MERTHIOLATE!

Rafaela é uma menina de treze anos, oito meses, sete dias e algumas horas de idade. Mora com sua família, exemplo daquelas famílias felizes sem muitos problemas de convivência. Aparentemente, Rafaela leva uma vida normal e bastante saudável. Todos os dias de manhã, sua mãe a leva para a escola, juntamente com a sua irmã menor, de idade nove anos e não lembro quantos meses, dias ou horas. Ficam todas as manhãs aprendendo lições comuns, ministradas por professores e professoras comuns, para alunos e alunas comuns. Rafaela é uma aluna comum. Quando o relógio da igreja rente ao muro da escola bate o meio-dia, todos os estudantes daquela escola vão para suas casas. No caso de Rafaela, e de sua irmã, claro está, o pai as resgata na esquina próxima à lanchonete do seu Joaquim, que já foi repreendido pelo mesmo por dar uma empadinha de frango para cada uma perto da hora do almoço. “Onde já se viu, seu Joaquim, alimentar as meninas logo antes do almoço? Elas não terão fome para almoçar depois”, esbravejava o pai com o pobre português que apenas tentava ser gentil e agradável. Após o almoço, enquanto a irmã mais nova fica em casa tendo aula particular de piano, Rafaela segue contente e feliz para a sua aula semanal de balé, apesar de achar que a professora é muito rígida com ela em alguns momentos. Após três horas seguidas de pliês, terceiras e quartas posições, andeores e outras coisas mais, a menina segue para a aula de natação. Sem falar nas aulas de inglês, francês e caligrafia, já que Rafaela, por ser canhota, não tem a letra muito bonita. Tudo isso para demonstrar que a vida de Rafaela, bem como a de sua irmã, é simples, rotineira, cotidiana e plena de atividades que quaisquer garotas de sua idade exercem. Recentemente, Rafaela passou a ter pequenos comportamentos estranhos. Nada muito preocupante, mas manias que inquietavam particularmente seus pais, que começaram a notar na menina uma mudança tênue de conduta.
Das manias que o pai e a mãe consideravam mais tranqüilas, podemos cita-las aos montes: Rafaela só pisava nos azulejos cinzas quando andava na rua; o primeiro degrau de qualquer escadaria deveria ser pisado necessariamente com o pé esquerdo e o último degrau com o pé direito; deixava a comida esfriar no prato, alegando não gostar de comida quente, e por essas vias seguem outras bizarrices de Rafaela, que se forem ditas toda elas não haverá páginas suficientes para registra-las. Por tantas que fossem as manias ‘saudáveis’ da menina, não eram essas que deixavam seus pais de cabelo em pé, nem tampouco as que lhes tiravam o sono. Rafaela, aos poucos, vinha adquirindo manias que colocavam em risco a sua própria saúde. Ao mesmo tempo, como tinha consciência de que isso era bastante errado e perigoso, procurava ao máximo esconde-las de seus pais. Rafaela, por exemplo, começou a atravessar a rua fora da faixa de pedestre, correndo, justamente no momento em que o carro vinha chegando numa velocidade rápida.
Certa vez, Rafaela se machucou quando fazia aula de educação física na escola. Ao chegar em casa, pediu à mãe que lhe fizesse um curativo. A mãe, prestativa, como não poderia deixar de ser, lavou a ferida com água e sabão e passou merthiolate. A menina, no exato momento em que aquela substância tóxica, mas ao mesmo tempo de um cheiro extremamente inebriante, tocou a sua pele, teve uma sensação indescritível de um prazer que nunca sentira antes. Apesar de tentar não demonstrar qualquer tipo de satisfação à mãe, Rafaela sentiu seu sangue esquentar, suas veias pulsarem com mais intensidade e seu coração bater mais forte. Tomou banho, colocou o pijama. Jantaram. Rafaela mal tocou na comida, com a idéia fixa naquele líquido penetrante que lhe trazia lembranças próximas muito intensas e até excitantes, embora não soubesse nomear tal sensação, por muito jovem que era. Assim que todos foram dormir, Rafaela, com todas as luzes apagadas, foi tateando até o banheiro, onde a mãe havia guardado o tubo de merthiolate. Com o máximo silêncio que conseguia fazer, foi devagarzinho e aos poucos abrindo o armário com medo que alguém acordasse. Tirou o tubo de merthiolate, fechou o armário e, quando abriu a tampa do tubo e aquele cheiro lhe penetrou as narinas, passando por suas vias respiratórias e batendo no cérebro de maneira radical, todas aquelas sensações de prazer e excitamento lhe vieram à tona, deixando de lado a tensão que o perigo daquela aventura causava. Rafaela passou um pouco de merthiolate no dedo, o que lhe proporcionou uma leve sensação de prazer. Não satisfeita, jogou um pouco do líquido em seu braço. Aquilo foi incrível para a garota que até então, na sua vida de prazeres, tinha vivido pouco. Rafaela começou a lambuzar o corpo inteiro com o merthiolate, indo do braço para o outro braço, e aí para as pernas, barriga, peito e rosto até que, num voluptuoso impulso, bebeu todo o conteúdo do tubo. O merthiolate desceu rasgando a garganta da menina. Sentiu uma ânsia de vômito quase que instantânea. Tossiu por vezes e vezes seguidas. Quase desmaiou, tão forte foi a sensação de tontura e desequilíbrio. Aquela experiência tinha sido maravilhosa e sofrida ao mesmo tempo. Quando voltou a si, de joelhos no chão e apoiada na privada, lembrou o que tinha feito e se repreendeu, antecipando a bronca ímpar que levaria dos pais, caso descobrissem. E descobriram. No dia seguinte, sua mãe estava com o tubo vazio de merthiolate numa mão e com o cinto de couro do pai na outra. “Como você explica isso, Rafaela? Da noite pro dia, o merthiolate evaporou?”, a mãe dizia com os olhos cheios de sangue e fúria. A menina, diante da presença colérica da mãe, confessou. Apanhou de cinto, ficou uma semana inteira de castigo, sem aulas de balé nem de natação. Não tinha exata consciência do grau de insanidade da atitude que tinha praticado, nem da extensão da preocupação que atingia seus pais. Rafaela, ingênua que era, não percebeu que deixara pistas. Aquele tubo vazio no chão do banheiro, merthiolate por toda parte. Pensou que a irmã, tendo visto o que acontecera, teria delatado à mãe o ocorrido. Subiu-lhe à cabeça uma vontade de vingar-se da coitada, que era inocente. No decorrer do dia seguinte à sua saída do castigo, foi à farmácia e comprou um tubo de merthiolate. Guardou-o bem guardado dentro da mochila. O dia passou tranqüilamente, com aulas de balé e natação. Chegou em casa, tomou banho, pôs o pijama, jantou com toda a família à mesa e foram dormir. No meio da noite, acordou. Foi até a sua mochila, pegou o merthiolate, abriu a tampa, ficou cheirando por vários minutos, passou um pouco na testa e no peito, deu dois ou três pequenos goles e, o restante do líquido, despejou na privada. Voltou para o quarto, silenciosamente. Levantou, lentamente, o cobertor que cobria a irmã e jogou o tubo vazio dentro, perto da mão pura e ausente de calos da pobrezinha, que dormia o sono dos justos na cama ao lado. Depois, calma e serena como em poucos momentos, Rafaela voltou para a sua própria cama e dormiu, esperando pelo dia seguinte, quando a mãe viria acorda-las. Queria ver como a irmã ia sair dessa enrascada.

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