A DOR DO ESQUECIMENTO

Toda vez que esqueço algo que eu ia dizer, uma palavra que escapa da engrenagem do raciocínio, um fio da meada que se esvai em outras lembranças que não aquelas que eu quero conectar, uma memória que quero recordar mas não consigo resgatá-las integralmente, toda vez que isso acontece eu tenho vontade de me bater. Literalmente. Dou-me uns tapas na testa e me xingo de umas palavras não muito lisonjeiras. Martirizo-me sobre o fato de ser incapaz de absorver a capacidade de lembrar. Agora, fico pensando qual não deve ser a dor de alguém que não consegue lembrar o fato de que já não lembra de nada?
Fico lembrando do filme que assisti, ‘Para sempre Alice’, no qual a personagem principal é uma mulher diagnosticada com Alzheimer. E também fico lembrando das últimas vezes em que fui visitar minha avó Petit, que já está com noventa e alguns anos e sofre há já algum tempo dessa doença, que dilacera uma das capacidades mais importantes do ser humano, a de reter memórias e lembranças.
Começa com alguma confusão, a pessoa não lembra de um nome ou de um acontecimento, depois a pessoa começa a esquecer alguns compromissos, então já não consegue lembrar onde mora ou quem são seus filhos ou se o marido já morreu ou não e, por fim, já não é capaz de saber quem é si própria. É só uma carcaça, um corpo sem registros, sem memórias, sem lembranças. Um olhar totalmente esvaziado. Se é que o olho é a janela da alma, como muitos acreditam, então temo dizer que uma pessoa já no estágio avançado desta doença já não tem a sua alma presente. Tem apenas um olhar vazio que revela seu interior oco. Esse tal de Alzheimer leva a alma das pessoas embora. Nada mais triste.
O filósofo francês Jean Paul Sartre trabalha com o conceito da imaginação, no sentido de que esta nada mais é do que a lembrança presente, a imagem construída a cada momento. Uma pessoa que não é capaz de reter suas memórias também não é capaz de criar imagens e, portanto, de imaginar. Enfim, tudo isso pra dizer que a pessoa é o que é por causa de suas memórias e imagens retidas. São esses elementos que configuram sua consciência sobre si mesmo. Uma pessoa com o olhar vazio, portanto, é uma pessoa sem memórias, sem consciência, sem alma.
Antigamente, no começo da doença, minha vó me perguntava se eu já era casado, depois perguntava se já tinha filhos, depois perguntava se eu já tinha casa própria. E eu respondia. E dali a cinco minutos, fazia de novo as mesmas perguntas, não necessariamente nessa ordem. E eu respondia. E daqui a pouco, mais uma rodada de perguntas, as mesmas perguntas. E as mesmas perguntas se repetiam diversas vezes no espaço de uma visita com café e bolachinhas, e nesse mesmo espaço de tempo, eu respondia as perguntas.
Por um instante, sempre passava na minha cabeça: -puxa vida, que chatice, lá vem as perguntas de novo. E de novo. E de novo. Aí eu me dei conta que aquelas perguntas eram o que ela tinha para se apegar aos últimos resquícios da sua realidade. E como eu, leigo na área científica e médica, não pude prever, passou-se o tempo em que poderia me irritar com as perguntas. Pois agora, só o silêncio. A calada e vazia alma.

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