Pra mulher é mais fácil

A primeira vez que se referiram a mim como uma mulher, de fato, foi assim:

Eu tinha onze anos fui comemorar o aniversário de uma amiga num parque que passava pela cidade. Estávamos na casa dela antes, numa festinha, e o irmão dela, que já tinha vinte, nos deu carona até o local. O carro só tinha duas portas e eu estava no banco de trás. Quando fui sair, ele meteu a mão na minha bunda. A bunda que eu não tinha, porque eu era uma criança que mal tinha acabado de menstruar, e ele já tinha barba na cara. Eu olhei pra trás, assustada, e ele riu. Falou “ninguém mandou nascer mulher”, me empurrou pra fora do carro de vez, se esticou pra fechar a porta e foi embora.

Muitos anos depois, conversando com um amigo, ele disse que preferia ter nascido mulher pra “poder pagar menos na balada e poder conseguir o que quiser”. Na época eu sabia muito menos sobre o feminismo do que sei hoje, mas o suficiente pra que aquela frase me embrulhasse o estômago. Por que eu sei de todas as coisas que se tornaram mais difíceis pra mim, justamente por causa do meu gênero.

Eu também sei de todas as coisas que vieram mais “facilmente” por eu ser mulher, branca e estar dentro de um certo padrão de beleza. E essas fatores precisaram estar combinados pra eu conseguir um emprego numa certa agência de publicidade, contratada por um cara que depois de alguns meses me demitiu num passaralho e falou pra conhecidos em comum que havia contratado, na verdade, a minha bunda, e me demitiu porque eu “não liberei”. Eu sei que outras oportunidades de emprego surgiram e se foram por motivos parecidos. Quando eu digo isso, você me chama de mal-agradecida. “Mas você teve um emprego numa agência renomada, não importa se foi por causa do seu corpo”.

A verdade sobre o mercado de trabalho para as mulheres é que poucos homens querem ouvir o que você tem a dizer quando você é uma mulher dentro dos padrões com o decote certo.

O problema, meus amigos, é que eu tenho muito a dizer.

E eu vou te fazer me ouvir.

Todos os dias eu acordo e saio de casa com medo. E a mulher que diz que não sente medo de sair na rua está mentindo ou cega. Às vezes eu sinto inveja, às vezes pena. Dizem que ignorância é a maior das dádivas. Eu não estou segura no ônibus, na rua, no trabalho, no hall do meu prédio, no supermercado, na boate, dentro da estação de metrô. Eu não estive segura na escola, com amigos, com familiares, dentro do carro do irmão da minha amiga que deveria me proteger como meu próprio irmão faria.

Eu pago menos pra entrar na balada. Eu posso conseguir coisas com meu decote. Mas sabe o que não veio fácil?

O salário igual ao do homem, o respeito de todos os dias, o direito de vestir o que eu quiser sem precisar ouvir uma opinião que não pedi, a oportunidade de sair na rua sem medo de ser violentada, a propriedade de meu próprio corpo. A chance de ser uma profissional dedicada, de trabalhar as mesmas horas e ter o mesmo reconhecimento, de ter voz numa reunião sem ouvir um homem rindo do que eu falo e depois dando exatamente a mesma ideia.

Sabe o que não veio fácil?

Todo o resto.