A voz de 140 caracteres: o comportamento do público brasileiro no Twitter.

Fundado em 2006 por Jack Dorsey, Evan Williams e Biz Stone, ao acessar o Twitter na época, lia-se a pergunta “Qual é o seu status?”. “Você pode dizer a música que está ouvindo […] Ou dizer às pessoas que está no trabalho”, disse Jack Dorsey1 a respeito da função da rede, que permite atualizações de até 140 caracteres.

A explosão do microblog aconteceu no mesmo ano e, em 2014, a rede contava com mais de 240 milhões de usuários ativos por mês, publicando mais de 500 milhões de tweets2 por dia. Também em 2014, o Brasil estava entre um dos 5 maiores mercados do Twitter3.

Ao passar do tempo, o Twitter ganhou outras funções que não eram apenas o compartilhamento de um status.

[…] No verão de 2008, uma mulher chamada Amanda Rose estava com os amigos num pub londrino e teve a ideia de reunir um grupo deles usando o Twitter. Ela decidiu cobrar pelo evento e pedir doações de alimentos enlatados com o objetivo de ajudar um abrigo local para pessoas sem teto chamado The Connection. Ela batizou o evento de Harvest Twestival e pronto: arrecadou mil libras em apenas uma noite. (STONE, 2014: 241)

O caso de Amanda Rose se assemelha, no Brasil, à mobilização do público em 2013 para a realização de protestos no país inteiro4. Na ocasião, o Twitter foi uma ferramenta eficiente no compartilhamento de depoimentos em tempo real5. SHIRKY (2011) cita generosidade e criatividade em sua teoria e, aqui, dividimos o público em dois grupos: os generosos e os criativos. Ações como o compartilhamento de informações sobre os protestos são feitas por “cidadãos que queriam mudar a maneira como se desenrolava o diálogo público e descobriram que tinham a oportunidade de fazê-lo” (SHIRKY, 2011:50). A mídia tradicional já não era mais necessária, uma vez que um conjunto de pessoas engajadas em uma causa está disposta a produzir conteúdo relevante tendo como retorno apenas a satisfação de ter feito parte do movimento. Aqui, entendemos o lado da generosidade.

Para a parte criativa do público, temos como exemplo a fala de Biz Stone (2014: 75): “A limitação inspira a criatividade.”. A limitação de 140 caracteres imposta pelo Twitter motiva seus usuários a procurar outras formas de passar suas mensagens, fazendo uso, além de texto, de imagens de gifs. E é com essa criatividade que são comentados realities6, debates políticos7 e outros eventos e programas de TV, reforçando a utilização da rede como segunda tela8. Para esse público, não há motivação política, acreditamos que a motivação é ver seu conteúdo propagado. Memes e piadas em geral têm uma alta “propagabilidade” (JENKINS; GREEN; FORD), chegando a ter destaque na mídia tradicional com matérias que listam os melhores memes publicados9. Nesse ponto, há uma convergência entre os meios e há o uso do excedente cognitivo (SHIRKY, 2011) para a elaboração de matérias como essa. A utilização do tweet pode ser o “pagamento” do público e motivo pelo qual ele busca ser cada vez mais criativo e se destacar cada vez mais, sem pensar que os veículos de comunicação monetizam essas matérias.

[…] devemos descrever esse trabalho do público como “engajado” em vez de “explorado”. A discussão sobre “engajamento” se encaixa no discurso do setor que tem procurado nova maneiras de formular, medir e rentabilizar o que as audiências fazem com o conteúdo dentro da cultura de rede […]. No entanto, o “engajado” também reconhece que essas comunidades estão em busca de seus próprios interesses, conectadas e informadas por aquelas decisões tomadas pelos outros dentro de suas redes sociais. Talvez isso seja o que Terranova quer dizer quando descreve que as atividades associadas ao “trabalho gratuito” são “adotadas com prazer” pelos participantes, mesmo quando eles também são tratados como commodity e “explorados” pelos interesses corporativos. (JENKINS; GREEN; FORD, 2014: 92)

Para ambos os públicos, a audiência buscada é qualificada em seus interesses em comum.

