Do amor nos tempos da guerra

Se é pra sofrer, vamos pelo menos sofrer com uma fotografia linda.

Quase nenhuma palavra sobre nossos sentimentos foi dita. Nenhuma palavra sobre sobre amor. Após a guerra, ouvi que Bruno havia morrido. Mas talvez tenha apenas desaparecido, assim como eu. Levei Benoit a uma fazenda e chegamos a Paris uma semana depois. Lutamos pelo que acreditávamos e, quatro anos depois, a França estava livre. Com o tempo tentei esquecer as pessoas que perdi, mas a música sempre me levava de volta para ele. (Suite Française, 2015)

Eu tenho dificuldade em assistir filme e não ficar associando com outros filmes que já tenha assistido. Na maioria das vezes não é nem para criticar, eu só lembro mesmo. Às vezes é a trama, às vezes é o ritmo, as vezes é a paleta de cores (é, eu sei, eu sei, too much) e as vezes é a fotografia. Várias coisas me fazem linkar um filme um com outro, deve ser por isso que tenho esse vício louco em listas.

Hoje estava assistindo Suite Française e me peguei pensando em duas coisas: uma, por quê as nossas fantasias são tão malditas? (vou fazer uma outra lista refletindo e explicando isso e com mais filmes pra ajudar a entender essa cabeça louca aqui) e dois, NOSSA MAS QUE FOTOGRAFIA LINDA, ESSES FILME DE GUERRA COM MULHERES FORTES E ESSE AMOR DOLORIDO E TRISTE QUE COISA MAIS LINDA e fui lembrando de outros filmes que tem esses pontos em comum.

Preparei uma lista curta que vai aqui embaixo com esses filmes. E tentei fugir do óbvio sobre guerras também. Não são filmes só sobre o amor entre dois amantes que a guerra separa. É sobre a guerra separar daquilo que eles amam, que não a eles mesmos, também. Da arte, da pintura, da literatura, da música. Guerras roubam a nossa sensibilidade. Quando não temos tempo para sermos sensíveis é quando mais o estamos. Às vezes a guerra não é só feita de bombas.

Explico:

Acordar todo dia e não ter vontade de fazer o que você tem que fazer é uma guerra. Conviver com pessoas que sugam nossa energia mas a gente não sabe o que fazer para desvencilhar é uma guerra. Entupir de rotina nossos olhos quando a gente só quer fugir para algum lugar tranquilo é uma guerra. E é no meio da guerra que a gente mais precisa de amor e de arte, é quando estamos mais sensíveis a ela mas a gente simplesmente não pode.

Então, fica a lista de fuga. Fica o amor. Fica a arte e ficam as bombas. Com uma fotografia linda.

(A lista não segue uma ordem de melhor para o pior ou vice e versa. Todos são ótimos)


Testamente Of Youth

James Kent, 2016

O drama que se passa na Primeira Guerra Mundial, é baseado na história real de Vera Brittain. Uma jovem inglesa que a contra gosto da família, foi estudar em Oxford enquanto a guerra levou como soldados seu irmão, seu amante e seu amigo.

Mesmo sendo tudo que ela mais queria, enfrentando a desaprovação do pai, e sem a formação necessária para a prova de admissão, após ser aceita em Oxford, ela abre mão de estudar e vai para as trincheiras como enfermeira.

Alicia Vikander, que eu venho observando desde O Amante da Rainha (Nikolaj Arcel, 2013) entrega uma comoção, uma humanidade à personagem, que deixa muito claro quanto sofrimento contido há em Vera.

Aqui, além do sofrimento de ter o irmão e o homem com quem casaria longe de casa e em risco de vida, a guerra também a faz abrir mão de estudar, coisa raríssima para mulheres em 1914.

Mesmo com um romance em jogo, o romance aqui não é o foco. É sobre perdas pessoais, é sobre escolha, é sobre saber conviver com a solidão e o vazio consequentes da guerra. E tudo isso é narrado com muita poesia e delicadeza.

É um filme sensível, de cenas lindíssimas e muita tristeza.

Atonement

Joe Wright, 2007

Atonement é um filme perturbador. E o que choca, não é a violência da guerra. A guerra é um episódio, uma consequência que mais uma vez separa amantes. O que é violento aqui é como detalhes mudam todo o destino de uma pessoa. E como mudar o destino de uma pessoa, muda o destino de várias em volta.

Há sim, o amor. E há a o sofrimento de pessoas que não podem ficar juntas. Mas o que leva a essa separação é um engano, uma impressão errada, um crédito mal dado à alguém.

A história é contada por Briony (Saroise Ronan), uma menina de 12 anos que já escreve grandes histórias, que tem uma imaginação perigosa e é apaixonada pelo filho (James McAvoy) de um dos empregados da casa, que por acaso, tem um relacionamento secreto com a sua irmã Cecília (Keira Knightley). Depois de presenciar um momento de paixão entre os dois, ela o acusa injustamente de ter abusado sexualmente de uma de suas primas. Ele vai preso e depois é mandado à guerra como alternativa à prisão.

O filme se compõe de detalhes e flashbacks, envolto em uma atmosfera de expectativa de que a verdade seja revelada e eles finalmente fiquem juntos.

O segundo ato desse filme é absurdo e o final é um dos melhores e mais tristes plot twists que já vi em filme. Nada clichê. Nada esperado. é maldoso e incrível, assim como a personagem de Saroise.

A fotografia é um espetáculo, o figurino é de muito bom gosto e o roteiro é perfeitamente amarrado. Tudo vale à pena nesse filme.

Suite Française

Saul Dibb, 2015

O filme que me trouxe até essa lista. Um drama delicado, sobre como a guerra transforma.

Na Segunda Guerra, na cidade de Bussy, interior da França, os alemães sitiam a cidade e algumas famílias, com as melhores casas, são obrigadas a abrigar alguns militares de alta patente. Em uma dessas casas vive Lucille(Michelle Williams), com sua sogra. Seu Marido está na guerra e ela não queria se casar, foi “entregue” pelo pai. Ela e o tenente alemão, Bruno (Matthias Schoenaerts) que está hospedado em sua casa, iniciam um envolvimento motivado pela música.

O que me chamou mais atenção é que em dado momento, quando ela o ouve tocar piano, a antipatia que nutria por esse estranho que está em sua casa, se transforma. Em uma conversa entre os dois, ele conta a ela que nunca foi militar. Ele é um compositor que precisou ir à guerra.

Aqui, a guerra não separa apenas pessoas. Separa paixões. Ele não podia mais fazer ou tocar música, ele só podia lutar. A guerra o afasta daquilo que lhe é mais caro, e isso o aproxima de uma outra pessoa impedida de tocar. A sogra de Lucille proíbe que o piano seja tocado em casa, enlutada pelo filho na guerra, sem notícias, sem saber se está vivo ou morto.

Filme de uma fotografia muito doce e melancólica. Muito iluminada, de lindas paisagens rurais, mesmo no contexto de destruição e sítio. É uma história contada com muita delicadeza, onde a maior protagonista é a música.