CURIOSIDADE MATA. OU NÃO!

João e Vitor são colegas de trabalho numa empresa localizada na cidade de São Paulo. Na verdade, não nos interessa saber se a empresa fica em São Paulo ou não. Poderia ficar em Piracicaba, Pirassununga ou Pirapora Mirim. Ou até em Rondonópolis. O que também não importa é colocar em cheque a natureza jurídica da empresa, para o que ela se presta, qual sua função perante a sociedade. Poderia ser um escritório de advocacia, uma empresa de importação de brinquedos, uma imobiliária, um colégio ou um teatro. Tanto faz.
O que realmente importa é dizer que João e Vitor são colegas de trabalho. Realmente, ‘colegas de trabalho’ seria uma expressão bastante adequada e oportuna para a ocasião. Isso porque, não se pode considerar que João e Vitor sejam nada além de colegas de trabalho, apesar do muito bom desempenho de ambas as partes para o convívio social nas instalações e imediações da empresa.
Sempre que se cruzam, João cumprimenta Vitor com um aceno ou um aperto de mão ou uma interjeição verbal onomatopeica qualquer ou um abraço efusivo, a depender do tempo em que não se vêm ou da medida da necessidade que tem Vitor de falar com João e vice e versa.
São raras as ocasiões em que Vitor precisa falar com João e vice e versa. Uma vez ou outra, somente, a ocasião do encontro se traduz na possibilidade de se falar de assuntos corporativos ou relacionados às suas respectivas funções na empresa, sejam elas quais sejam, não importa. O fato é que o trabalho do um não impede ou impossibilita a evolução do trabalho do outro, nem vice e versa e nem versa e vice, muito pelo contrário. Metaforicamente falando, se um fosse o carteiro, o outro seria o jardineiro. E vice e versa.
Porém, ainda que, nesse caso, a necessidade não faça o monge, é certo dizer que tanto João quanto Vitor, sempre que se encontram, se embrenham num exercício às vezes dialético, às vezes enigmático, mas que, via de regra, carrega sempre um caráter social e de crescimento intelectual mútuo.
João e Vitor adoram dizer algo um para o outro, seja uma piadinha besta, seja alguma fofoca inocente sobre alguém, seja falar de futebol ou motocicleta ou álbum de figurinhas da Copa do Mundo, enfim. Ora o assunto é urgente, ora displicente, ora engraçado, ora sério, ora apressado, ora de longe, ora de perto, ora sozinhos, ora no corredor lotado de gente. Mas frequente. Todos os dias, várias vezes, na chegada, durante o expediente, no intervalo, no almoço, no café. Só não têm a audácia e a coragem de fazê-lo na sala do chefe, obviamente. Não são estúpidos. Quer dizer, não são, assim, tão estúpidos. Vejamos.
Certo dia, João encontrou Vitor e lhe disse:
- Te encontrei, finalmente. Preciso te dizer um negócio, muito importante.
- Claro, diga.
- É realmente muito importante.
- …
- Esqueci.
João realmente precisava falar algo para Vitor. O procurara por toda a empresa durante não menos que exatos quarenta e sete minutos, um pouco mais, um pouco menos, mas não o encontrara. Também, pudera. Vitor estava tendo problemas intestinais no banheiro. Esteve incomunicável por trinta e nove minutos e oito segundos, mais os quase oito minutos que estava ocupado comendo um espetinho de frango do boteco da esquina da rua da empresa, atravessando-a.
Quando Vitor, um pouco pálido, andando qual um Zumbi pelo corredor da empresa em busca de um café bem forte que o colocasse pronto e restabelecido para o trabalho, encontrou João um tanto desesperado vindo em sua direção dizendo que tinha algo muito importante para dizer mas havia esquecido, realmente, não entendeu nem soube como lidar com aquela situação. Com a concentração ainda em seu intestino delgado e reto sensíveis, não sabia se o fato do colega de trabalho esquecer o que ia dizer lhe causava um certo desconforto, ou comoção ou risada. De fato, risada. Aquela cena era muito engraçada. Infelizmente não pode externar seu contentamento e alegre satisfação por dois motivos muito simples. O primeiro, por causa de seu ainda presente mal estar, que lhe deixava pálido e sem disposição. Mas o segundo e principal motivo, era porque João realmente estava constrangido com seu esquecimento. Aquilo nunca lhe ocorrera. Sua frustração, porém, durou apenas três segundos, um número mágico segundo alguns especialistas, após os quais explodiu numa gargalhada expondo sua ridícula situação. Vitor, apesar de estar literalmente ‘travando o cu’, com o perdão da palavra, fazendo um esforço hercúleo para não soltar um punzinho liquefeito, também deu uma risada tímida, mas guardando consigo para a eternidade seu regozijo momentâneo, causado por aquela situação bizarra e hilária, protagonizada pela patuscada de seu colega de trabalho João.