Um terceiro público é baseado na sociedade do espetáculo, onde o parecer é mais importante que o ser e não há outro objetivo claro além de ganhar audiência, mesmo que não qualificada10. Nesse caso, “O espetáculo não quer chegar a outra coisa senão a si mesmo.” (DEBORD, 1997: 18). Exemplificamos aqui, como dinâmica de publicação, a utilização da hashtag11 #SDV12, ou da utilização de diversas hashtags que estão em destaque no momento, mas sem relação real com o conteúdo que está sendo publicado. Enquanto os públicos baseados na teoria de Shirky (2011) têm seu desejo de publicação baseado em fatores externos, como eventos políticos e programas de TV, o último público citado tem seu desejo alimentado pelos retweets13, replies14 e likes15. Para eles, “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens” (DEBORD, 1997: 14).

O fato comum entre os três públicos exemplificados é que “os usuários que geram conteúdo on-line estão frequentemente interessados em expandir sua própria audiência e reputação” (JENKINS; GREEN; FORD, 2014: 91). Por um motivo baseado em uma causa, baseado na geração de conteúdo ou na publicação de tweets vazios, onde há só a publicação pela publicação, os públicos têm uma motivação principal, que é o aumento das relações sociais por meio de audiência e reputação. Nota-se que, “a ideia de relação social é independente do seu conteúdo. O conteúdo de uma ou várias interações auxilia a definir o tipo de relação social que existe entre dois interagentes.” (RECUERO, 2009).

O conceito de capital social está “frequentemente associado aos valores que circulam nas redes sociais” (RECUERO; ZAGO, 2010) e é percebido pelo usuário, impactando diretamente nas motivações de publicação e interação. Na visão de Putnam (2000), existem duas formas de capital social: o capital conector e o capital fortalecedor.

Enquanto o segundo está relacionado com a intimidade, a proximidade e outras qualidades normalmente relacionadas com grupos mais coesos e com os laços fortes, o primeiro está mais relacionado com as relações mais distantes, entre grupos heterogêneos, os chamados laços fracos. (RECUERO; ZAGO, 2010)

Analisando os três públicos do ponto de vista de Putnam (2000), podemos compará-los de acordo com os laços estabelecidos. O público definido pela teoria de Shirky possui laços mais fortes com seus nichos, uma vez que o público está em busca de qualidade; já o público definido pela teoria de Debord, possui laços mais fracos pois está baseada na quantidade.

Por ser um microblog, alguns estudos realizados com foco principal em blogs também são pertinentes ao Twitter, como é o caso da relação de valores feita por Recuero (2008) com os tipos de capital social de Putnam (2000) que pode ser vista na Tabela 1.

Apesar de citado por Recuero e Zago (2010) como característico das redes sociais, não levamos em conta um terceiro tipo de capital, o de manutenção.

Tabela 1. Relação valores percebidos x tipo de capital.

Os valores descritos acima seriam, portanto, formas mais específicas de capital social, apropriadas e moldadas pela rede social. Esses valores, embora construídos de forma coletiva, poderiam ser apropriados individualmente. […] Desse modo, a difusão de informações poderia ser observada por meio das conexões e das trocas estabelecidas entre os indivíduos. (RECUERO; ZAGO, 2010)

Relações feitas, acrescentamos uma terceira coluna à tabela, relacionando o público, representado pelo teórico, aos valores e tipos de capital que estimulam suas ações na rede.

Tabela 2. Relação valores percebidos x tipo de capital X Teórico

Apesar da utilização de teorias de autores de outras nacionalidades, o artigo refere-se ao comportamento do público brasileiro no Twitter. As associações feitas entre os teóricos também teve base nesse comportamento.

REFERÊNCIAS

BBC BRASIL. 2013. Análise do uso do Twitter revela ‘mapa’ de protestos no Brasil. Acessado em: 04/12/2016, disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/07/130710_protestos_tweets_hashtags_cc_mdb

BILTON, Nick. A eclosão do Twitter. Uma aventura de dinheiro, poder, amizade e traição. São Paulo: Ed. Schwarcz, 2013.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro; Ed. Contraponto, 1997.

