A CORUJA E O CACHORRO!

Eu vi uma coruja hoje. E depois outra. Olhos amarelos e asas acinzentadas fotografando seu redor; a coruja. Tarde recém-chuvosa de cinco ângulos rotacionais na praça hemisfério sul. Desabrochar primaveril. Instinto farejador está na mira. Por onde pisam as quatro patas desajeitadas e o rabo paspalhão, seguem as radioativas flechas que saem da íris da coruja.
A sutil espera paciente se oculta da vítima, que já não é muito esperta no ambiente hostil e que, portanto, não percebe a coruja.
O cachorro e seu santo guerreiro, um bicho que anda em duas patas e veste algumas roupas e tem a capacidade de mover seu polegar opositor e, por isso, segura um par de livros junto à extremidade do membro superior esquerdo.
Curiosamente, aquela figurativa super exposição cavalheiresca dos bailes próprios do século dezesseis não se vale das plataformas exuberantes da exploração de uma raça sobre a outra; neste caso, a amizade entre o cão e o humano prevalece, a fidelidade brota das zoo-almas e aí tudo pode.
Para a coruja, de íris amarelas e membros superiores largos como deltas acinzentados, tudo é incompreensível. A hostilidade reflexivamente grávida de instinto imanta-se de super bonder energético. Pula, de um salto para o ar, e, numa rasante, vai veloz em direção ao cão e lhe bica a barriga. A coruja voa embora quando o transeunte com a coleira percebe e faz menção de lhe dar uma raquetada editorial. O livro passa longe e a coruja foge de susto.
Os dois seguem, um bobo, como se nada houvesse, o outro preocupado e assustado.
Segue um lapso de tempo. Outro lapso de tempo. A coruja pula de outro salto e voa rasante para bicar a barriga do cachorro, mas seu santo guerreiro já ficou esperto.
A coruja é barrada no baile pelo braço com o polegar opositor que segura o livro. Mas ela não desiste. Numa terceira tentativa de aproximar-se, é recebida por outra raquetada editorial. A orelha do livro atinge a ponta do bico e a coruja sai voando em retirada. Contudo, ao invés de pousar numa pedra, levanta vôo e desaparece por entre as nuvens, paira sobre os caminhos de pedra e barro do cachorro e seu fiel escudeiro, qual satélite desapercebido na órbita, que tudo capta.
Passando por entre os longínquos edifícios urbanos, por cima das arvores, pairando e planando e batendo asas por minutos e minutos, a coruja verifica que sua missão de atazanar o cachorro restou infrutífera, já que o mesmo entrou no carro.
- não foi dessa vez, dona coruja; pegue o seu banquinho e saia de mansinho.
A coruja volta à pedra e fica à espreita de algo inusitado. Fisga-lhe um zunido indecifrável, que se avoluma cada vez mais. Um barulho constante. Está aumentando. Vem mais forte, mais constante, mais insuportável. Parece barulho de um motor de…uma máquina amarela e vermelha de aeromodelo cruza o céu em velocidade lancinante. A coruja não se atreve a sair do lugar. Mais distante, um menino de calça cinza e camiseta preta e boné vermelho tem um controle remoto com antena bem comprida na mão. Mas a coruja não o vê, sequer o pressente.

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