A mundialização do capital sob a perspectiva do documentário “Capitalismo: Uma História de Amor”

Banner do documentário (imagem retirada do Google)

O documentário “Capitalismo: Uma História de Amor” (2009), dirigido por Michael Moore, tem como ponto de partida a crise das hipotecas subprime em 2007, nos Estados Unidos. O colapso do mercado financeiro levou à maior depressão econômica desde a crise de 1929 e obrigou o Banco Central dos EUA (Federal Reserve) a injetar 700 bilhões de dólares na economia americana, além de baixar as taxas de juros. Salvar Wall Street era a única maneira de recuperar a estabilidade e a previsibilidade necessárias para as engrenagens do capitalismo voltarem a funcionar.

No filme, as feridas do capitalismo são expostas. Na definição de Moore, trata-se de “um sistema de dar e tomar, principalmente tomar”, dentro do contexto dos despejos de milhões de americanos das casas hipotecadas na esteira da bolha imobiliária. O cineasta condena o capitalismo pelo fato de o sistema mostrar-se incapaz de garantir emprego, assistência médica, moradia e educação para a maioria da população do país mais rico do mundo. Em contrapartida, o resgate do governo permitiu que as empresas transnacionais continuassem a operar à sua maneira, promovendo demissões em massa e bonificando generosamente seus executivos de alto escalão.

Voltando algumas páginas da história, é importante contextualizar a origem da crise. Com o crash da Bolsa, em 1929, iniciou-se um período de economia com o capital regulamentado, que impunha limites às instituições financeiras. O presidente norte-americano Franklin Roosevelt — que é exaltado por Moore no documentário — foi quem promulgou a lei Glass-Steagall, em 1933, iniciando esta fase de amarras. Porém, na década de 1980, com Ronald Reagan nos EUA e Margaret Thatcher no Reino Unido, o mercado financeiro foi desregulamentado por completo, ação que resultou no crescimento exponencial do capital fictício, sob a premissa de autorregulação do mercado.

Este processo é muito bem definido pelo economista francês François Chesnais como a “mundialização do capital”. Além da desregulamentação, Chesnais destaca que se fortalecem “os novos atores ligados ao capital portador de juros e ao capital fictício (fundos de investimento e de pensão e seguradoras)”. Em meio a este processo, o trabalhador acaba sendo forçado a reinvestir seus ganhos no sistema que o explora, porque precisa de crédito para ter poder de compra e acaba sujeito a taxas de juros altíssimas; precisa pagar planos de saúde, porque a saúde pública não dá conta de atender a todos; precisa pagar seguros, porque a segurança não está garantida; e precisa de previdência privada para complementar a aposentadoria. Ou seja, o ônus do estado mínimo do neoliberalismo recai, claro, sobre a classe trabalhadora.

Alguns destes atores do capital citados por Chesnais aparecem em “Capitalismo: Uma História de Amor”. Goldman Sachs, Citibank, GM, Bank of America, entre outras empresas. No campo político e econômico, são citados Reagan, George W. Bush, Alan Greenspan. A crítica mais perspicaz de Moore acontece na cena em que ele vai a Wall Street e “isola” prédios de bancos com faixas que delimitam cena de crime. O crime, em um cenário mais amplo, é o enriquecimento às custas do trabalhador. No recorte do filme, são as hipotecas subprime.

Portanto, estamos de volta à bolha imobiliária americana. Foi o crédito bancário a juros elevadíssimos concedido a pessoas com rendas insuficientes para pagar que provocou a crise. O governo americano socorreu os bancos, mas nem todo mundo se salvou: Lehman Brothers e Bear Stearns faliram, além de diversas instituições financeiras envolvidas na cadeia de negociações dos títulos das dívidas e derivativos.

Capitalismo selvagem

Imagem retirada do Google

O fato dos bancos terem sido salvos pelo governo e o povo ter sofrido as piores consequências mostra que o poder da finança é implacável e está acima da própria democracia. Em uma passagem do documentário, Moore mostra um memorando do Citibank, enviado em 2006 aos seus clientes ricos. O documento fala em plutocracia, que caracteriza uma sociedade que depende do capital dos muitos ricos para crescer economicamente. E, nesta sociedade, o consumidor médio é totalmente desprezado pelo mercado especulativo. A plutocracia mira o enriquecimento do 1% do topo, que àquela altura já possuía mais riqueza que 95% do restante.

Exemplos não faltam a Moore para mostrar o quão cruel pode ser o capitalismo: além das cenas de despejos de americanos que tiveram as casas hipotecadas, ele revela como grandes empresas recebem pagamentos de seguro com a morte de seus funcionários e conta histórias de pilotos de avião que recebem salários tão baixos que necessitam de auxílio até para alimentação.

Na visão do cineasta, o capitalismo é insaciável e chegou a um estágio em que amarras e regulações econômicas já não são capazes de frear a acumulação de riqueza nas mãos da elite. O sonho americano de prosperidade para todos, a ideia de meritocracia em uma sociedade que recompensa aqueles que trabalham duro, enfim, ficaram no passado. Um padre entrevistado no filme, diz: “O capitalismo é mau, você não pode regular o mal. Você tem que eliminá-lo”. Não foi à toa que Moore inseriu essa entrevista no documentário, afinal, ele próprio é radical em sua visão anticapitalista.

A proposição de Moore, feita em tom provocativo e com pitadas de humor, pode ser levada a um grau de compreensão mais aprofundado se for posta em análise ao lado de obras de sociólogos contemporâneos, como o alemão Wolfgang Streeck. Em “Como vai acabar o capitalismo”, de 2014, o autor contextualiza o “desmantelamento crônico” do sistema, que vem se deteriorando desde a década de 1970, com o fim do ciclo de exceção de crise capitalista conhecido como os anos dourados, e chega ao estado crítico na crise de 2008.

