contrato. Um documento que dizia os direitos e deveres do “Dominador” e os direitos e deveres da “Submissa”. Sim, “dominador” e “submissa”. À essa relação onde se definem papéis e expectativas em relação ao outro, chamo aqui de relacionamento da era dos Cinquenta Tons de Cinza.

Quando saímos, porém, do campo da ficção, nos deparamos com pessoas normais que andam nas ruas, dirigem seus carros e passeiam com seus cachorros. Em idas e vindas, eventualmente, essas pessoas podem se aproximar. Dessa aproximação resulta um relacionamento (que aqui não está sendo tratado como sinônimo de relacionamento romântico sério, mas sim como qualquer relação entre pessoas). Assim, duas pessoas aceitam construir algo. Mas a modernidade é capaz de criar laços tão frágeis, que se torna impossível captar e transmitir ao outro uma confiança que permita o fluir da relação. É normal na modernidade que um certo retorno seja aguardado do outro. Essa assinatura de contrato é socialmente construída e, herança dos processos históricos e influenciada pelos padrões da modernidade, se consolida.

É dessa forma que se criam os relacionamentos onde se espera do outro mais do que se pretende oferecer ao outro. E quando o outro não corresponde à essas expectativas, assinadas em contrato de relação (mesmo que não seja em um contrato concreto e oficial), tem-se a finalização. A ruptura, a quebra do contrato de expectativas, resulta na ruptura da relação. Quando o outro não corresponde às expectativas, nós o deixamos em prol da busca por alguém que corresponda.

É, portanto, necessário compreender que essa cobrança é apenas o reflexo da modernidade que nós vivemos. É uma época rápida. Somos cobrados desde cedo. Geração fast-food. Geração miojo. Tudo pronto em 03 minutos. O que demora não é desejado. Não se insiste no que é difícil. O que quebra é descartado, afinal as lojas vendem outros. Vivemos a geração do descartável. É por isso que os relacionamentos Cinquenta Tons de Cinza, os contratos de expectativa, se enquadram tão bem com esta era. Se o contrato não é atendido, se as expectativas não obtêm retorno, descarta-se. É essa fragilidade das relações que cria na sociedade a superficialidade da humanidade moderna. Não se tem uma preocupação com o outro, mas se exige uma preocupação e um atendimento por parte do outro. Isso acontece em namoros, casamentos, amizades e todas as outras formas de relação construídas.

Pessoas mais velhas dizem com frequência que em suas épocas de juventude, se consertava o relacionamento, e não se descartava. Adequando o palavreado, poderíamos dizer que se modifica o contrato, se adequam os termos para que a relação dê certo. Quem sabe um dia nossos relacionamentos possam ser mais livres. Sem expectativas, sem apego. Apenas relacionamentos que, mesmo remendados e costurados, possam permanecer e sobreviver acima da camada fina da modernidade.


Nota do autor: Este texto não tem como objetivo fazer uma crítica negativa da obra “Cinquenta Tons de Cinza”, de E. L. James. O livro, como obra de ficção, serve aqui como exemplo por exprimir tão bem um dos aspectos das relações modernas.


Daniel Rossmann Jacobsen é formado em Liderança Comunitária e em Educação Social, graduando de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo na Universidade Federal do Espírito Santo, e blogueiro.