A partir deste dia, criou-se entre os dois uma cumplicidade bastante inusitada. Todas as vezes que se cruzavam no corredor, um dizia ao outro que tinha algo importante para dizer, mas que havia esquecido, que não conseguia se lembrar de jeito nenhum, e ambos se deixavam cair numa gostosa gargalhada, um tanto disfarçada para não vislumbrar uma possibilidade de reprimenda por parte dos colegas, ou advertência por parte da gerência, ou até mesmo uma demissão por justa causa. Afinal, nunca se sabe até onde o recalque corporativo é capaz de chegar. Um divertimento descompromissado, no horário e local de trabalho, muitas vezes pode ser visto com descaso e desgosto e tratado como falta de vontade e corpo mole, como dizem por aí.. Mas não entremos neste mérito.
O que realmente deve aqui ser colocado é que a cumplicidade entre João e Vitor crescia cada vez mais. E cada vez menos se importavam com a opinião alheia e consequências de seus atos.
Certa vez, João estava do lado de fora da sala da manutenção da refrigeração, simplesmente conferindo uma papelada que teria que levar para o gerente assinar, quando Vitor o viu e andou em sua direção. Aquela disposição vislumbraria certamente mais uma daquelas brincadeiras que os dois se permitiam. Não seria diferente desta vez, assim como essas circunstancias se repetiriam por muitas outras vezes.
- Ô João, ainda bem que eu te encontrei, cara. Tenho um negócio pra te dizer, é meio urgente.
- Claro Vitor, pode dizer.
- Tem a ver com aquela nossa conversa de antes, que foi interrompida, e eu não consegui te falar sobre a decorrência um pouco grave daquela situação…
- Estou aqui, Vitor, pode dizer.
- Então, eu diria, mas esqueci.
E os dois riram até não poder mais.
Noutra ocasião, Vitor estava junto à maquina do café, que, verdade seja dita, não é lá aquela Brastemp, muito menos aquela Nespresso, mas enfim, é um café tomável, até a terceira xicara, após a qual a chance de se desenvolver uma gastrite ulcerosa é enorme, mas isso não vem ao caso. Bem, Vitor estava se servindo de um cafezinho no meio da tarde quando João chegou bem pertinho e falou sussurrando em seu ouvido, disfarçando para que ninguém percebesse de quem se tratava seu interlocutor;
- Vitor, sou eu, João, não olha pra trás, continua aí pegando seu café.
Vitor continuou concentrado no café enquanto João acompanhava o movimento do corredor, ora assoviando ora conferindo a unha mal lixada.
- Preciso te dizer um negócio muito importante. É muito sério. Ninguém pode saber que eu te falei. NÃO OLHA PRA TRÁS. É o seguinte…
Quando ia dizer, o gerente para assuntos alheatórios da empresa passou e se colocou bem entre os dois para se servir de um café. Definitivamente, aquela localização não era a melhor para troca de segredos. Tanto a máquina do café, disputadíssima, quanto o corredor onde estava localizada, pelo fato de ser um local de passagem de pessoas, era um lugar muito pouco propício à troca de confidências. João teve que interromper a conversa com Vitor, ao menos pelo tempo em que o gerente para assuntos alheatórios permanecia lá, junto à maquina do café. Após alguns instantes, quando este se dirigiu para sua sala, com o café na mão, Vitor se virou para João e perguntou o que era tão sério que teria que ser dito ali, naquele exato momento. João, com uma cara de poucos amigos, imprimindo ao diálogo o tom da seriedade que a ocasião pedia, disse, ainda sussurrando:
- Esqueci.