GIZMODO. 2014. Qual é o perfil dos usuários do Twitter no Brasil? Acessado em: 04/12/2016, disponível em: http://gizmodo.uol.com.br/perfil-twitter-brasil/

JENKINS, Henry; GREEN, Joshua; FORD, Sam. Cultura da Conexão: criando valor e significado por meio da mídia propagável. São Paulo: Aleph, 2014.

NATELINHA. 2016. “MasterChef” e “X Factor Brasil” lideram repercussão no Twitter para a Band. Acessado em: 04/12/2016, disponível em: http://natelinha.uol.com.br/noticias/2016/11/27/masterchef-e-x-factor-brasil-lideram-repercussao-no-twitter-para-a-band-103624.php

O GLOBO. 2014. O Brasil foi às ruas em junho de 2013. Acessado em: 04/12/2016, disponível em: http://acervo.oglobo.globo.com/fatos-historicos/o-brasil-foi-as-ruas-em-junho-de-2013-12500090

OLHAR DIGITAL. 2012. 2006 a 2012: uma breve história do Twitter no Brasil. Acessado em: 04/12/2016, disponível em: http://olhardigital.uol.com.br/noticia/uma-breve-historia-do-twitter-no-brasil/31118

PUTNAM, R.D. 2000. Bowling alone. Nova Iorque; Simon & Schuster, 2000.

RECUERO, R. 2008. Information Flows and Social Capital in Weblogs: A Case Study in the Brazilian Blogosphere. In: ACM Conference on Hypertext and Hypermedia, 2008, Pittsburg. Acessado em 04/12/2016, disponível em: http://pontomidia.com.br/raquel/ht08fp009recuerofinal.pdf.

RECUERO, Raquel. Redes sociais da internet. Porto Alegre: Ed. Meridional, 2009.

REVISTA FRONTEIRAS. 2010. “RT, por favor”: considerações sobre a difusão de informações no Twitter. Acessado em: 04/12/2016, disponível em: http://revistas.unisinos.br/index.php/fronteiras/article/view/4668

SHIRKY, Clay. A CULTURA DA PARTICIPAÇÃO: criatividade e generosidade no mundo conectado. Rio de Janeiro: Ed. Zahar, 2011.

STONE, Biz. Um passarinho me contou. Confissões de uma mente criativa. Rio de Janeiro: Ed. Best Seller, 2014.

TECMUNDO. 2010. A história do Twitter. Acessado em: 04/12/2016, disponível em: https://www.tecmundo.com.br/rede-social/3667-a-historia-do-twitter.htm

VEJA SÃO PAULO. 2014. Os 10 melhores memes do ‘MasterChef Brasil’. Acessado em: 04/12/2016, disponível em: http://vejasp.abril.com.br/blogs/pop/2014/12/16/masterchef-brasil-piadas/

1BILTON, 2013: 70.

2Como são chamadas as atualizações feitas no Twitter.

3http://gizmodo.uol.com.br/perfil-twitter-brasil/

4http://acervo.oglobo.globo.com/fatos-historicos/o-brasil-foi-as-ruas-em-junho-de-2013-12500090

5http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/07/130710_protestos_tweets_hashtags_cc_mdb

6http://natelinha.uol.com.br/noticias/2016/11/27/masterchef-e-x-factor-brasil-lideram-repercussao-no-twitter-para-a-band-103624.php

7https://canaltech.com.br/noticia/twitter/Primeiro-debate-dos-candidatos-a-presidencia-gerou-790-mil-tweets/

8http://propmark.com.br/digital/twitter-se-alinha-como-segunda-tela

9http://vejasp.abril.com.br/blogs/pop/2014/12/16/masterchef-brasil-piadas/

10Aqui, a qualificação tem relação com interesses em comum.

11Palavras-chave precedidas do símbolo “#”que se tornam hiperlinks, tornando fácil a organização de diferentes assuntos dentro da rede.

12Sigo de volta.

13Compartilhamento de tweets por outros usuários, dando crédito ao autor.

14Reply é a resposta dentro da rede.

15Likes são as curtidas dentro da rede.