Debate político com extremistas requer bons argumentos e jogo de cintura

Bater de frente no mesmo “tom” definitivamente não é uma boa ideia.

A discussão política virou jogo de futebol, ou você apoia um lado ou o outro. Esse oito ou oitenta impossibilita o diálogo com bastante gente”. Foi assim que um amigo definiu a política brasileira polarizada dos dias atuais e o debate que ela gera. E eu não poderia concordar mais.

Com o afastamento de Dilma da presidência, a rivalidade entre petistas e os que querem uma mudança definitiva no Executivo brasileiro tende a continuar aumentando. Os traumas do impeachment — não há como negar que o fato dele estar em pauta já denuncia nossos graves problemas político-econômicos — devem impactar os já acirrados ânimos dos brasileiros.

A postura radical que os extremistas políticos adotam impede a troca de informações, que é essencial para a formação de opiniões mais lúcidas. Mestres na arte de falar, mas nem tanto na de ouvir, proferem discursos de ódio sem hesitar. Vide a conversa amena da roda de amigos que tem perdido espaço para discussões carregadas de ofensas pessoais. Vide os textões do Facebook e as longas pelejas travadas nos comentários. Não costumo expor minhas opiniões nas redes, mas um amigo que sempre se posiciona outro dia comentou que encontrou um colega de Facebook e ele falou: “olha aí o cara que posta um monte de merda”, num tom de deboche. As pessoas se sentem no direito de tentar intimidar o outro, absurdo o ponto a que chegamos.

Tive a oportunidade de conversar com um psicoterapeuta sobre os fatores psicológicos que podem levar as pessoas a atacarem quem pensa diferente delas. Do nosso papo, saiu a conclusão (dele, com a qual concordo) de que a agressividade é uma maneira de mascarar a impotência. Quando uma pessoa tem incertezas sobre seus argumentos, sente-se vulnerável e agride. Esse comportamento hostil não é sem razão, há um clima de insegurança na sociedade porque os líderes políticos que temos não são confiáveis. Diante dessa classe sem credibilidade alguma, uns ficam apáticos, outros agressivos.

Os menos sensatos precisam da aprovação do outro, baseiam-se em uma leitura quase irracional porque misturam política com emoção e têm dificuldade de ouvir críticas. Já as pessoas com perfil reflexivo aceitam melhor as opiniões contrárias, são mais racionais.

Como lidar com os extremistas?

Evite as provocações e tente sempre argumentar com dados concretos e muito jogo de cintura.

Iniciar um papinho sobre política com os colegas ou rolar a linha do tempo no Facebook é o suficiente para topar com alguém usando apelidos pejorativos como “coxinha”, “reaça”, “petralha” ou “esquerda caviar” para provocar àqueles que se opõem às suas ideias. Quantas histórias você já ouviu de pessoas que conversavam numa boa até surgir o assunto política? Quando não acontece com você mesmo.

Uma boa alternativa para evitar discussões dessa natureza é ignorar as provocações. Quando damos continuidade, inflamamos o brigão que está do outro lado, reforçamos o seu comportamento agressivo. A verdade é que quem argumenta com violência não está disposto a ouvir. Há limites na comunicação com radicais. Você pode argumentar, citar fontes, tentar ser delicado com as palavras — tudo será em vão. A paixão do extremista por sua causa o faz negar dados e fatos. O indivíduo que defende seu líder como se ele fosse um deus, não vai buscar um acordo só porque você ou outra pessoa propõe uma discussão a favor da justiça e da legalidade.

“Salvador da pátria”

Nenhum estadista vai resolver sozinho os problemas estruturais da política brasileira.

Acreditar no “salvador da pátria” parece ser um bloqueio à racionalidade do brasileiro em diferentes instâncias. No futebol, por exemplo, até a derrota vexatória para a Alemanha na Copa do Mundo de 2016, existia ainda aquela crença de que o Brasil poderia vencer a todos num lampejo de genialidade de Neymar, mesmo ser ter o melhor conjunto, mesmo com todas as deficiências estruturais que existem no futebol nacional. A Seleção acabou perdendo para um adversário que representa exatamente o oposto — planejamento e estrutura fizeram do time alemão o melhor do mundo.

Com a política ocorre o mesmo. Parte da população ainda acredita que um político-herói pode resolver todas as mazelas do País. É difícil lidar com aqueles que creem religiosamente em um político ou um partido. Mas a gente refletir é uma questão de amadurecimento emocional. Às vezes, mudar é crescer, e quem se mantém fixo em uma mesma ideia não percebe isso.

Sem aqui julgá-los, vejamos o tipo de idolatria que existe com figuras como Lula e Bolsonaro. Eles integram partidos que não poderiam ter filosofias mais antagônicas, ainda assim, alguns de seus eleitores em potencial, ou admiradores, os veem como os “salvadores da pátria” e ignoram que o Brasil precisa superar a crise com um forte trabalho de combate a corrupção e reorganização econômica, pra dizer o mínimo.

Acho que o debate atingirá um bom nível de maturidade com a conscientização dos agentes sociais, que passa pela educação de qualidade. Ainda vivemos a fase do endeusamento. Nas escolas o currículo é pobre em sociologia e psicologia, e precisa haver mais incentivo ao debate. Mas, ironicamente, estarmos discutindo a falta de projetos e as deficiências do sistema é um avanço. E isso não dá pra negar.