E as gargalhadas saíram espontâneas e em alto volume, causando um certo constrangimento. Ainda que fossem baixas as risadas, suas expressões corporais denunciavam um regozijo tremendo e uma alegria e satisfação de viver com prazer naquele ambiente hostil, na contramão da esmagadora maioria dos funcionários da empresa.
Após a consolidação absoluta da estrutura lógica da piada dialogal, em que a sequência de frases já estava preestabelecida e, com pouca variação, o diálogo se apresentava sempre da mesma maneira, foi possível verificar, gradativamente, uma leve adaptação.
No inicio, que durou umas duas semanas, pouco mais, pouco menos, a clímax da brincadeira consistia no fato do esquecimento. Ou seja, João e Vitor sentiam-se plenos quando um ou outro dizia ter esquecido algo que deveria ter dito.
Com o passar do tempo, as variações foram surgindo e acabaram por diluir a estrutura lógica até então padronizada. Vitor e João já se sentiam mais livres para transitar por outros aspectos possíveis da brincadeira.
Certa ocasião, João chegou atrasado, passou pelo corredor correndo, chegou ao relógio de ponto, furou a fila, bateu seu cartão de ponto, e foi se dirigindo ao seu cubículo, quer dizer, sala. Antes mesmo de passar pela máquina do café, que estava em manutenção, pela terceira vez naquela semana, Vitor o surpreendeu:
- João, meu chapa, tá atrasado, hein?
- Pois é. Tá na boa?
- Beleza. Precisava te falar um negócio.
- Cara, tô muito atrasado. Quer vir comigo? Vai falando aí.
- Não, não. É um assunto meio sério. Depois eu passo lá na sua sala.
- Beleza. Passa lá então.
E João já estava chegando ao seu cubículo, quer dizer, sala, enquanto Vitor já dava meia volta e passava novamente ao lado da máquina do café, que no momento aglomerava alguns desavisados em busca dum coffe break, o que seria impossível, óbvio, posto que a máquina estava em manutenção, pela terceira vez naquela semana.
E algum tempo se passou sem que João cruzasse com Vitor e vice e versa. E mais outro tempo se foi, talvez algumas horas, sem que Vitor esbarrasse com João e versa e vice. Finalmente, no final do expediente, quando João e Vitor finalmente se encontraram, um falou pro outro:
- Cara, ainda bem que te encontrei. Preciso te dizer um negócio muito importante.
- Putz, cara, justo agora? Tô de saída. Pode ser outra hora?
- Não, tudo bem. A gente se fala outra hora. Quem sabe amanhã.
- Beleza, então. Até amanhã.
E estabeleceu-se um novo padrão na brincadeira. Já não valia mais saber que se havia esquecido de dizer algo que deveria ter sido dito. Agora, a bola da vez era saber que se tinha algo a ser dito, mas o momento propício sempre vinha num futuro próximo e incerto. A partir de então, toda vez que João encontrava Vitor e vice e versa, a conversa seguia por caminhos em que a problemática era sempre adiada, nunca podia ser solucionada no momento presente.
No dia seguinte, João chegou, passou pelo corredor e reparou que a máquina do café ainda estava em manutenção, o que lhe deixou resignado e ao mesmo tempo chateado, já que sua vontade de tomar um cafezinho não era nada pequena. Quando avistou Vitor, chamou-o de maneira que todos pudessem escutar. Não pode evitar. Vitor estava longe e o único jeito era gritar em alto e bom som. Claro que Vitor olhou, mas também olharam outras nove pessoas que estavam passando por lá ou simplesmente paradas conversando umas com as outras. Vitor olhou e acenou para João, um pouco tímido e constrangido com o fato de virar o centro das atenções de um milissegundo para outro. João também ficou abalado com a fama repentina, ainda mais com a expectativa sobre si criada de que falaria algo para Vitor. No entanto, João perdera totalmente a vontade de dar prosseguimento à brincadeira. Mas, ainda que uma repentina depressão e sentimento de vergonha tenha se abatido tanto sobre João como sobre Vitor, é certo que quando os dois se olharam, a ânsia lúdica tomou conta de seus espíritos, retomaram o brilho de seus olhos e Vitor respondeu, em alto e bom som, para todos ouvirem:
- E aí, João, beleza?
- Beleza, meu.