Streeck aponta três tendências da crise do capitalismo: declínio da taxa de crescimento dos países ricos, aumento do endividamento nos principais países capitalistas e recrudescimento da desigualdade de renda e de riqueza. Para ilustrar, vale observar um recente estudo do FMI (“Hollowing Out: The Channels of Income Polarization in the United States”), que aponta que a renda nos Estados Unidos passa por crescente polarização — ou seja, a participação dos indivíduos de renda média caiu de 58% da população, em 1970, para 47%, em 2014. No entanto, os grandes acumuladores de capital continuam engordando os seus cofres: entre 1975 e 2012, 47% do crescimento total da renda antes de impostos nos EUA foi para o 1% mais rico (“Inequality: The gap between rich and poor”).

O tempo de emergência da finança

Imagem retirada do Google

O capitalismo do século XXI é caracterizado pela alavancagem de capital fictício em ritmo acelerado, que acelera também as crises e que coloca, portanto, a economia em constante instabilidade. A tecnologia alçou a especulação a uma velocidade superior à da produção; o tempo da finança permite um geração de lucro ainda mais alta, porém tem como efeito colateral a incapacidade de absorver todos os investimentos reais. Daí podem surgir bolhas como a de 2008, que extrapolam o que podemos chamar de economia real. Os prejuízos, entretanto, são concretos e permeiam a sociedade de várias maneiras, como veremos adiante.

O tempo da finança é uma das marcas mais profundas do capitalismo atual. O ritmo acelerado da tecnologia e do capital coloca a sociedade em um tempo de emergência que empurra tudo para uma rápida obsolescência. Os efeitos são consideráveis — um deles é o “fantasma da inutilidade”, termo utilizado pelo sociólogo e historiador americano Richard Sennett no livro “A Cultura do Novo Capitalismo”. O autor afirma que a capacitação profissional e o uso de sistemas de avaliação meritocráticos sobrepujaram a experiência, ou seja, para ser competitivo no mercado de trabalho, o indivíduo deve buscar cada vez mais capacitações, de preferência multidisciplinares, mas em campos de conhecimento úteis ao capital. Aqueles que não se adequam a essa realidade, devem temer a inutilidade.

No documentário de Moore, vemos de perto uma outra questão, a da indústria farmacêutica. O cineasta mostra que, após a 2ª Guerra Mundial, os EUA viveram uma fase de hegemonia, período em que a classe média prosperou e manteve ótimo padrão de vida, apesar dos altos impostos. Saúde, educação, emprego, poder de compra e aposentadoria estavam garantidos. Com Reagan e a desregulamentação do mercado financeiro, a bonança americana ganhou fôlego, mas por diversos fatores internos — como a redução de operários em indústrias, fim dos sindicatos e congelamento de salários — e externos — a recuperação da economia dos países europeus e o consequente aumento da concorrência — os EUA iniciaram, em meados dos anos 1980, um declínio que culminou em crescimento do desemprego e piora das condições de saúde da população, com intensificação dos casos de depressão e suicídios. Moore ressalta que, diante destes problemas, os capitalistas fizeram da necessidade de consumo de medicamentos uma gigantesca indústria farmacêutica. Essa indústria, além de viciar pessoas em remédios visando unicamente o lucro, como foi o caso dos analgésicos opioides nos anos 1990, elevou os custos dos planos de saúde.

Outro autor que trata da velocidade na sociedade capitalista é o urbanista e pensador francês Paul Virilio, que se debruça sobre os impactos em política, economia e mídia. Tendo a velocidade como objeto (Dromologia), Virilio explica como a evolução tecnológica vem desconectando o tempo-espaço e o mundo físico do ciberespaço. Essa fricção de dimensões, segundo o autor, vem afetando a economia (as transações digitais e os algoritmos possibilitam a hegemonia do mercado especulativo, muito mais veloz que a produção e o comércio) e a política, mais precisamente a democracia (a velocidade das transações globais suplanta o tempo da política, tornando o Estado um mero coadjuvante).

Capitalismo agora… e depois?

Michael Moore conclui “Capitalismo: Uma História de Amor” com uma certeza: os trabalhadores sempre podem se mobilizar e fazer valer as suas vozes e o seu voto, ao bom e velho estilo democrático. O cineasta é sincero sobre seu desejo de ver o capitalismo dando lugar a algo melhor, mas não deixa claro como isso poderia ser feito e nem o que viria depois; faltou expor alternativas para dar sustentação mais firme ao argumento. Ele afirma que o caminho é a democracia. Mas será que a democracia sozinha é suficiente para mudar os rumos? Os autores Steven Levitsky e Daniel Ziblatt explicam em “Como as Democracias Morrem” que o modelo democrático atual vive um momento de instabilidade com a eleição de políticos com inclinações autoritárias — vide a eleição de Donald Trump nos EUA e a de Jair Bolsonaro aqui no Brasil, dois políticos conservadores nos costumes e liberais na economia, dois nomes que recebem o selo de aprovação do mercado de capitais.

Jair Bolsonaro se espelha na administração Trump e busca aproximação com os EUA

Apesar dos sistemas de votação serem distintos, ambos chegaram ao poder pela escolha da maioria. A rigor, portanto, a sugestão de Moore para combater o capitalismo já falhou, embora valha o seu esforço de colocar o tema em discussão de uma forma palatável para as massas. Não parece haver um caminho confiável que nos dissocie do sistema capitalista tão cedo, mas os termos do casamento com o sistema precisam ser revistos, até para que se evite um colapso financeiro, democrático ou ambiental. Já é hora de tentar fazer o capitalismo funcionar de um modo menos danoso à maioria e ao planeta.