NUM LAGO DE PATOS E CORVOS!

Um lago. Sujo. Fedido. Feio.
Numa margem, patos. Noutra, corvos.
Havemos de denominar este ponto de vista, o do autor, o dos patos. Portanto, por conseqüência, havemos de denominar o lado dos corvos de o outro lado.
Feitas as elucidações preliminares, passamos a relatar o que houve naquele literalmente fatídico dia — ao menos é o que se deve ou pode deduzir da presença de abutres — no qual a comunidade patolina assistiu ao falecimento precoce do patinho que mal tinha largado as fraldas.
Todos guardavam o corpo do patinho em cima de um tronco de madeira dentro de uma pequena barraca improvisada, com uma caixa d´água e até um pequeno barco na borda do lago. Todos os patos, em volta do dito cujo, entoavam canções fúnebres ancestrais, que datavam de mil setecentos e oitenta e nove, quando um ‘french-duck’ como era conhecido, morreu decapitado junto com seu dono, o rei da França.
A revolução deixou a comunidade de patos perplexa. Todos os patos de Paris vieram aos muros da Bastilha e criaram La marseillaise patolina.
Essa toada chegou a São Paulo quando, confundidos com galos e galinhas saudáveis fugidas da gripe espanhola, na década de trinta, patos franceses, os famosos french-duck, mas também patos ingleses, alemães, holandeses, italianos, gregos e, principalmente, espanhóis, vieram nas primeiras imigrações e desembarcaram no porto de Santos.
E desde lá as canções fúnebres fazem parte do cotidiano funerário dos patos.
Fato é que, em dois mil e nove, cerca de trinta patos cantavam La marsellaise patolina em versão tupiniquim.
Quando já estavam finalizando o rito, se ouviu um piado corvalino. E de repente mais um piado corvalino. E os piados corvalinos, do nada, começaram a surgir mais intensos e avolumados.
Da janela da cabana, via-se a margem oposta repleta de corvos famintos em busca de um pedaço de carne fresca; o precoce patinho que mal tinha largado as fraldas.
Os corvos, ou abutres, ou urubus, se amontoavam cada vez mais e sobrevoavam a cabana dos patos com uma pachorra inacreditável. Os patos não poderiam vacilar. Qualquer bobeada seria o fim.
Uma das máximas da toada patolina diz respeito exatamente a isso: nunca deixe de amar e proteger seus mortos assim como aos vivos.
A batalha seria dura.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.