- Fala aí.
- Então, tenho um negócio pra te falar. Mas depois eu falo. É meio que particular.
Nesse exato momento, Vitor teve um que inexplicável, algo sobre o distanciamento de sua percepção e consciência sobre si mesmo, de maneira que se pudesse enxergar fora de si, numa relação quântica extracorpórea. Enfim, o que se quer dizer é que Vitor, apesar do constrangimento que lhe bateu de pronto, veio uma vontade de troçar com todos aqueles que julgavam ter algo importante para ouvir de João.
- Ah, então beleza. Depois você passa lá e me fala. Agora fiquei curioso.
Claro, também, que João passou pelo mesmo processo de evolução espiritual que Vitor, e também sentiu uma enorme satisfação ao troçar com aqueles curiosos que queriam saber o que João tinha de muito importante para dizer.
E os dois deixaram o corredor, com resquícios da cena que acabaram de interpretar, diante dos olhares curiosos de nove funcionários e de mais outros dezesseis que chegaram após o início do espetáculo, com o intuito de alimentar a curiosidade de saber o que estava acontecendo.
A partir daí, tornou-se evidente a terceiros que João e Vitor guardavam entre si um segredo. O que seria? A curiosidade ganhou tamanha dimensão a ponto de João e Vitor meio que serem evitados nas passagens do corredor ou no café ou no banheiro ou onde quer que fosse. Estavam sendo perseguidos pelo silêncio. Todos os ignoravam. Até mesmo os que não haviam presenciado o último episódio pessoalmente já sabiam do que se tratava e apoiavam os que tiveram o desprazer de registrar a cena no momento exato do calor da hora. Criou-se, até, um banco de apostas cujo objetivo envolvia o segredo ou segredos que João e Vitor mantinham entre si. O que seria? Teria a ver com o trabalho? Ou com aquelas pessoas? Alguma traição? Promoção ou demissão velada? Alguma medida arbitraria de algum chefe em benefício da própria Companhia? O que seria? A curiosidade estava minando o bom humor das pessoas. Não se podia mais trabalhar. Só se falava de João e Vitor e seu segredinho. A situação estava ficando insuportável.
Por outro lado, João e Vitor se divertiam com a situação toda. Mesmo sabendo que todos evitavam travar contato consigo, continuavam com a brincadeira, agora não mais para si, mas ampliando a área de visão, fazendo com que o maior número de pessoas visse.
- E aí, João, beleza?
- Beleza, Vitor, e você?
- Beleza. Vem cá, preciso te falar um negócio, bem importante.
- Beleza, passa lá depois e a gente conversa. Tenho um negócio pra te dizer também.
- Falou.
- Falou.
E partiam cada um para um canto do corredor, deixando para trás, com um leve sorriso de canto de boca, uma névoa de ciúme e inveja e curiosidade acima de tudo.
O clima de insatisfação era geral. Todos queriam saber os segredos de João e Vitor e chegou-se a ouvir de alguém que pagaria uma contribuição a outrem se outrem trouxesse a alguém alguma informação que desse uma indicação sobre a verdade dos segredos entre os rapazes.
Certo dia, João e Vitor foram anunciados à sala do gerente da Companhia, bem no final do expediente. Quando entraram, estavam lá o diretor para assuntos gerais, o diretor para assuntos estéticos, o diretor para assuntos alheatórios e o leva e trás oficial da Companhia, o porta recados, como dizem por aí.
O gerente da Companhia apontou para duas cadeiras velhas, indicando onde João e Vitor deveriam se sentar. João e Vitor não podiam imaginar o que eles tinham para dizer. Quer dizer, pressentiam que talvez pudesse ter alguma coisa a ver com aquela brincadeira que vinham fazendo e que culminou naquele circo, fazendo despertar uma leve curiosidade nas pessoas. E o que era mais engraçado, é que não havia segredo nenhum. E ninguém, exceto Vitor e João, sabia disso.
