Eu tinha quatro anos quando conheci a Ana. Passava o dia inteiro com ela e considerava-a minha amiga, já que ela me colocava para assistir TV Globinho, fazia meu lanchinho da tarde, me dava remédio quando eu adoecia e me explicava coisas que eu ainda era muito nova para entender. Mas eu nunca compreendi direito o que era aquela relação que a gente tinha, porque era estranho. Ela era minha amiga, mas era bem mais velha (uns 30 anos, talvez). Era minha amiga, mas era preta — dependia até de um tal “bolsa família”. Minha amiga, mas passava o dia varrendo, cozinhando, lavando roupa — e às vezes eu ficava P da vida por ela não me dar atenção. Ainda me lembro de sentar no chão da cozinha brincando com minhas bonecas e conversando com ela enquanto o almoço ficava pronto; ela estava sempre ocupada. Será que ela pegava dois ônibus para chegar na minha casa todos os dias só para brincar comigo e fazer aquele nhoque de batata maravilhoso? Na minha cabeça, Ana era um anjinho enviado por Deus, que cuidava de mim e não deixava eu me entendiar nunca.

À medida em que fui crescendo, descobri que minha mãe a pagava por esses serviços — esse era o trabalho da Ana! Para uma criança que cresceu ouvindo que seria médica, professora, jornalista, parecia meio absurdo pensar que fazer faxina era o emprego de algumas pessoas. Era inclusive esse o termo usado pela família: Ana é a empregada da casa. Foi um choque descobrir que ela não fazia todas aquelas coisas por vontade, e sim por obrigação. O choque foi ainda maior quando soube que ela na verdade gostava de fazer aquilo, gostava de cuidar de mim e se sentia “grata” por ter “uma patroa tão boa”. Uma vez ela me disse que preferia ficar lá em casa do que na casa dela. Só fui entender o porquê bem mais tarde.

Quando comecei a ir para a escolinha e a aprender várias coisas novas e interessantes, botei na minha cabeça que iria ensinar Ana a ler e a escrever. Eu tinha um daqueles mini quadros-negros e ocupava minhas tardes explicando para ela tudo sobre as letras, as sílabas e os sons. Às vezes emendava e falava sobre Pedro Álvares Cabral, adição e subtração, informática e artes. Ela olhava tudo muito deslumbrada, prestando atenção em cada detalhe que aquela pirralha de 6, 7 anos dizia. “Você é muito inteligente, aposto que vai ser muito rica quando crescer”, ela falava. Eu não entendia o peso daquilo, mas esperava de coração que um dia Ana também fosse muito rica — e quem sabe nós não poderíamos morar juntas numa grande mansão cheia de Barbies, piscinas e escorregadores? Mas ela faria a comida, claro.

Foi quando minha mãe decidiu doar minha cadelinha, a Pipoca, que me imergi de verdade na vida de Ana pela primeira vez. Ela tinha aceitado cuidar da Pipoca, porque tinha se afeiçoado muito a ela durante os anos que fomos seus donos. E lá fomos eu, minha mãe, meu pai e meu irmão entregar a cachorrinha pra Ana. Ela morava na “invasão” (já começa errado pelo nome), uma favela na periferia de Goiânia que nem asfalto tinha. Eu nunca tinha ido em um lugar assim, e acho que até hoje nunca mais fui. As casas não tinham pintura e eram totalmente irregulares e mal planejadas, feias mesmo. Lá fedia e as pessoas me encaravam como se eu fosse uma alienígena, com meus sapatos limpinhos e meu cabelo cheio de enfeites. Eu não queria acreditar que era lá que a Ana morava; e não só ela, como todas aquelas milhares de pessoas perambulando pelas ruas de terra. Era muito para uma criança classe média-bolha absorver.

Descobri também que Ana era casada e tinha três filhos (uau, ela também tem uma vida e uma família?). Seu marido era viciado em drogas, nunca se fixava num emprego e era frequente que batesse nela. O fato de ela preferir a minha casa já não parecia mais tão estranho. Meus pais até faziam um esforço para ajudá-la — afinal, é a empregada, mas é “como se fosse da família”, né? — , no entanto ela não parecia entender a gravidade da situação. Pra ela, era normal; pobre é pobre, rico é rico e homem é assim mesmo.

Só sei que Ana foi se entregando cada vez mais à religião, buscando explicações e razões para tudo aquilo que vivia. Foi aí que o pastor da igreja que frequentava, por algum motivo que até hoje não sei direito, disse que ela devia largar o emprego. E ela, como boa devota, obedeceu.

O dia que Ana foi embora da minha casa foi turbulento e confuso. Eu já tinha uns 10 anos, mas ainda não entendia muito bem o que estava acontecendo. Ela chorava muito e agradecia minha mãe por toda a ajuda e por todo o apoio, desculpando-se por ter que sair. Lembro que ela me abraçou e me desejou uma vida incrível, digna para “meninas inteligentes como eu”. Após ter saído pelo portão, bastou dez minutos para que voltasse — seu olho lacrimejava muito e seu nariz sangrava em uma das tardes secas e quentes de Goiânia. Foi ao banheiro se recompor, deu um último suspiro e saiu de novo pelo portão — agora pra valer.

Nunca mais vi Ana. Uns anos atrás me disseram que ela trabalhava como faxineira em um shopping, mas é tudo que sei. Não sei como estão seus filhos, se continua com o marido, se mudou da invasão, se aprendeu a ler. Pra falar a verdade, penso pouco na Ana enquanto indivíduo. Até porque, depois dela, veio a Sandra. E, se conheço bem minha família, ainda vão vir muitas Marias, Vals, Creuzas e Ednas.

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