Zona de C̶o̶n̶f̶o̶r̶t̶o̶ Controle

Há meses eu não retorno na nutricionista, não me sinto totalmente à vontade com as novas psicóloga e psiquiatra que começaram a me atender na Unicamp. Leva um certo tempo de adaptação e, diante disso, me sinto vulnerável e confesso que um pouco sozinha, desamparada.

Uma parte de mim tem muito medo, medo de não avançar no tratamento como nos últimos meses. Medo de enfrentar recaídas mais severas, ter consequências como novas infecções e me destruir ainda mais..

Entretanto, outra parte de mim, uma vozinha interna, me diz o contrário, me fala que está tudo bem e estou “ no controle da situação”. Diante do retorno dessa voz, que há muito tempo não se pronunciava, comecei a me questionar. Apesar da certa flexibilidade que consegui estabelecer em minha rotina, ainda mantenho uma alimentação e frequência de exercícios muito rígida, sentindo uma culpa extrema se não cumpro as regras que estabeleci para mim mesma. É como se ultimamente eu me sentisse sob controle do distúrbio de novo, em sua zona de conforto. E a ínfima flexibilização que introduzi ainda me permite obedecer ao transtorno, as mudanças que consigo estabelecer são sempre pré aprovadas pela anorexia.

Ao longo dos anos com o transtorno alimentar, eu desenvolvi mecanismos que me permitiam me sentir bem comigo mesmo, estabeleci uma série de regras e comportamentos “saudáveis” para evitar possíveis triggers que desencadeassem uma restrição alimentar e compulsão por exercícios ainda mais severa. Basicamente, diante da incapacidade de controlar variáveis externas (mudanças e desafios que a vida nos impõe), eu me controlo ao máximo no peso, nas calorias, na aparência, na autocobrança.

E nesta fase da recuperação, esse retorno de controle vem com uma mistura de sensações. Tanto o bem estar que o controle sempre me proporcionou como o medo de cair nos braços da anorexia e me perder de mim mesma. Além disso, vem a intensa culpa por não ser forte o suficiente, capaz de seguir o tratamento como eu deveria.

Eu não tenho uma resposta e nem uma mensagem inspiradora pra finalizar este desabafo, como nos meus textos anteriores. Eu não sei como devo agir agora, mas também não quero me pressionar e colocar ainda mais pressão sobre mim mesma. Acredito que também preciso ser paciente comigo mesma, respeitar meus limites, aprender a me amar e a me aceitar. E uma das coisas que posso fazer agora é criar coragem para marcar o retorno com a nutricionista, e ir aos poucos introduzindo mudanças e quebrando a rigidez que construí para mim durante a vida inteira.