Assim que os rapazes se sentaram, o gerente da Companhia se levantou, encheu o peito de ar e, numa pose de pompa absoluta, começou dizendo algo sobre a Companhia, como sua função social era absolutamente indispensável, mas que ela dependia do bom andamento interno, e isso queria dizer que os funcionários tinham que estar alinhados com a sua filosofia e uma série de outras porções de blá blá blá. João e Vitor já estavam se perdendo no fundo de seu inconsciente e, como se estivessem mergulhando numa espécie de torpor onírico, embarcaram numa realidade paralela, mas que guardava ao fundo, em volume bem baixo, aquela lenga lenga toda proferida pelo gerente da Companhia. Até que, de repente, ouviu-se uma sola de sapato sendo batida sobre a mesa, o que fez os rapazes despertarem imediatamente, com palpitações e taquicardias.
- Porque vocês tem que prestar atenção quando eu estou falando com vocês, porque eu sou o gerente e vocês tem que cumprir as obrigações que eu estabeleço que devam ser cumpridas e porque vocês são meros funcionários secundários da Companhia e porque se eu quiser eu posso demiti-los por justa causa e porque…
Nesse momento, João olhou para Vitor e levantou a mão, esperando sua vez de se colocar. Afinal, não poderia se tratar de um interrogatório medieval. Ele teria, claro, que ter o direito de se defender. Mas o gerente da Companhia ainda tinha outros planos antes de deixar os rapazes falarem, e passou a palavra para o diretor de assuntos gerais, que falou, talvez com alguma mudança ligeira na ordem de algumas palavras ou usando expressões correlatas, exatamente a mesma coisa que o gerente da Companhia, porque vocês são funcionários e tem que obedecer aos seus superiores e etc. Não bastasse, o diretor de assuntos gerais passou a palavra para o diretor de assuntos estéticos, que por sua vez passou a palavra para o diretor de assuntos alheatórios, que por sua vez, mudou em nada o discurso, porque vocês devem obediência e são funcionários que tem chefes e os chefes somos nós e portanto vocês tem que nos obedecer e blá blá blá e lenga lenga e etc etc etc.
Retomou a palavra o gerente da Companhia, que decretou a punição a ser cumprida pelos condenados João e Vitor.
- Eu, na qualidade de gerente da Companhia, instituído do dever de zelar pela manutenção das estruturas e cuidar do bem estar de meus funcionários, intimo todos a comparecer ao auditório, em tal dia e tal horário, momento no qual vocês deverão pronunciar-se diante da Companhia toda, dizendo, um por um, todos os segredos que vocês guardam entre si, bem como formalizar um pedido de desculpas sinceras.
João olhou para Vitor e Vitor olhou para João. Aquela situação era muito inusitada. O engodo precisava terminar. Não podiam mais deixar aqueles pobres coitados acharem algo ou terem alguma ideia sobre o que nem existia. Absurdo. Era preciso dar um fim naquilo tudo. Então, com o consentimento de Vitor, João tomou a palavra. Já vislumbrava a necessidade de ser bem cauteloso na lida com aqueles cidadãos. Afinal, todos eles eram seu chefe, de onde se atribui a famosa máxima corporativa, na qual se diz que existem muitos caciques para poucos índios. Ou quem pode manda e quem tem juízo obedece. Teria, portanto, que tomar cuidado.
- Boa tarde, senhor gerente da Companhia, como vai, senhor diretor de assuntos gerais, satisfação em vê-lo, senhor diretor de assuntos estéticos, olá, senhor diretor de assuntos alheatórios. Desejo-lhes uma boa tarde e que os senhores e suas digníssimas esposas e filhos e filhas estejam passando bem, no melhor dos conformes e blá blá blá e lenga lenga e etc etc.
Mas ainda não havia chegado a hora de falar.
Novamente, o gerente da Companhia colocou-se em posição de superioridade, mandou o menino ficar quieto com um gesto imperativo e retomou a palavra dizendo:
- Eu ainda não terminei. Por favor, não nos interrompa. Era ele quem estava falando, embora insistisse em falar em nome de todos os presentes na sala, exceto, óbvio, João e Vitor.
Nós, da diretoria da Companhia, não somos mais importantes que os demais funcionários. Não temos o direito nem o merecimento de saber do vosso segredinho antes que todos. Vocês serão autorizados a revelar o que tem a dizer, em primeira mão, para todos ao mesmo tempo, no auditório, em tal data e tal horário.
