PRETO NO BRANCO.

Esse pequeno conjunto de palavras dispostas nessa exata ordem sempre suscitou uma série de possibilidades interpretativas, nos mais variados sentidos. Quando uma pessoa tem absoluta certeza de algo, ela diz: — isso é preto no branco. E quando um retirante nordestino come feijão com arroz, é preto no branco. Claro, se supormos que o feijão está por cima do arroz e também se considerarmos que o feijão é preto e não carioquinha ou até mesmo feijão branco. Agora, se o retirante comer feijão e arroz com farinha, temos aí uma variação sobre o mesmo tema: branco no preto no branco. Essa variação também virá à tona numa outra possibilidade que logo mais se mostrará. Por ora, trata-se de uma variação da ordem dos gêneros alimentícios e proteicos. A farinhna, realmente, traz um sabor todo especial ao arroz e feijão, e se vier com uma pimentinha, então…hummm! Mas o que se denota da coloquialidade popular — é preto no branco — é uma translucida transparência transfigurativa da transcedentalidade transferencial. Ora, fugindo da categoria alimentícia destinada à verbalidade coloquial, podemos dizer que a expressão preto no branco também pode explicitar uma relação amorosa. O preto no branco. Uma relação interracial, homossexual. Se considerarmos, por outro lado, a ausência do caráter gramatical que configura o grau do sujeito, a relação pode ser heterossexual também. Isso porque quando se fala preto, entende-se preto ou preta. Por sua vez, quando mencionarmos branco, entender-se-á branco ou branca. Dessa variação terminológica, sem alguma preocupação com a conjugação gramatical, temos várias opções de relações amorosas. Preto com branco, preto com branca, preta com branco, preta com branca e vice e versa. Uma mistureba daquelas. Lembram-se que falamos, lá atrás, de uma possibilidade de variação: branco no preto no branco? É para os casos de relação a três, ou mais conhecido no francês como menage a trois. E porque não dizer preta com preto ou branca com branco e vice e versa? Mas aí fugiríamos radicalmente do tema desta crônica. Estamos aqui a falar sobre as variações da expressão preto no branco e de nada mais. Outra possibilidade de variação da expressão é exatamente daquela que viemos falar aqui. Quando um preto sai na porrada com um branco e eles se atracam e saem rolando pelo chão, um batendo no outro e, no momento da fotografia, o preto está pressionando o branco contra o chão, asfixiando-o? É preto no branco. Estou falando nisso porque li, dias desses, no jornal, que, na África do Sul, um preto matou um branco porque esse branco tinha criado um grupo responsável por matar os pretos… Quem já conhece essa história? Exatamente. A África do Sul não está livre da segregação racial. Muito pelo contrário. Será que a copa do mundo de futebol está ameaçada? Que será do Robinho? Ou do Ronaldinho gaúcho? Ou do Michel Rooney, aquele branquelo da seleção inglesa? E nem se pode lançar à mão aquele famoso jargão popular: ‘eles que são brancos que se entendam’ ou vice e versa. Para o Brasil ganhar a copa, o Kaká tem que se entender com o Robinho e assim por diante. Abaixo a segregação racial.

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