João olhou pra Vitor. Vitor, por sua vez, retribuiu o olhar a João, que era de total surpresa e estupefação. Em primeiro lugar, não conseguiam entender aquele discursinho babaca que acabavam de ouvir, de que não eram mais importantes que os demais funcionários e lenga lenga e blá blá blá e etc. Nem uma mosca à beira da morte e da lata de lixo acreditaria. Ridículo, absurdo, bizarro. Por outro lado, tinham sido convocados a revelar para toda a Companhia seu segredo. E já que não puderam dar fim ao engodo naquele momento, não por culpa deles, até que tentaram, mas por culpa daqueles diretores imbecis que exigiram um anúncio oficial e extenso a todos, então que assim fosse. Resolveram armar o circo. Inventaram a maior cena.
Quando chegou o dia tal na hora tal, todos já estavam no auditório. Até a moça da limpeza tinha sido convocada. Se uma bomba explodisse lá dentro naquele momento, a empresa deixaria de existir de um momento para outro. Enfim, mas isso não vem ao caso. O fato é que todos aguardavam ansiosamente, num misto de raiva e ciúme com inveja e curiosidade corrosiva da pior espécie. Poucas unhas sobreviveram àquela manhã. O dia do grande anúncio havia chegado. No palco do auditório foi montada uma estrutura de microfonagem, para que todos pudessem ouvir os discursos confortavelmente. Quem abriu o evento foi o diretor para assuntos gerais da Companhia. E ele assim começou, desatando o nó da gravata:
- Porque nós somos um time de remadores que tem o objetivo de chegar em lugar certo e determinado no menor tempo possível. E todos nós devemos remar. Uns remam mais, outros remam menos. Poucos determinam o ritmo da remada, mas todos remam. Todos devem remar. E na mesma direção. E quando há algum remador fora do ritmo, isso atrapalha. Ou quando resolve remar no sentido inverso, o transtorno é imensurável. E todos os remadores devem ter plena consciência que são os verdadeiros responsáveis pelo sucesso da jangada, que é essa Companhia. E depois de mais blá blá blá e lenga lenga, o diretor para assuntos gerais da Companhia passou a palavra para o diretor para assuntos estéticos, que se colocou em frente ao microfone, desatou o nó da gravata, tirou os óculos, deu um longo e prolongado bocejo, passou a mão pelo rosto como se estivesse tirando o cansaço de sua fisionomia, e disse:
- O meu desejo é que tudo isso se resolva da melhor maneira possível, sem causar qualquer tipo de dano à imagem da empresa.
Apesar de causar um mal estar, principalmente em João e Vitor, que aguardavam sua entrada triunfante ao lado do palco, o evento deveria continuar. Tomou a palavra o diretor para assuntos alheatórios, que foi bastante breve e, dizendo que não tinha nada a acrescentar, passou o microfone ao próximo da fila, que era o gerente da Companhia. Este tomou posição, já estava sem gravata, desabotoou a camisa, tirou um lenço de pano xadrez do bolso e enxugou a testa ensopada de suor, tirou um papel dobrado do outro bolso, tirou um óculos de leitura do bolso da camisa, um daqueles de grau pré fabricado que se compra na farmácia, equilibrou-o sobre o nariz nada pequeno e horizontalmente protuberante, tirou um ou dois pigarros da garganta, desculpou-se pelo inconveniente, teria bebido um copo d´água se o tivesse disponível ao alcance da mão, e começou a ler:
- João Carneiro da Cunha Sobral, RG de número tal, CPF não sei qual, funcionário da Companhia há meia dúzia de décimos terceiros. Vitor Ribeiro de Andrade Piraquê, RG não sei o que, CPF vai lá saber, funcionário da Companhia há uma dúzia de férias remuneradas. Por gentileza, dirijam-se ao palco.
Sob olhares atravessados, alguns irados, outros apenas interessados, mas todos curiosos, João e Vitor se encaminharam para a frente do microfone.
- Boa noite a todos, falou Vitor. Sinto um prazer imenso em estar aqui convosco, compartilhando alguns breves momentos de sabedoria e prosperidade e iluminação. Encerrou seus dizeres, com o olhar catatônico para o microfone, mas por dentro sentia um gozo violento. Estava, na sua mais profunda entranha, lá no intestino, gargalhando até não poder mais.
- Com licença, tomou a palavra João, roubando da mão de Vitor o microfone. Meu colega está variando na lógica discursiva. Creio que deve ser o stress de estar falando para tantas pessoas, e tão importantes e bem sucedidas. Sua gargalhada intestinal estava no nível máximo. Aos mais observadores, que não estavam representados naquele auditório nem sequer pelo mais perspicaz daqueles pobres funcionários, poder-se-ia perceber aflorar sensivelmente no canto dos lábios uma pequena deformação latitudinal que se poderia considerar, nos meios científicos, como sorriso. Mas, claro, esse fato passou completamente batido à compreensão visual de todos.
E continuou o discurso.
- Meu colega e eu estamos profundamente resignados com o comportamento cruel de ordem pejorativa, num claro intento de romper com a ordem e bom relacionamento dos funcionários da Companhia, da qual somos imensamente gratos e orgulhosos de fazer parte, e blá blá blá.
João continuou dizendo que se arrependiam amargamente de ter incitado a curiosidade em todos, esse sentimento mesquinho que só corrói o espírito humano, e que se sentia mal por ter causado tamanho desconforto. Vitor tomou a palavra:
- É o seguinte. Meu colega aqui tá tentando tapar o sol com a peneira, botar panos quentes, mas a verdade é que nós temos vários segredos. E vários deles dizem respeito a vários de vocês.
Ouviu-se um buchicho bastante severo e um considerável aumento no nível de animosidade no auditório. João olhou seriamente para Vitor, meio que perguntando aonde o mesmo queria chegar. Vitor não deu bola e continou:
- Nós contamos segredos uns aos outros, de todo o tipo de ordem, sobre pessoas — e falando em pessoas, levou seu braço em passagem com a mão apontada para toda a plateia — o que fazem, com quem andam, o que falam o que comem, quem comem, e por aí vai. Esse gesto — no sentido brechtiano do termo -, que poderia ser considerado perverso no contexto apresentado, foi recebido com muita agressividade. Se pedras houvessem, garanto que seriam atiradas. João tentou acalmar os ânimos.
- A verdade sobre os segredos…
E olhou para Vitor, como a dizer que ia falar a real, e Vitor aprovou com um sorriso e um gesto de ombros, dando a entender que já havia se divertido bastante às custas daqueles babacas.
- A verdade sobre os segredos é que…
E os funcionários na plateia já estavam bufando e espumando e babando de curiosidade, como papparazzis com suas câmeras atrás de uma notícia bombástico, tal qual uns urubus no galho seco da árvore esperando algum cliente acabar de morrer.
- A verdade sobre os segredos é que… segredos não há.
Silêncio! Silêncio total! O silêncio sepulcral, onde podia se ouvir o bater de asas da joaninha, foi abismal. Mas precedeu um balbúrdia catastrófica também abismal, em igual medida, mas sentido oposto, muito mais expansiva, qual uma bomba atômica.
Começou a confusão. Por qual motivo, no entanto, é que será difícil detectar. Isso porque pode ter-se chegado à conclusão de que João e Vitor persistiram em manter os segredos e usá-los em momento oportuno em prejuízo do autor. Ou então que os mesmos haviam fabricado um grande teatro de mau gosto e levado todos ao engano, fazendo-os passar por grandes idiotas.
A confusão instalou-se generalizadamente. Era soco pra um lado, pontapé pra outro, voadora, golpe de kung fu, mata leão, e até enforcamento, do qual Vitor conseguiu escapar por falta de força física do agressor. A vontade de viver de Vitor era muito maior que a do agressor para fazer morrer. Enfim… Por poucos minutos, aquele auditório virou um campo de guerra, todos contra todos, até que, como num passe de mágicas, ninguém sabe como, a calmaria se fez. As pessoas, com as roupas rasgadas e peles manchadas com hematomas, e supercílios abertos, e lábios sangrando, e etc etc etc, começaram a dispersar, indo cada um prum canto, pra sua sala, pro corredor tomar um café na máquina do café que nem sei mais se estava em manutenção ou não, enfim.
A curiosidade, meus amigos, é onde mora o diabo. O ser humano é capaz de atos atrozes para satisfazer sua curiosidade, seu desejo de saber das coisas, da vida alheia, enfim. É uma loucura. Daí, o título deste conto. A curiosidade mata. Ou não!

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